A day in life

 

Hoje era para ser um dia como outro qualquer. E provavelmente o foi. Mas, por alguma razão, fui mais uma vez atacado pelas ideias e passei a reparar no que normalmente não o faria.

 

 

Às nove saio da cama, quase um recorde pra mim.  Executo os procedimentos higiênicos usuais; faço minha vitamina – a solução encontrada para minha preguiça de fazer café da manhã (é um saco fazer café da manhã somente para si). Procedo com os procedimentos estéticos usuais e me visto. Desta vez de bermuda Polo azul, camiseta laranja cor de cenoura e mocassim branco, associados a um óculos verde e fita branca no pulso direito (em princípio para amenizar o stress do uso do PC, mas temo que já tenha transformado-a em acessório de vestuário). Preparo minhas coisas e saio para o Yôga.

 

Por enquanto, o impulso que me incitaria a escrever este post não havia acontecido. Mas logo o fará.

 

Cheguei cedo e a Unidade está vazia. O pico de atividade, o foco, é à noite. Penetro a sala de estudos, onde encontro um violão encostado e o trago para perto de mim. Está desafinado e faz oito anos que não afino um violão. Não que fizesse tanta diferença, precisava dos mesmos 30 minutos para tornar as notas minimamente aprazíveis.  Coloco-o em ordem enquanto converso com um dos instrutores, o responsável por fazer o almoço nas sextas. Pessoa fantástica, aliás. Mas temo que o aborreça acima da média. Talvez. Me divirto um pouco com o violão e tiro um minúsculo fragmento dos oito anos de ferrugem musical e, quando começo a desenvolver alguma insatisfação com minha falta de conhecimento musical, encosto meu novo amigo e pego um livro pra ler. Vou direto ao Tratado. Tenho três meses de prática e vou direto ao Tratado. É como ler Distinction sem ter lido as Regras do Método ou a Bíblia antes de saber quem é Jesus.

 

As condições necessárias para este post ainda não haviam surgido. Ou seja, ele ainda não tem razão de ser. Mas é um post interessante, eu lhe asseguro, querido(a) representante de minha meia-dúzia de leitores(as).

 

Realizo a prática, até bem desta vez, embora tenha sido mais leve que de costume. Mas não posso me prolongar na Unidade. Preciso ir até os Correios retirar um pacote internacional. Tributado. Vish. Sabe, para mim, receber um pacote tributado não significa apenas subtrair certo quantum de forma dinheiro dos meus bolsos. É de certo modo uma derrota. Nem sempre, às vezes é puro azar; depois de reclamar do resultado do jogo da noite anterior, o fiscal pode olhar justamente para o meu pacote e elegê-lo como seu bode expiatório, para descarregar toda daquela cólera futebolística acumulada (a qual, como homem, entendo perfeitamente). Mas às vezes trata-se de algum erro meu nas instruções ao vendedor. Não verifiquei o pacote ainda, então vamos fazê-lo. (Pausa para verificar o pacote.) Ah. O vendedor declarou como “Gift”, certo. Mas o “Cosmetics” usado para definir o conteúdo foi carimbado, e o valor declarado é ilegível. Batata. Tá na cara que o remetente é empresa comercial e que queria dissimular o valor do produto. E é chinesa. Batata, batata. Mas não necessariamente só isso: especulo que o azar também cumpra algum papel na equação. Mas pelo menos desta vez não foi erro meu. Ótimo! Já ganhei meu dia.

 

Mas lembre-se, leitor, que ao sair para os Correios as condições necessárias para este post ainda não se haviam reunido.

 

 

E não é qualquer unidade dos Correios, mas a que faz a distribuição de pacotes tributados. Precisaria pegar o ônibus e investir uns 40 minutos à empreitada. (Bem que o chinês podia, né, não ter carimbado meu pacote e ter uma grafia legível…).

 

Coloco Trick Pony para tocar no player do celular. Da charmosíssima Charlotte Gainsbourg. As condições necessárias começam a articular-se. Mas ainda penso em “controle, controle” e observo a mão direita (aquela cujo pulso tem a fita branca). Uso-a como termômetro de meu grau de autocontrole. Por isso observo-a frequentemente. O que de certa forma denuncia que ele está baixo. Mas não é disso que trata este post.

