Tofu, premonição e lógica imanente

 

 

 

Nada especial no dia de hoje, exceto uma ocorrência envolvendo Tofu. Sim, eu como Tofu. Mas não por fazer bem à saúde (bem, não somente por isso) ou pelos naturebas dizerem que faz bem ou que incorpora as forças de Gaia etc. Com um pouco de azeite, cebolinha, pimenta e uma pitada de shoyo fica até saboroso. Não é uma obra de culinária, mas também não é ração de astronauta.

 

 

O Tofu, pelo menos o meu, vem embalado num plástico cheio d’água (com alguma coisa a mais, mas é definitivamente água). Igualzinho aqueles peixinhos de estimação, embalados numa sacola plástica lacrada com um lacinho ou uma argola de metal. Mas com o peixinho, simplesmente posiciona-se a sacola sobre o aquário e corta-se o laço, fazendo a água esvair-se, e com ela o peixe, à medida que a gravidade opera e a sacola cede por não ter as propriedades necessárias para manter-se de pé. O peixinho entra no aquário, as crianças ficam felizes e os pais orgulhosos.

 

 

 

o Tofu vem embalado num saco plástico semelhante ao dos peixinhos

 

 

Mas com Tofu não é tão simples assim. A não ser que o objetivo seja comer 500 gramas de queijo de soja e ter um sério problema digestivo, é preciso armazenar uma parte. Mas da mesma forma que queijo minas, o Tofu resseca e estraga fora do soro fisiológico. Neste ponto estou certo que o leitor já sentiu o drama e sabe o que vai acontecer. Ele está tendo uma premonição. Guarde isso em sua memória, será importante mais tarde. Continuemos. É preciso abrir o saco plástico sem derramar o líquido. Logo, a maioria dos seres humanos, conhecendo praticamente os efeitos da gravidade, adicionaria outro recipiente à equação, um que se sustentasse e fosse apropriado ao armazenamento. Mas por alguma razão tentei abrir o saco do Tofu sem antes posicioná-lo sobre ou ao lado de um recipiente. Eu simplesmente equilibrei o Tofu sobre a bancada da pia e encarei a argola de plástico. O Tofu mal conseguia se equilibrar – lógico, lógico –, então tive de usar a mão esquerda para segurá-lo em sua posição. Assim procedendo, restava só uma mão para cortar a argola e mais nada para evitar que a água seguisse seu caminho natural. Daí, com a mão direita peguei a tesoura. Ou seja, estava pressupondo que a gravidade ou alguma entidade mágica subvertessem a lógica do real pelo bem de minhas idiossincrasias.

 

 

não é possível subverter as leis da gravidade abrindo Tofu

 

 

Mas a razão deste post não é a catástrofe que se seguiu – embora engraçada o suficiente para merecer um post exclusivo. É minha reação a toda a cena. Lá estava eu segurando o Tofu e a tesoura. Então, à medida que eu aproximava a tesoura da argola de metal, à medida que a distância diminuía, inconscientemente comecei a rir. É, sério, comecei a rir. Mas não parei de aproximar a tesoura do saco [do Tofu]. E não foi por querer. Eu não queria fazer isso, pelo menos não deliberadamente. Talvez alguma coisa inconsciente, alguma curiosidade irracional, mas o importante é que eu sabia o que aconteceria, embora não quisesse conscientemente que isso ocorresse e não conseguisse evitar.

 

 

Mas fui além! Não consegui cortar toda a argola. Fui capaz de fazer dois furos. E não apenas, mas um na frente e outro atrás. Cento e oitenta graus entre eles. Uma linha reta entre cada orifício. Como? Não sei. Mas consegui. A essas alturas eu já era todo gargalhadas. O líquido começou a vazar. Para evitá-lo, precisei mover o saco com a mão esquerda. Acabei apertando-o, fazendo jorrar soro fisiológico na parede da frente. (Eu quase não conseguia mais segurar o Tofu, de tantas gargalhadas.) (Aliás, a precisão do jato impressionava.) Então tentei segurar o saco pelo outro lado. O que simplesmente mudou o sentido do jato, que passou a jorrar pelo buraco oposto. E o que estava no lado oposto? Sim, eu. Então, enquanto me inundava com jato fisiológico de Tofu e morria de riso de minha própria situação, tive uma ideia. Claro, antes de elaborá-la larguei a tesoura, levantei o saco pela extremidade e o coloquei sobre a pia. Salvei o Tofu e executei o procedimento normal, usando um recipiente auxiliar.

 

 

[Antes que um eventual freudiano argumente que tudo isso não passam de expressões de minhas pulsões sexuais reprimidas; ou que é pura malícia, que este pobre blogueiro usa peixinhos e Tofu como pretextos para falar de jatos jorrando, sacos segurados e outras coisas obscuras; saiba, meu caro leitor, que o fato realmente ocorreu e estou referindo-me unica e exclusivamente ao Tofu e seu invólucro!]

 

 

 

 

 

 

Quanto à ideia. É simples. Filosofia pura. Na verdade não foi uma ideia, uma elaboração, um insight, foi apenas júbilo por presenciar a prova de um conhecido princípio geral. Os eventos futuros estão inscritos no presente como fatos potenciais. Assim, não é qualquer coisa que pode acontecer, mas somente aquilo que é possível dentro das propriedades e circunstâncias do presente. Minhas ações combinaram-se com a estrutura do real, produzindo um estado futuro óbvio. E o mais importante: essas regularidades, essa lógica do real transforma-se em expectativas subjetivas – fazendo com que saibamos o que ocorrerá. É nosso senso prático que prevê o futuro e guia nossa ação de acordo. Assim, tive essa premonição. Intuitivamente já conhecia o futuro antes dele ocorrer – e assim já ria da catástrofe antes mesmo dela sair do estado latente para o atual. Assim como VOCÊ, querido leitor, também já sabia o que aconteceria, antes mesmo de eu dizê-lo. (Novamente, engraçado como tendemos a usar a palavra “premonição” para descrever expectativas negativas e “intuição” num sentido mais positivo.) Agora, claro: por que diabos continuei agindo como agi. Isso já é um mistério da Psicologia.

 

 

 

Moral da história: é preciso dar ouvidos à intuição prática e à lógica da realidade imanente ao abrir seu Tofu. Ou a despejar seu peixinho. (Tem de ser SOBRE o aquário; sabe-se lá o que mais posso inventar.) Espero ter aprendido a lição.

 

 

 

(Vocês estão rindo de mim? Estão rindo de mim? ESTÃO RINDO DE MIM??? Tudo certo, eu também estou.)

 

 

Bem, por hoje é só. Até mais.

 

 

F.

 

 

 

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