A chuva e o Mônada

 

Frédéric Chopin. Opus 10, Étude n. 3. Lento ma non troppo. Uma das peças para piano mais famosas e mágicas da história da música. É meia-noite. A luz suave da Tolomeo, tocando gentilmente o esquema e os rabiscos do texto que se seguirá. Ahh. Perfeito. Comecemos.

 

Há esta ideia frequente na filosofia mundial, de todas as épocas e lugares, que supõe a existência de uma espécie de entidade metafísica que transcende as coisas perceptíveis pelos cinco sentidos. Tratar-se-ia de algo presente na realidade como um tipo de matéria ou força imanente, da qual tudo derivaria e que tudo preencheria, etereamente. A esta entidade dá-se o nome de “Mônada”, embora sua definição e papel variem de doutrina a doutrina. E, nestas, também é comum utilizar outros nomes para exprimir ideia parecida. Entretanto, este post não consiste em uma discussão filosófico-conceitual sobre a monadologia leibniziana ou coisa de análoga complexidade.

 

Hoje, terça-feira, 18 de janeiro de 2011, Mônada resolveu aprontar pra cima de mim.  Assim fazendo-me alçar aquele olhar distanciado, como se estivesse fora do corpo, observando o desenrolar dos fatos e os eventos ao meu redor, com aquela visão cirúrgica e apaixonada que por vezes me acomete. E que produz posts gigantescos. Falarei um pouco desse olhar.

 

(Juro que esses eventos não são frequentes como o foram nos últimos dias. E, portanto, estes posts homéricos atualmente postados dia sim, dia não, também serão uma exceção! Acreditem, acreditem em mim…)

 

 

A coisa toda começou com uma decisão ingênua, típica do que é fortuito. Meu leite de soja havia acabado. E sem leite de soja não tem vitamina matinal. Ah, que frescura! Faça vitamina como a maioria dos outros mortais, com leite de vaca, ué. Sim, claro, não sou assim fresco. Mas o leite em pó também estava em falta. E como consumo leite de soja, não posso estocar leite de vaca em estado líquido, que estraga em poucos dias. E vitamina de água não rola – pelo menos não com os ingredientes que uso. E veja bem: mesmo se fosse usar substitutos, ainda assim precisaria ir até o mercado, pois esses também faltavam.

 

Foi um dia lindo. Cumulus nimbus com stratocumulus; o céu parecia uma ópera de nebulosa. Mas não nublado. Parcialmente encoberto, com vastas aberturas de espaço alviceleste, que abria caminho para a luz solar. Uns 26 graus. Bom, muito bom.

 

 

Não parecia que ia chover, pois imaginei não haver advecção suficiente. Devo ter acabado esquecendo da baixa do Chaco ou de algum fenômeno meteorológico relevante. Ponto pro Mônada.

 

Assim sendo, saí de casa sem guarda-chuva. Tinha de buscar umas roupas no alfaiate. Uma sacola de tamanho médio, uns 60 por 40 centímetros, preenchida até o topo. Ou seja, uma quantidade razoável de roupas. Outro ponto pro Mônada.

 

(Tocando durante a andança: Fantastique Symphonie, Opus 14, movimento quinto, “Canção de uma noite de Sabá”, Hector Berlioz.)

 

Prossegui para a Unidade onde faço Yôga. Como o tempo estava apertado – empolguei-me classificado as benditas imagens – acabei não passando no Mercadorama, em que precisava comprar leite de soja e mamão. Os minutos disponíveis não eram suficientes. Executaria a tarefa depois da prática. Eu disse mamão? E desde quando este blogueiro come mamão? Desde o domingo último, quando não almocei, mas mesmo assim resolvi fazer duas práticas seguidas, o que foi ótimo para o corpo e o espírito, menos para o estômago. Só havia frutas disponíveis, então me refestelei delas. E do mamão. Papaia. E estava bom! Bem doce. Aprendi a gostar de mamão papaia. Mas este ato implicou o compromisso de repor o fruto mamoeiro. E sou descendente de alemães bávaros luteranos. Compromisso assumido é compromisso cumprido. Ponto pro Mônada. O primeiro ponto, anterior aos demais. Talvez o início de tudo.