 

Antes de pegar o ônibus, passo no Banco para sacar o dinheiro dos impostos. (Aliás, qual o percentual de cada real arrecadado que vai parar nos bolsos de algum salafrário, ou é mal investido? Pense nisso. Pense. Mas não muito!) O caixa eletrônico se recusa a me dar dinheiro. Calma, tenho saldo! A máquina trava bem na hora de saírem as notas. E agora? Vão gerar o débito na minha conta, mas sem me dar o dinheiro?!? Protesto educadamente com a pobre recepcionista do Banco. (Não sou Yôgin, mas até que sou bem educado.) Pensando somente em meu dinheiro, não cheguei a pensar nela, em como deve ser ficar oito horas e meia diariamente sentada num banquinho à entrada, esperando, esperando, esperando. Seu trabalho é esperar e, eventualmente, dar direções aos clientes. Mas quando é que clientes precisam de direções? Quando estão perdidos. E quando estão perdidos, os clientes estão bravos. Pobre recepcionista. Mas, como disse, não pensei nela; estou fazendo-o agora, por ter sido acometido pelo estado de hiperestimulação mental de que trataremos logo adiante, e do qual ainda não me libertei. No Banco, ao contrário de agora, pensei somente em meu dinheiro. Como de praxe. Mas fui educado e agradeci-a por me ajudar. Bastava esperar a máquina resolver o dilema de dar ou não dar meu dinheiro; se ela não o fizesse, não haveria débito em minha conta. Ainda não consultei meu saldo (deveria tê-lo feito), mas tenho essa mania de acreditar em demasia no trabalho dos geeks da informática.

 

Aliás, quando se trata de computadores e sistemas operacionais, sou místico total. Acredito que me “percebem”. Isto é, tenho algum tipo de campo energético, eletromagnético, ectoplasmático, algum eletroferomônio, enfim, alguma coisa os faz perceberem minha presença e darem pau deliberadamente. Poderia escrever um livro – e longo, veja só – apenas sobre minhas (más) experiências com computadores.

 

adoro os computadores, mas eles não gostam de mim

 

A música, minha eterna companheira, continua a conversar comigo. David Bowie agora. Lady Stardust. Acústica, demo, versão de comemoração ao trigésimo aniversário de The Rise and Fall of Ziggy Stardust – uma dessas coisas que a humanidade produz a cada alguns séculos.

 

“The boy in the bright blue jeans
Jumped up on the stage
And lady stardust sang his songs
Of darkness and disgrace

Yes he was alright, the band was altogether
And he was alright, the song went on forever
And he was awful nice
Really quite paradise
And he sang all night long”

 

Com dinheiro no bolso, pego o ônibus, salto, ando – está um sol intenso, embora o ar não esteja muito quente, calculo uns 25 ou 26 graus, e está seco, mas não muito. Está bom. Sinto-me bem. O verão é bom assim. Benesses de uma altitude de 940 metros. Te digo, queridas leitoras: tenho uma capacidade sobrenatural de perceber a temperatura ambiente. Sou capaz até de levar em consideração a umidade relativa do ar, a radiação solar e a influência do vento, descontando ou adicionando os graus necessários, neutralizando assim as influências da sensação térmica.

 

(Consultando o banco de dados do aeroporto Afonso Pena, de Curitiba, vejo que faziam 25 graus às 13 horas, quando me deslocava até os Correios. Na mosca. E isso com o Sol de verão rachando o coco. Ahá! Não falei? Sou fodão.)

 

Retorno à charmosíssima Charlotte Gainsbourg. Me and Jane Doe. Leve, leve, leve como um campo de girassóis às margens do Mediterrâneo.

