A revisão

 

Sou revisor técnico de uma importante revista acadêmica da área das Ciências Sociais. Periodicamente, recebo de seis a oito artigos, de 20 a 40 páginas cada, em Times 11 e espaço 1,15. Geralmente com alto grau de abstração. Gosto mais dos ensaios teóricos; facilitam minha vida, pois seus autores tendem a ser gente letrada, que escreve bem, embora em minha opinião filosóficos demais para uma área supostamente científica. Ainda que não pareça, é um trabalho importante. A elite da área lerá (eu espero…) esses artigos, e importantes ações – algumas inclusive com consequências políticas – serão tomadas. Uma ocasião de revisão. É disso que falaremos hoje.

 

 

O processo de revisão costuma começar por volta das quatorze horas. Alimentado, momentos antes preparo meu chá verde e despejo-o num copo de acrílico longo e esguio, que pode ser vermelho, azul ou verde. Essas cores cumprem um papel importante, pois me tranquilizam; não viveria muito bem sem cores – especialmente de matiz intensa. Claro, gostaria de beber meu chá num copo da Bauhaus, mas certas (MUITAS!) coisas exigem mais quantidade daquele recurso básico do qual quase tudo depende (isto é, o dinheiro). Neste momento os ponteiros do relógio costumam apontar algo entre treze horas e treze e trinta. Leio algumas notícias, consulto as últimas novidades de meu Real Madrid – especialmente em dias de El Clasico – e as novas do mundo do cinema, da moda ou dos games. E acesso algum site de arquitetura, para baixar imagens que deveria, num futuro próximo, sistematizar (veja bem: deveria). Abro o Winamp e coloco algo gentil, leve e ambiente, para estimular e ao mesmo tempo acalmar o cérebro; o que tende a ser algo eletrônico, mas suave (Depeche Mode e Röyksopp são as escolhas mais prováveis), ou um indie melódico; “I Found a Whistle” me levaria às nuvens. Assim começo positivamente. Chegam as quatorze horas e começo o trabalho; isso pressupondo, é claro, que não protelei mais um tempinho; talvez até por causa da música, afinal nada é cem por cento…

 

Sento e encaro as palavras. É preciso encarar as palavras. Ler e escrever não é um ato intuitivo e automático como se imagina, é um treinamento longo e árduo, como qualquer esporte. Claro, nem todo texto é difícil ou um desprazer. Há aqueles em que o olhar desliza gentilmente e a experiência geral é de puro deleite. Mas as chances de algo assim caem drasticamente com um texto técnico, quando a relação com as ideias é bem menos intuitiva e a precisão conceitual sobe ao primeiro plano. Um texto literário explora aquela margem de vago que envolve os elementos da língua. Usa essa margem para investigar, articular e combinar sentidos e representações dos mais diversos. E, assim fazendo, explora também o espírito humano, que é analogamente ambíguo, arrastando o leitor, como um convite irresistível, para dentro do mar de experiências e emoções codificadas nas relações entre as palavras. Por meio dessa cumplicidade de humanidade comum, fundada na linguagem, o leitor é convidado a subir a bordo e fazer parte da jornada. É simples: as ambiguidades e a imprecisão das palavras são precisamente o que incita a imaginação. E, com isso, de mais sentido à vida. Mas quando é preciso ser exato tudo isso se dilui, e a relação com o texto torna-se pura ou predominantemente racional. A decodificação é consciente, o que exige mais atenção, exige cálculo. Veja bem! É possível ter aquela sensação de transcendência, de iluminação infinita, com textos científicos ou filosóficos. Eu mesmo já o tive inúmeras vezes. Mas isso ocorre em meio a uma corrente de duro raciocínio. Isto por si só já torna o processo de leitura mais árido.

 

o texto é às vezes uma sopa impalatável

 

Se não bastasse essa “desvantagem”, às vezes, dependendo do texto, é preciso espremer o caldo de entropia semântica para gerar algo palatável. Ocasionalmente, contudo, a conexão entre as palavras escapa de minha posse, a trama de sentidos torna-se contraditória, os conceitos obscuros, a concatenação desestruturada. O texto me derrota. Faz troça, se esquiva. Veja bem. Nessas circunstâncias está em minha frente uma dura, dura!, realidade – um texto também é uma realidade, embora simbólica – cuja apreensão esconde-se por trás de muralhas semânticas. Em poucos minutos, um surto nauseante sobe do estômago ao peito, passa pelo esôfago e atinge o cérebro, que bloqueia as sinapses nervosas e recusa-se a continuar com tal sujeição. Então me afogo nas letras, tornando impossível a permanência em frente ao computador. Daí o alarme soa e entro num estado de frenesi. Meu corpo levanta-se automaticamente e a mente trata de mudar de modus operandi, desencadeando uma reação catártica sistemática. Meu ser precisa obrigatoriamente desopilar o acúmulo de toxina simbólica.

