Observação

 

Gente.

 

Peço que façam o seguinte teste. No post abaixo, sobre as “benditas imagens”, reproduzi uma imagem de um menino Nuer. Reproduzirei a imagem novamente, no fim deste post, para que meus queridos/as leitores/as não precisem deslocar-se até lá.

 

Olhem com muita atenção para o menino Nuer.
Atentem para os seus olhos – somente os olhos, nada mais – por 10 segundos. Visão travada, olho no olho, por 10 segundos.

 

Agora tentem interpretar o que ele pensa e sente, como se estivesse olhando para vocês.
Imaginem que ele quer lhes dizer algo, mas não pode pronunciar uma palavra sequer, porque a foto foi tirada em 1947 e a milhares de quilômetros de onde cada um de vocês está.

 

Ele não tem nada mais além desta foto. Mas ele quer dizer algo a vocês, e tem apenas o olhar.

 

Agora olhem mais 10 segundos com isso em mente e tentem fazer a experiência: entrem em seu espírito por meio do olhar.

 

Difícil resistir à sensação de cumplicidade ontológica que se seguirá.

 

(Tive esta ideia agora, quando sentei no micro, e não pude resistir ao meu hiato declarado. Mas agora voltarei a ele e só darei outro piu quando terminar meu trabalho de classificação.)

 

Até mais.

 

F.

 

[ATUALIZAÇÃO: Olhando bem, mesmo, parece ser ELA. Que gafe! Obrigado à Fe por chamar indiretamente a minha atenção. Dá-lhe meia-dúzia de chibatadas no lombo…]

 

 

6 comentários sobre “Observação

  1. O olhar dela é daqueles quando a pessoa está prestando muita atenção no que você fala e diz “aham, sei =)” e ao mesmo tempo passam várias idéias na cabeça dela em relação ao assunto que você está expondo.

  2. Pra mim ele está com cara de nada. Parece estar olhando para o vazio, pensativo. Talvez pensando na janta.

    E o triste é que facilmente isto pode ser verdade.

    • É possível, Caesar.

      (Aliás: GOSTAS que eu te chame de Julius Caeser? Pronunciando-se “Cízar” Saiba que não há ironia ou sarcamos algum nisso. É que te acho um cara conquistador, mesmo.)

      Esse tipo de avaliação, a meu ver, é baseada numa ideia de escassez, pobreza material. Assim, deduzimos um estado de espírito negativo em função da pobreza material. E os indígenas parecem especialmente pobres para nós, porque os traços de sua situação guardam semelhanças com os nossos pobres.

      Não sou um relativista cultural como os antropólogos – idealistas e, em certo modo, solipcistas que prescrevem a inexistência de qualquer realidade objetiva – e penso haver condições bastante gerais que produzem estados de espírito comuns, como a alegria e o sofrimento. Condições econômicas, em especial.

      Mas também penso haver uma grande influência de nossa cultura, que faz a gente projetar sobre eles as nossas categorias de percepção, ideias, valores, pontos de vista – e seus fatos emocionais correlados, como sentimentos e emoções.

      Assim, o que pra nós parece tristeza e sofrimento – porque colocamos os nossos pobres em seus lugares – pra eles pode ser outra coisa. Eles podem estar muito bem adaptados ao seu meio, não havendo escassez ou sofrimento oriundo da pobreza material. Enquanto nossos pobres não estão adaptados ao nosso meio, porque nosso meio exige e implica uma série de valores e aspirações, necessários para o bem-estar ontológico do indivíduo. Nossos pobres incorporam esses condicionantes e sentem na carne a FALTA. Mas lá, havendo adaptação, não há falta. Claro, desde que tenham o bastante para cumprir as funções fisiológicas fundamentais.

      Não vejo sofrimento algum nos olhos da menina Nuer. Vejo um tipo de curiosidade contemplativa com o fotógrafo. Vejo um tipo de harmonia e paz em seus olhos, coisa que falta a nós. Sinto que ela não possui um décimo das nossas preocupações ontológicas. Ela me parece perfeitamente encaixada no mundo, com pouco ou nenhum ruído ontológico, pouca ou nenhuma necessidade ou aspiração por realizar. O olhar dela me transmite um espírito em estado de harmonia. Embora eventualmente ignorante e demasiado simples demais, segundo nosso sistema de valores. Ela de fato é isso a partir de nossos esquemas, mas creio que ela seguramente não sofre por isso.

      E é por isso que a foto me é espetacular, pois representa paz de espírito naquilo que é aparentemente desesperador. O fotógrafo foi espetacular. E talvez por isso que a foto tenha tido tanto respaldo.

      No futuro elaborarei um post dedicado exclusivamente aos Nuer. Nele, irei discutir essa questão da pobreza material e os efeitos de um encontro de sistemas culturais bastante distintos, o “nosso” e o “deles”. O argumento será relacional, mas não relativístico strictu sensu.

      Abraço,

      F.

    • Com licença. E perdão pelo meu francês.

      PUTA QUE ME PARIU!

      Senhor Guilherme. Graaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaande Guilherme.

      I-M-P-R-E-S-S-I-O-N-A-N-T-E como com SETE palavras o senhor consegue dizer assim, com toda a simplicidade, precisamente aquilo que demorei SETE PARÁGRAFOS para dizer.

      Estou certo que o senhor fez de propósito.

      Agora já posso me esconder envergonhado.

      F.

      P.S.: quando o SENHOR vai começar a escrever? Pelo menos 10 anos de literatura e erudição nas costas, e tendo de ler um rookie como eu? Que tira as palavras de livro de sociologia e mangá? Toma vergonha na cara, rapaz! Tô esperando pelo teu blog.

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