 

“If I had my way
I’d cross the desert to the sea
Learn to speak in tongues something
That makes sense to you and me”

 

Mas este não é o ponto. Chego aos Correios. Dou sorte, não tem ninguém na fila; a moça do caixa está mal-humorada; mas consigo pegar meu pacote. Pelo tamanho da caixa percebo que se trata de algum cosmético. Sabe, especialista em compras de eBay que sou, compro cosméticos para amigas minhas, além da mamãe. Claro, compro outras coisas, mas desta vez era um cosmético, e provavelmente para a mamãe ou alguma amiga. Mas não me sinto mal por isso, muito, muito pelo contrário, embora confesse que torcia para que fosse o Need for Speed.

 

 

Desde que saí do Yôga, já escutei Trick Pony umas cinco vezes. Isto, mais a expressão da moça do caixa; as condições começavam a atingir o ponto crítico. Saio dos Correios. Até aqui só pensava em autocontrole. Controle ascético sobre o corpo, sobre o andar, sobre a postura e sobre a mente. Mas é então que observo a parede externa de uma lanhouse, no caminho de volta ao ponto de ônibus. Dois caras malvados da Swat, empunhando orgulhosamente suas M16A4; um deles em pé, mirando para o nada, e o outro agachado, com o fuzil inclinado para baixo e fitando ameaçadoramente o espectador. (Isto é, eu.) Daí não teve jeito. Elas vieram, a torrente de ideias. E com elas o estado mental catatônico, de hiperestimulação neural. Novamente, Trick Pony.

 

“Train, train
Come and gone
My rum coco
My cold empty”

 

Passei a reparar em tudo. Atravesso a rua para o lado esquerdo, tentando fugir do Sol. Duzentos metros e chego na esquina. Sinal vermelho pra mim, e assim paro. Sob o farol vermelho da avenida à minha direita, perpendicular àquela que eu deveria atravessar, um desses malabaristas de rua tentava realizar algumas proezas, mas não conseguia. Era “moreno” (isto é, alguma coisa entre branco e negro, segundo as categorias de classificação tupiniquins). Tinha cabelos longos trançados e barba pontuda de Jafar, e vestia uma regata branca manchada de (muita) sujeira e um cargo shorts. Com aqueles colares jamaicanos no pescoço. Por que será que malabaristas de rua não usam paletó? Ora, todos sabem por quê. Mas é exatamente a consciência do ordinário que me assalta nessas horas, e desenvolvo uma curiosidade infantil. E é precisamente questionando o ordinário que as coisas mais importantes se revelam.

 

o malabarista parecia o Jafar

 

Jafar era trágico. Empunhava três clavas e nunca conseguia manter as três em movimento. Uma sempre despencava. Tentou redimir-se executando um movimento mais difícil, como que para dizer “viram só, deixei cair de propósito”. Então, enquanto jogava duas clavas para o alto, tentava equilibrar outra sobre entre os olhos. Mas esta sempre caía. Ou, quando conseguia equilibrá-la, caiam as outras. A cada insucesso, olhava para os motoristas e abria um sorriso azedo, como que pedindo desculpas, para alguns centésimos de segundo depois virar o olhar e exprimir desagrado consigo mesmo. Conseguindo enfim equilibrar a clava entre os olhos, tentou deixá-la escorregar para trás, caindo por suas costas, para chutá-la com o calcanhar, portanto sem vê-la, e tentar pegá-la no retorno, executando uma trajetória arqueada. Mas ou errava a clava ou chutava-a forte demais. De todo modo, não conseguiu completar um movimento sequer. As pessoas ao seu redor olhavam para Jafar e riam. Riso que exprimia desdém; é comum recorrer ao riso para ao mesmo tempo transmitir e ocultar desprezo. E, digo, leitor, todos o faziam (bem, menos eu, acometido pelo estado de introspecção). Que executasse malabarismos da estirpe de um Cirque du Soleil e ainda assim Jafar não chamaria a mesma atenção. Incrível como o fracasso chama dez vezes mais atenção do que o sucesso.

 

É então que tive a ideia deste post. Pensei: “escreverei sobre este momento”, “escreverei a qualquer custo”. Pois era um momento significativo. Bem, todo momento pode ser significativo, mas eu faria este sê-lo.