 

O importante é que deveria ter comprado mamão e leite logo no trajeto de ida. Mônada ganhou mais um ponto. São 4 x 0. Já é goleada…

 

 

Hummm, nosso querido Mônada é sensível, e neste momento já devia “sentir-se” incitado. Ou, talvez, ele já estivesse articulando as circunstâncias desde o início, forçando-me a comer o mamão e assim desencadeando a corrente de eventos. Desde antes do Yôga do domingo. Talvez desde que jantei no sábado o almoço do domingo. E talvez desde que cozinhei trezentos gramas de macarrão, quando deveriam ser quinhentos. Ou ainda… ah! Se continuarmos assim entraremos num paradoxo de regressão infinita, retrocedendo até meu nascimento, o nascimento dos pais, dos avós, dos tataravós, das fronteiras, das nações e etnias, do homo sapiens, do planeta, do Universo. Certo, pulemos para o que interessa. Está quatro a zero para o Mônada.

 

Teria de resolver o afazer mercadológico após a prática. Seriam sete horas da noite. Aliás, a prática até que foi boa. Ando divagando menos na hora do samyama, algo como meditação. Sete horas. Hora de ir ao mercado! Necas. Resolvi bater um papo com meu instrutor – que, diga-se de passagem, é pessoa fantástica. E por este motivo não resisti ao papinho. Sete e dez no relógio. Fernando, Fernando, Fernandinho. É a hora ideal para a invasão de uma linha de instabilidade. Um centro de baixa pressão. Linhas de instabilidade, caras leitoras, são diferentes de simples chuva de verão: são conglomerados generalizados de nuvens monstruosas, as chamadas “Cbs” (pronuncia-se “Cêbês”), carregando quantidade igualmente colossal de água. Produzem chuvas duradouras, aparentemente intermináveis, dessas que podem durar dias e até semanas. Diga-se de passagem, é o tipo que está produzindo tanta catástrofe no Rio de Janeiro. Deveria ter saído mais cedo. Cinco a zero para o Mônada.

 

surpresa! presente de Mônada.

 

Ah, cinco é ponto-crítico. É quando o deleite da vitória sobe até a estratosfera. Era impossível Mônada resistir, e provavelmente deslocou para Curitiba uma frente que deveria dar as caras em Lapa ou Ponta Grossa. Começou a chover, ainda enquanto estava imerso no bom papo. Putzzz. Tô sem guarda-chuva. Mas meu instrutor, querido que é, foi tentar arranjar um para mim. Entretanto, há em nossa unidade um segurança que, diga-se de passagem, também é ótima pessoa, o qual também precisava de um guarda-chuva. E, com toda a justiça, ele tem prioridade. Restavam dois guarda-chuvas, mas ambos em seu final de vida útil. O primeiro não mais abria. Faltavam-lhe forças para o botão funcionar. Que descanse em paz. O outro capengava, arrastando-se, perseverando, resistindo bravamente. Mas duas de suas hastes estavam soltas, soltas mesmo, balançando para cima e baixo, completamente abandonadas. Um risco para os olhos. Môoooooooooooooonada?!?!

 

(Calma, calma. Não fiquei cego. Mônada não é assim terrível. Mas já era um prenúncio.)

 

Apesar de toda a enfermidade, o guarda-chuva, o qual chamarei carinhosamente de Bartleby, ainda cumpria a função fundamental de proteger o indivíduo da água. E eu estava com a cabeleira arrumada, para bem apresentar-me aos amigos, especialmente as amigas. Isto é, especialmente necessário evitar contato epitelial com o líquido divino.

 

 

Prossegui ao Mercadorama. Tudo bem até lá. Apreciei a chuva e seu contato com as folhas das árvores. (Adoro folhas de árvore cobertas por água, especialmente o aroma de orvalho, depois de cessar a chuva.) Cheguei ao mercado pelo lado esquerdo – tomando-se o nordeste como referência. Precisaria contorná-lo para entrar. O chão constituía-se daquelas grades que cobrem vãos por onde escorre a água. (E talvez cumpram outra função que desconheço.) Ali dei um tropeço, embaraçando minha tentativa de caminhar estilosamente. Sempre faço graça dessas coisas, e por isso ri com vontade. Logo que entrei no recinto, notei que algo parecia estranho. Estava anormalmente cheio. Digo, lotado. Terça-feira às sete e vinte da noite, assim lotado? Inconcebível! Nem em véspera de ano-novo. Gente. L-O-T-A-D-O.

 

Mmmmôôôônada???