 

O estado que se segue é sempre um delírio, embora varie a maneira com que se exprime. Mas alguns elementos são usuais. Começo sempre abandonando a toca, isto é, o perímetro de seis metros quadrados que envolve a mesa, a cadeira, os quadros e as estantes de livros, e passo a vagar pelos cômodos do apartamento. Idealmente passearia com a bicicleta, através dos esconderijos das redondezas, cantando um cover embaraçado de David Bowie; mas não tenho tempo suficiente para isso. Então me resigno com minha marcha frenética em cativeiro. Ela, por sua vez, também assume configurações específicas. Uma combinação recorrente são as mãos nos cabelos, os dedos pressionando o couro cabeludo, massageando-o vigorosamente num vai-e-vem de cima a baixo, entrelaçando os fios e arruinando minha cabeleira.  Atos que se somam a risos desvairados, algumas gargalhadas e simulações de sons catatônicos. Acompanhados de alguma música. Ah, sempre, sempre! Sim, a música é fundamental. Não é possível sem música. Ela dá o tom ao conjunto. Sem ela não saberia o que fazer, ser ou proceder. Provavelmente entraria em pânico, num limbo do qual demoraria a sair.

(Por isso é importante que o sistema de áudio nunca pife. Pelo menos não nesses momentos. Não pife, sistema de áudio. Não pife. Não pife, entendeu?!?)

 

não há nada sem música

 

A música precisa apossar-se de mim, incorporando e potencializando o estado psíquico em questão. Então, automaticamente, sem cálculo algum, escolho algo colérico, intenso e arrebatador. Precisa ser denso, envolvente. A Sinfonia Fantástica é um must. Não toda ela, somente o famoso quinto movimento. Sinto arrepios só de pronunciar ou escrever esse nome. O Requiem de Mozart, especialmente “Rex”, é outra opção bastante comum (outro arrepio). Mas não sou um cara conservador. Glam rock está no topo do repertório. Ou um bom indie. Gritos de guitarra, vozes emocionadas. Precisa ser forte. Mas não caótico, demasiado estridente; precisa ter melodia. O tempo de Johnny Rotten passou. Também não precisa ser uma eufonia. Pode até haver elementos cacofônicos, como a sinfonia eletrônica de Akira, especialmente “Kaneda”, “The Battle Against the Clowns” (dêem uma chance para o final) e, claro, seu Requiem. Que é coisa fantástica, genial, voz do Mônada. O importante é preencher a atmosfera com estímulos que suscitem as imagens e sensações apropriadas à catarse mental. E a faixa escolhida precisa ter um clímax. Já veremos por quê.

 

Muito bem. À medida que o som ecoa, eu o persigo. Então, meus membros lentamente se dobram e se estendem, às vezes batem no peito, assumem posições por vezes esbeltas, frequentemente embaraçosas, ocasionalmente trágicas, que se sucedem ou se misturam com a andança, numa espécie de dança fantasmagórica; as mãos agarram a si próprias, a respiração transforma-se em uma torrente de suspiros ofegantes, lábios levemente mordidos. Uma onda de calor me invade, o corpo pulsa, a mente pulsa. No íntimo, começa a ocorrer uma singularidade. Nesse ponto já é comum sentar-me no centro do sofá, para extrair o máximo das caixas de som, portanto do que ecoa delas. Aos poucos, mas desde o início, a agitação física torna-se cada vez mais psicofísica, espiritual, tornando-me profundamente introspectivo. Mas ainda agitado. Mesmo sem controle, tenho uma percepção samádhica de toda a situação, e especialmente do que está por vir. Na verdade, é como se as sensações do presente ocorressem em função de uma expectativa semiconsciente do porvir. Como se o futuro controlasse o presente; a expectativa guiando a ação.

 

 

A música procede e as vozes, sons e instrumentos anunciam o ápice. Então, balanço a cabeça para os lados em êxtase, até o mais profundo de meu íntimo,  e vocalizo a passagem em que se encontra a música (imitação que é às vezes – às vezes – razoável). Segundos antes do pico o ar nos pulmões já é escasso e a contração muscular está no limite. Então, quando toda essa articulação atinge o cume, um êxtase transcendental toma conta de mim e uma sensação de liberdade e superação inunda cada matéria do meu corpo. É então que o emaranhado de sinapses e ideias entra em sincronia com as sensações psicofísicas. O efeito desse conjunto é uma verdadeira catarse, parecendo-se com uma experiência mística. Tudo isso é extravasado, parecendo expelir as toxinas intelectuais acumuladas. Então, quando os sonofletores cessam de emitir sons, tudo se esclarece. As faculdades mentais revigoram-se, e sou inundado de coragem. Paro por cinco minutos e vou tomar algum suco, de preferência abacaxi ou maracujá, se não tiver uva, claro; ou algo doce. Respiro profundamente, recupero as energias e retorno confiante à toca. Ligo os monitores e os caracteres voltam a brilhar em meu campo visual. Mas agora é diferente. Estou preparado, com os legionários a postos. Sei o que esperar e o que combater. E, o mais importante: como fazê-lo. Daí por diante só farei outra coisa quando tiver terminado. Só sairei dali quando vencer o texto. Que consiste em torná-lo legível, econômico e elegante. (Infelizmente, assim como é mais fácil abordar racionalmente os problemas pessoais dos amigos e agir inconsequentemente com os nossos próprios, é muito mais fácil tornar bons os textos de outrem. Muito obrigado, senhor Ego!)

 

É esta, em geral, minha experiência com revisão de textos. A companhia de meus leitores virtuais poderia me fazer escrever para sempre, mas é chegada a hora de despedir-me. Tenho um Golias-artigo a revisar. Vou me despedir agora. Até mais.

 

F.

 

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