 

A setlist prossegue com Empty, de Metric. Só indie e glam rock hoje.

 

 

Atravesso a rua e sigo em frente. As calçadas não estão cheias, mas há movimento. Um casal passa por mim à esquerda. Ambos têm entre um metro e cinquenta e um metro e sessenta de altura e certamente pesam mais que oitenta quilogramas, cada. A mulher veste um jeans com meia-dúzia de bolsos, ele um shorts de carregador de brita. Os cabelos e a pele de ambos exprimem a baixíssima renda per capita do brasileiro comum. O homem usa óculos espelhados tipo surfista, comprado de algum camelô, oriundo de alguma obscura fábrica chinesa, de lentes baratas extremamente nocivas para seus olhos. Também carrega algo numa sacola de mão. Com o outro braço agarra a mulher pelo pescoço, com a força bruta que se espera de um homem de sua posição, e a beija como se quisesse devorá-la. E isto não é efeito de linguagem. Ela responde à altura. Não era a língua que estava dentro do corpo alheio, era metade da mandíbula. Eles se agarravam ao ponto de quase caírem. Poucos metros atrás há um daqueles botecos “do Zé”, soerguido uns setenta centímetros acima do nível da calçada, com cadeiras e mesinhas de plástico amarelas; o tipo de barzinho em que, além de cerveja e refri, vende-se balinhas e goma de mascar – donde provém a maior parte dos lucros, depois da cerveja, evidentemente. Sentado numa das cadeirinhas amarelas da Skol, está um adolescente em seus dezessete anos, tomando sorvete de casquinha. Enquanto come o sorvete, observa chocado à cena do casal. Arregala os olhos e parece ver um fantasma. Mas continua a comer o sorvete.

 

Prossigo. Veja, querido(a) leitor(a), que andei apenas uns 300 metros desde que saí dos Correios. O bar fica na esquina da rua do ônibus – o biarticulado Santa Cândida-Capão Raso, um ônibus vermelho com duas “sanfonas”, eternamente lotado. (Curitiba já deveria ter um metrô há uns 15 anos…). Atravesso a rua e me dirijo à estação tubo. Uma menina que lá já esperava o ônibus me observa. Lembrando, visto shorts Polo azul estilo golfe com uma camiseta laranja cor de cenoura, mocassim branco, óculos verde e fita no pulso direito. E uso meias pretas curtas, contrastando com a branquidão do mocassim. Entende, leitor? Estou certo que sim. Enquanto elaboro a maneira como me visto, aqueles dois vestem para tapar as intimidades e proteger-se do frio ou do calor. Além de devorarem-se mutuamente. O adolescente pensa em sorvete, no próximo capítulo de Malhação e na próxima “mina”. O que via a menina que me olhava? Será que ela via apenas o jogo de cores? O que eu significava ao seu olhar?

 

Enquanto a música procede…

 

“Ask the line on your face
what the line on your hand meant”

 

Pago a passagem e entro no tubo; o cobrador não me olha, mas ele nada olha. Seu olhar está preso, olhando para o horizonte, imóvel. Por sorte carrego uma câmera, e assim tiro uma foto do que ele via. Quero dizer. Do que olhava, pois só ele sabe o que via, e mais ninguém – e talvez nem ele.

 

o que via o cobrador?

 

Entro no ônibus pela porta três e me desloco até a porta dois, a mais apropriada para saltar. Olho tudo, olho todos, estou em êxtase. Eu juro para minha meia-dúzia de leitores que neste momento vejo a matrix. Vejo elementos, nodos, vetores, forças, memórias, histórias, e não pessoas com tédio dentro de um ônibus cheio.

 

Glass Ceiling agora. Ainda Metric. Metric não é nada demais, mas Glass Ceiling é forte, intensa. E a voz de Emily Haines é apaixonada. Bem apropriada à situação.

 

Pronto. O corpo pulsa, a mente pulsa.