 

 

Os mamões estavam péssimos. Ou batidos demais, ou maduros demais, ou verdes demais. Ou ambos: maduro em excesso numa metade, verde demais na outra. E estes são os mais chatos. Deviam se decidir logo, né? Insisto: a realidade deveria ser autoconsciente, ajustando-se com mais facilidade aos nossos desejos e necessidades. Môoooooooooooonada?!?

 

Oito minutos escolhendo mamão, resolvi comprar dois. O mamão que comi estava delicioso, e era uniformemente maduro, maduro na medida certa. Tudo na Unidade tem alta qualidade, é impressionante. Não sei de onde eles conseguem essas frutas resplandecentes. Assim, pensei: “dois mamões mais ou menos devem compensar um bom”. Ou assim espero…

 

 

O leite de soja custava R$ 4,12. Normalmente pagaria três pratas. Eita. Que aconteceu com a economia? Ou com o mercado? Algum erro de cálculo no estoque? Estou por fora. Espero que seja só coisa de início de ano, alguma oscilação sazonal da produção. Comprei um mais baratinho, mas menos saboroso.

 

O mercado anormalmente lotado. Hordas de gentes acumuladas nas filas. Vi a fila do caixa-rápido e ela estendia-se até onde poderia ir em sentido retilíneo. Fila de uns 30 metros.

 

“Não vire, não vire, não vire, pelamordedeus, não faça a curva…”

 

Fez curva. Não apenas. Outra linha de gentes, até o final da prateleira. Isto é, mais uns 20 metros de pessoas compreensivamente aborrecidas. “Ai, ai, ai…” No fim da curva, outra curva.

 

Mônada? Mônada?! MÔNADA?!?

 

 

Como pode uma fila tão grande, nessas circunstâncias? Anormalmente, fui comprar mamão papaia numa terça. Incomum. Mas e o resto das centenas de pessoas? Acabou subitamente a papinha do bebê? Uma quantidade acima do normal de namorados atrás de preservativos? Várias pessoas preparando jantares especiais? Uma combinação de improbabilidades, uma imensa coincidência, trazendo todo mundo ao mercado, no mesmo dia, na mesma hora?

 

De todo modo, vinte minutos na fila, segurando Bartleby molhado com um braço e a cesta com o outro. Ali aconteceu a iluminação. Havia dois homens à minha frente, que foram comprar cerveja. Desejavam Eisenbahn, mas tiveram de contentar-se com Skol. Aliás, eram a cara da Skol. O rótulo Skol e seus rostos e cinturas eram representações ideais um do outro. Eisenbahn combina com artistas, boêmios e indies chiques.  Depois de lamentarem o preço, contentaram-se com o que tinham em mãos.

 

Um senhor desastrado, desanimado com o caixa-rápido, tentou refugiar-se nos caixas convencionais. Passando ao lado da fila, atropelou com seu carrinho os calcanhares de uma senhora. Por isto, desastrado. Desculpou-se, verdadeiramente sentido. Ela reagiu civilizadamente, sorrindo com lástimas nos olhos, mas demonstrando educação. Novamente, o espetacular no ordinário. Há dez mil anos provavelmente um pularia no pescoço do outro. A educação é a maior descoberta da humanidade.

 

 

Havia uma moça loira umas sete pessoas à frente. Lembrava alguma cantora famosa, meio Emily Haines, mas sinto haver outra referência, mais precisa. Esqueci. Vestia uma blusa estilo hoodie, com listras horizontais em preto e branco, cuja base, de corte angular, cobria a cintura de um lado e descia até o início das coxas, de outro. Cobrindo parte de um shorts jeans. E carregava uma bolsa, também preto e branca, naquele estilo bolsa ecológica, mas mais sofisticada, com algum tecido parecido com nylon, de aspecto plastificado, e tecido rústico nas extremidades e na alça. Ostentava tatuagens estilizadas e um penteado elaborado. Pernas lisas e rosto atraente. Suficiente para atrair atenções masculinas. Algo caiu de sua cesta, e ela agachou-se, demonstrando exuberância. Aqueles dois, os machos-Skol, exclamaram de imediato: “caraio, véi!”; “saca só”; “vixe maria”; “hummmm, delícia, rapaiz”. Desde então, travaram os olhares sobre a moça como abutres espreitando restos mortais.