 

 

Imediatamente à minha frente, encostado de costas à porta número dois, está um garoto gordinho em seus 12 anos, vestindo uma camiseta verde estampada com a sentença “sou coritiba”, cargo shorts cinza e sneakers abertos de cadarços grossos, típico de skatistas. Aliás, ele segura um skate com a mão esquerda. Reparo que o sneaker é verde, como a camiseta. Estaria ele tentando combinar a cor da camiseta com a do calçado? Não, mais provável que estivesse apenas querendo um calçado do Coxa. Um traje improvisado do Coxa. É isto o que o garoto buscava. Sou eu que, olhando para uma combinação homogênea de cores, automaticamente supõe a existência de um olhar esteta, uma vontade estilizadora. Simples confusão. O garoto só quer exprimir seu amor pelo Coxa, ou seu ódio pelo Atlético, nada mais. Continuo a observá-lo. Sua face é bem branca e tem as bochechas rosadas, talvez pelo calor. Ele parece um pouco ansioso. Algo o incomoda. Uma namorada em potencial? Ou fora “marcado” por algum valentão? (Não há um gordinho fofo na face desta Terra que nunca foi atormentado por um valentão.) Então ele como que toma um susto e, perplexo, passa a apalpar seus inúmeros bolsos. Acalma-se em alguns momentos, e volta a prestar atenção nos espaços vazios do biarticulado.

 

À minha esquerda e atrás de mim há meninas e moças, algumas bonitas. Engraçado, são poucos os lugares no Brasil em que se encontra garotas bonitas num ônibus cheio. Algumas me parecem distantes. Como é época de férias, não estão pensando em notas ruins, provas ou naquele professor lindo. Na verdade, é preciso cogitar que talvez simplesmente não haja nada no que pensar. Analogamente ao caso do gordinho fofo, como penso demais tendo a projetar-me sobre as pessoas, supondo que fazem o mesmo. E daí penso mais ainda, tentando decifrar o que estão pensando, ou por que não estão pensando…

 

 

À minha direita há uma linha de jovens enfileirados, sentados, todos mexendo em seus celulares. Todos. Os dois mais próximos de mim teclam furiosamente. Glass Ceiling está no auge agora, enquanto o biarticulado passa a balançar freneticamente. Estamos próximos do Terminal Cabral; saltarei dois pontos depois. O chacoalhar do ônibus irrita o moço mais próximo de mim. Ele bufa enquanto desaba seu braço sobre seu colo, levando junto o celular. Veja como são as coisas. A instabilidade do ônibus era-lhe um suplício, enquanto para mim combinava-se com o clímax de Glass Ceiling, e ambos com meu estado de hipersensibilidade transcendental. Neste momento eu ganhei, e, de certo modo, ele perdeu. Tomando como referencial a reação dos estados psíquicos de cada um. E pensei nisso na hora. Na verdade, quase tudo do que aqui registrei, desde que saí dos Correios, passou por minha cabeça durante o percurso. Estou apenas elaborando um registro retrospectivo.

 

Salto do ônibus, viro à direita e sigo em frente. As nuvens do céu já são escassas e o vento sopra de noroeste. O Sol veranesco de meio-dia de uma latitude baixa como a nossa agride minha pele de alemão chucrute. Ela é evolucionalmente adaptada à latitude de 50 graus, não 25. Aliás, dia que amanhece nublado, com nuvens baixas, vento de leste, e que vai abrindo no decorrer do dia, revelando as temíveis cumulus nimbus, o ar cada vez mais seco e o vento de noroeste, só quer dizer uma coisa: a massa tropical atlântica venceu a batalha contra a infiltração do oceano. Isto é, vai esquentar. E muito. Deverá fazer uns 30 ou 31 graus. Sou uma estação meteorológica ambulante. Depois me cobrem a temperatura máxima.

 

Há quatro guardadores de carro na beira da rua exclusiva do biarticulado, que por sua vez para diante do sinal vermelho. Dois dos guardadores são adolescentes, mas os quatro são jovens. Todos eles portam a hexis típica de machos em conluio. Isto é, não como advogados de paletó. Eles percebem a existência de uma presença feminina numa das janelas do ônibus, que chama suas atenções. Uma morena. Eles então fazem macaquices para chamar sua atenção. Literalmente macaquices. Ela sorri, eles respondem com mais macaquices, e quando ela sorri novamente, eu rio, e sigo em frente.

 

“I’d like to unplug the phone
Sending messages with a mirror
Stand on the old plateau
With a satellite dish and Geronimo’s ghost”

 

À minha esquerda uma velhinha desce cuidadosamente os três degraus de uma loja de artefatos persas, ajudada por sua provável amiga. Imediatamente imagino-a quarenta anos mais jovem, e que ela deve imaginar-se quarenta anos mais jovem. Atravesso a rua e pego a esquerda, quando na esquina da frente faz a curva um caminhão da Pepsico. Seu motorista carrega dez toneladas, parte delas composta de salgadinhos, refrigerantes, doces e aveia Quaker. É preciso perícia para manobrar uma massa de dez toneladas. Congratulo sinceramente o motorista. Então atravesso a rua. Está verde pra mim e vermelho para os carros, motos e ônibus. E eles param. Estão parados em linha. Veja bem. Eles pesam, juntos, umas 50 toneladas. Ou mais. E eu peso setenta quilos. Setenta quilogramas contra 50 ou 100 toneladas de matéria movida à força equivalente a milhares de cavalos. A civilização não é demais?

 

 

Estamos (finalmente!, finalmente!) chegando ao fim. Novamente Me and Jane Doe. Faço um zigue-zague entre as quadras triangulares do Juvevê e passo por um café colonial recém-inaugurado, numa esquina de uma das quadras internas. Não vai dar certo. É muito isolado. Mal passam carros por essa conjunção de esquinas. Vai dar errado, gente. Podem me cobrar depois. Irei notificá-los quando fecharem as portas; embora torça verdadeiramente por eles.

 

Duas quadras em frente, agora sim numa rua movimentada, há uma espécie de centro comercial ao ar livre, o “Royal Street Center”. Que imita casinhas londrinas, umas ao lado das outras. Mas imita tão bem quanto Curitiba tenta imitar Londres: no inglês britânico, escreve-se “Centre”. Portanto, se fosse londrino, seria “Royal Street Centre”. Okay, perdoado. Tendo o centro um formato triangular, como as quadras do Juvevê, as esquinas são os melhores pontos. No lado em que passo para chegar em casa, havia uma butique de moda feminina chamada “Beluska”, e nela tinha umas roupas legais. Eu presentaria uma namorada com as roupas deles. Mas fechou. Daí, imediatamente, uma loja de esportes que ficava a DUAS lojas de distância – DUAS! – tomou seu lugar. Novamente, a questão do ponto…

 

“X X the eyes
C. C. Rider riding
On the morning tide
To the fall horizon
Sic, sic the wolves
And hope it don’t get ugly
A trick pony
He don’t know me
He don’t know me at all”

 

Ando e minha cabeça trabalha freneticamente, produzindo este post por antecipação. Estou quase chegando. Sentado num dos degraus de uma loja desocupada do Center está um pintor – não um artista, mas um trabalhador braçal – um jovem mulato com as roupas manchadas de tinta dos pés à cabeça, portando um rádio de pilhas e prestando atenção meditativa para o que sai dele. É sua hora de folga e ele provavelmente escuta atentamente às notícias da compra e venda de jogadores de seu time do coração. Imóvel, absolutamente imóvel. Viro a rua logo à esquerda e eis que encontro outro jovem trabalhador sentado nas escadas de uma lojinha de bairro, em sua própria perplexidade. Uns 40 metros entre eles, dois espíritos na mesma frequência. Mas este último parece mais contemplativo, ele realmente observa o céu, somente isto, mais nada, absolutamente imóvel, sem um piscar sequer. O que ele vê?

 

 

Aproximo-me de casa e a música cessa, deixando de conversar comigo. Vejo uma cerejeira florida (ou alguma espécie semelhante) e tiro umas fotos. Adoro cerejeiras.

 

 

Também fotografo a casa de uma velhinha, ao lado de casa, cujas janelas nunca estão abertas. Escreverei um post relativamente ambicioso sobre isso no futuro próximo.