 

É verdadeiramente difícil ser mulher. Se são feias, são tratadas como subgente, como prole defeituosa. As mulheres precisam ser obrigatoriamente belas. Se não são belas, não merecem o título de “mulher”; como se o termo “mulher” estivesse fatalmente associado a um tipo muito específico de mulher, a bela. Lembre-se, querido leitor, que a beleza só é tão bela porque é escassa. É isso que se espera delas – tanto por eles, quanto, de certo modo, por elas próprias. Mas se são belas, viram objetos de consumo. A beleza é um capital, uma espécie de poder, e valoriza a mulher. Mas, socialmente, tal qual uma comida saborosa, sua finalidade última é o consumo, enquanto à comida ruim resta a cesta de lixo ou as bocas mal-alimentadas. Ou seja, o valor beleza está submetido a outros valores – valores essencialmente masculinos – e prova disso é a oposição entre beleza, inteligência e a ocupação de posições públicas. Como se a posse da beleza excluísse necessariamente a posse de outros capitais, exclusivos do mundo masculino. Que não apareça em palanque político; que não se atreva a tornar-se uma grande  cientista; que não se aventure no mundo dos negócios. Assim, tende-se a reduzir as mulheres bonitas à sua beleza e nada mais. Tudo o mais que fizer, se bem-sucedida, tem altas chances de ser tratado como uso maniqueísta da beleza: “chegou lá porque dormiu com fulano”. De um jeito ou de outro, a mulher acaba trancafiada numa posição de dupla desvantagem, em que o melhor possível ainda implica duras privações.

 

 

O que me chamou mais a atenção na moça loira era o calçado, um All Star de cano alto, vermelho, coberto de lado a lado por vários broches costurados no tecido. Duas bandeiras de países africanos (de Uganda, creio ser uma delas), o número 89, uma caveira, o símbolo tóxico (i.e., outra caveira), um coração perfurado por uma flecha, grafado com a palavra “forever”, sinais de trânsito, mais números e outras formas que infelizmente esqueci.

 

Mais à frente ela percebeu que eu observava seus calçados, então rapidamente virou o rosto e passou a mexer constantemente em seus cabelos. Dizem as más línguas que as mulheres mexem nos cabelos quando se sentem inseguras, intimidadas ou entusiasmadas. Viu só, o poder do reconhecimento de um item de valor? Ela devia adorar seus calçados. Eram legais mesmo. Reconhecê-los a fez sentir-se valorizada.

 

E é melhor proceder assim do que como macho-Skol.

 

Na fila, quase chegando ao caixa, ainda faço o favor de chocar levemente o ferrolho do guarda-chuva no lado esquerdo do sapato esquerdo de um senhor. Ele ficou olhando pro chão, pros lados, em busca da causa do baque, quando rapidamente assumi: “Desculpe, senhor. Fui eu quem bateu no seu sapato”. “Ah, não, não foi nada”, ele respondeu. Ainda bem que não foi nada mesmo. Bem, nada não foi, pois se fosse nada eu não teria encostado em um de seus sapatos a ponta do guarda-chuva, isto é, Bartleby.

 

O moço do caixa me disse que o sistema que processa os pagamentos eletrônicos havia saído do ar. Explicado o caos no mercado. O sistema de pagamento já me falhou TRÊS vezes num supermercado. Já tive de abandonar as compras e ir de mãos vazias para casa. Na outra, tive de ir ao banco sacar o dinheiro e recomeçar as compras. Nesta, cheguei após o infortúnio, mas ainda arquei com as consequências.

 

Até o sistema de pagamento, Mônada?

 

 

A chuva engrossou durante o tempo extra gasto no mercado. Se tivesse demorado o tempo usual, ainda pegaria um chuvisco. Agora era uma chuvarada.

 

Abri o guarda-chuva. Ele fraquejava mais do que na vinda. Pobre Bartleby. Tinha um padrão xadrez estilo Burberry. Claro, era vira-lata, não um Burberry original. Mas ainda assim era meu Bartleby. Já antes do semáforo mais próximo, ainda na quadra do mercado, Bartleby desabou, fechando-se sobre mim. Nesta hora, Mônada foi ponderado e poupou meus olhos – lembre-se, querido leitor, que duas hastes pontudas estavam soltas, e ao fecharem-se podiam acertar os olhos de alguém.

 

Força, Bartleby! Abri-o novamente. Mas desta vez as hastes subiram demais no movimento de abertura e perfuraram o tecido, fincadas para fora. Como duas antenas. Gargalhei, gargalhei. E ali saquei. Caiu a ficha. Tomei consciência das travessuras de Mônada. A iluminação então transformou-se em introspecção profunda. Ainda intercalada com risos de perplexidade. E isto, leitor, atravessando o primeiro semáforo. Faltando ainda aproximadamente 900 metros até o destino final, a Unidade DeRose Centro Cívico.

 

 

Quando cheguei à calçada adjacente, o cabo de Bartleby soltou-se por si só, derrapando de minhas mãos e despencando ao chão. Restava somente a ossatura metálica e desconfortável de Bartleby. Apanhei o cabo de plástico (se fosse Burberry, seria madeira, mas ainda assim tinha estima por Bartleby) e tentei recolocá-lo, mas sem sucesso. Com uma das mãos passei a apertar o cabo contra o metal da base, para que não caísse. Voltei a abrir o guarda-chuva; as hastes voltaram ao seu lugar, deixando dois furos na pele do pobre Bartleby.

 

Dez segundos aberto. Os dez últimos segundos de vida. Assim findou Bartleby, o guarda-chuva. Ele literalmente desabou, num movimento de desintegração, em minhas próprias mãos. Encobriu-me completamente até a cintura, abraçando-me em seu suspiro final (e assim, novamente – mas não intencionalmente, pois Bartleby era bom –  arriscando-me os olhos).

 

Mônada? MÔNADA? MÔOOOOOOOOOOOOOOOOOONADAAAAAAAAAAAA…

 

Não parava de rir. Mas não abandonei Bartleby. Segurei-o até o fim. Fechei-o e evitei que seus restos caíssem pelo chão. E então segui meu curso através da chuva torrencial.

 

 

Tudo fica diferente quando nos resignamos e aceitamos o destino. Passei a sentir cada gota d’água que caía no rosto. Peguei as ruas vazias das entre quadras. Fechei os olhos e percebi a combinação de fatos, desde o domingo passado, que se articularam para me conduzir até ali. Fantástico! Em certa medida trágico, mas fantástico. Senti cada segundo.

 

Andei lentamente. Ainda bem que vestia meu traje de Zinedine Zidane, a linda camisa branca, vermelha e azul – o contraste entre o vermelho e o azul me fascina – com a qual, como um mágico, derrotou duas vezes o mais bem-sucedido time do futebol mundial. Com a elegância de um bailarino, desfilando pelo campo, como se pairasse no ar. O poliéster é o tecido ideal para se pegar chuva. Embora a chuva e a lama tenham arrasado meu mocassim – branco – e confesso que isso me incomodou.

 

 

A água formava cascatas por entre as frestas dos telhados de algumas casas antigas – resquícios dos anos 40 ou 50 em pleno século XXI. Algumas dessas ficam junto à calçada, despejando filamentos de água de seus telhados. Então o núcleo de instabilidade intensificou-se, e passou a ventar com força. (Ainda bem que sou resistente ao frio, mas me arrepiei um pouco.)

 

 

Neste momento, lembrei-me de Roy Batty. O androide de Blade Runner. De seu desejo ardente pela vida, por ter mais tempo, mais tempo para produzir mais lembranças, desenvolver sua identidade um pouco mais. Entre os arquivos de minha memória, o cinza do céu e a água trouxeram à minha consciência as expressões finais de Roy, quando vivenciava intensamente seus últimos momentos. Neste curto instante, o androide viveu como nenhum humano jamais o faria. Então, veio-me a imagem de sua cabeça inclinada para o lado, sob a chuva, no topo de um edifício, sentindo o toque das gotas sobre a têmpora direita, com um semblante de satisfação profunda impresso em seu rosto. Fiz o mesmo. Inclinei a lateral da cabeça sob um dos telhados de uma daquelas velhas casinhas, e deixei que o filamento de água inundasse minha face. Roy Batty!

 

roy. roy batty.

 

“I’ve seen things you people wouldn’t believe…
Attack ships on fire off the coasts of Orion.
I’ve seen C-beams, glitter in the darkness of Tanhauser Gate.
All those moments… will be lost… in time
Like tears… in rain.”