 

Chego em casa e só penso em escrever isto o que vos escrevi. Então escrevo. E aqui está.

 

Até mais.

 

F.

 

(P.S.: Fez 31 graus Celcius às 18 horas do dia de hoje. Na mosca!)

(P.S.2: Este post é especialmente grande. A maioria não será assim. Pelo bem dos meus queridos leitores.)

 

6 comentários sobre “A day in life

  1. Esta foi a primeira vez que tive o prazer de ler um texto em um blog de um conhecido meu. Não que estas pessoas não tenham o que contar, muito pelo contrário, tem muito o que contar, mas provavelmente não escrevem porque se intimidam frente à tela branca do editor de texto, ou talvez desconfiem de suas habilidades em redação, ou não querem expôr-se, ou por motivos sociais, ou tudo isso junto. Mas vejo que nada disto o intimidou (veja o tamanho deste post!) Confesso que fiquei inspirado a escrever também. Quem sabe um dia no próximo milênio.

    Eu já vivi tanta coisa parecida pela qual você passou hoje, aliás, pelo que milhares de pessoas passam diariamente em Curitiba, que nem ligo mais. A raivosa, doentia e despravada verdade: eu quero mais é que tudo se foda! Entretanto, não é tão fácil já que todo dia quando acordo AINDA estou aqui! PQP! Dias melhores virão.

    Nos últimos anos tive duas experiências únicas de aprendizado: tendo um cachorro do qual gostava e aprendendo a tocar violão. Eu aconselho você a tentar novamente o violão. Como este blog só terá meia dúzia de leitores irei me arriscar: quem aprende música aprende qualquer coisa. Acho que a ausência de ‘dom’ pra música é um indicativo que ela nunca baterá muito bem das ideias. E se você se acha inapto a aprender, reconsidere!

    E ah, se o próximo post for tão grande quanto este espero que hajam várias imagens pois será somente o que lerei. hahaha Até mais!

  2. Oi Fe!
    Você é bem observador =) Isso significa que você é assim consigo. Essencial para o autoconhecimento!
    Continue escrevendo bastante.
    Sobre o cosmético que foi tributado, se foi algum pedido meu, me diz o valor que preciso te passar =)

    beijos,
    Fe.

    • Obrigado, Fe. Sim, sou bem, beeeeeem observador. Claro, comigo tb. Ainda mais, na verdade… Mas até aqui isso gerou bastante dificuldade, porque quando se é observador demais consigo mesmo a gente se torna crítico demais consigo mesmo, o que agride o ego e te torna extremamente tímido. Mas já melhorei bastante. E este blog é prova disso. Continuarei, sim, a escrever. Agora não pararei nunca. Mas com posts menores…🙂. Beijos.

  3. Grande Julius Caeser. Não chego a me considero inepto pra música. Brincava de piano e progredi bem rápido no início do violão. Mas daí o foco foi deslocado pra graduação, ciência, essas coisas, e daí gerei um bloqueio. Pois eu olho o ponto de chegada logo quando parto, e isso às vezes me afoga. Uma autoexigência absurda. Mas aos poucos vou cogitando, cogitando… até porque tenho um monte de músicas na cabeça. Hoje namorei o violão… se namorei…

  4. O texto é fantástico, é realmente prazeroso lê-lo nos seus momentos de eloquência. Valeu.

    Eu infelizmente não poderia relatar o que vejo nas ruas de SP, porque a cidade é muito feia. Especialmente porque só saio de casa quando faço o meu percurso até a faculdade.

    Só me vem à cabeça o dia que esperava o ônibus chegar e me deparei com uma velhinha de rua cuspindo no chão, virando o rosto pra mim e ordenando: “me dá dinheiro, moleque!”. Não consigo me esquecer daquilo, que asco f*dido…

    Dúvida: A tal da mme Charlotte Gainsbourg tem alguma relação com o célebre Serge Gainsbourg? Ouvia direto esse maluco nas viagens de carro qdo era criança, ehehe

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