 

 

Sentei numa das calçadas para observar um pouco as poucas pessoas que ali passariam. Um senhor calvo com camiseta cor de creme (não era off white ou coisa parecida, era creme mesmo) e calça jeans subia a rua relativamente íngreme. Pegar chuva diretamente no couro cabeludo deve ser um saco. É bom ter cabelos nessas horas. Bem, é bom ter cabelos em qualquer hora – exceto no Exército. Um casal de catadores de material reciclável revirava o lixo, à minha direita, mais acima, uns 15 ou 20 metros nos separando. Havia muita tralha no lixo, que formava um monte. A chuva estraga o papelão, e o papelão é a principal fonte de renda dos catadores de papel. Ficaram ali por uns 5 minutos. Então entraram num Chevette e seguiram seu curso. Chevette da década de 1980, com as portas enferrujadas e o para-choque há muito perdido, com o porta-malas semiaberto, cheio de papelão molhado, e mantido semifechado por um cordão de alumínio, também devidamente enferrujado. E sobre o teto do carro, um saco azul imenso de filamentos de plástico entrelaçado, repleto de material reciclável e amarrado com cordas à sucata, digo, o carro. Se pensarmos devidamente, estão bem! A maioria deles anda a cavalo pelas ruas de Curitiba – ou em função dos próprios braços.

 

Mas o que me impressionou veio a seguir. Tão logo o casal deixou o recinto, um jovem homem, em seus 25 anos, apareceu à minha esquerda, subindo lentamente pela calçada. Vestia uma dessas calças de nylon esparramadas, de cor azul marinho, e uma camiseta verde impressa com a estampa “the rock culture”. Provavelmente doada (ou despejada) pela mãe de algum adolescente rebelde; os adolescentes rebeldes precisam dedicar-se a coisas grandes, como salvar ou destruir o mundo, em vez de ajudar pessoas. O jovem estava ali esperando todo o tempo, espreitando, como uma hiena. Dirigiu-se ao monte de tralha e a revirou. Mas não buscava material reciclável para trocar por um punhado de centavos, buscava alimento. Revirou algumas garrafas de suco. Encontrou uma de caju e bebeu o resto de líquido em seu interior. Ugh! Revirou mais um pouco e também seguiu seu curso. Era uma hiena. Entrou em cena após os leões se refestelarem.

 

 

Minha jornada estava chegando ao fim. Ainda passei por um boteco, desses “do Zé”, de mesas e cadeiras de plástico da Skol, que tinha todas as paredes internas pichadas. Um homem, também mulato, de camiseta vermelha manchada, pensava na vida num canto, a sós, taciturno. Dois quarentões bigodudos discutiam amistosamente no centro, tomando Skol. Provavelmente política ou futebol. O barman (se é que podemos chamá-lo de barman), também bigodudo, me observava por trás do balcão. Era igualzinho ao baixinho da Kaiser. Um sósia. Por fim, um senhor deficiente físico, com o braço esquerdo deformado, conversava com o baixinho da Kaiser, e também me olhava.

 

Por fim, avistei duas crianças correndo descalças pela chuva, brincando, felizes, aproveitando as férias e a infância. Separaram-se e voltaram para suas casas, provavelmente livres. Lembrei-me de quando eu fazia isso e deslizava pela grama nas subidas próximas de casa. É uma sensação e tanto. De certa forma, reproduzi parte desta cara e distante experiência no dia de hoje, embora adicionado o estado de profunda introspecção contemplativa, que falta à ingenuidade infantil.

 

 

Então, despedi-me de Bartleby, meu fiel companheiro, fiel amigo, nesta pequena e fantástica viagem.

 

Troquei-me e meditei acordado, para incorporar a experiência.

 

Acho que o resultado final acabou em uns onze a zero. A favor de sabem quem.

 

Môooooooooooooooooooooooonada!

 

My beautiful friend.

 

São quatro horas da madrugada e ainda chove torrencialmente. Era mesmo uma linha de instabilidade. Chopin já parou de conversar comigo. É hora de ir.

 

Até mais.

 

F.

 

(P.S.: Mônada ainda me tentou pregar uma peça, no fim do dia, já tarde da noite, quando durante o banho lembrei-me de fazer a barba, mas não avistei nenhum dos instrumentos necessários dentro do box. E os tapetes impermeáveis estavam lavando. Inundaria o chão do banheiro esticando-me até a pia. Primeira tentativa, meio esticado, buscando o Gilette; não encontro, ah, claro está dentro da gaveta. Juntamente com o pincel. E a água inundava o chão… Voltei-me para o creme de barbear que estava… do outro lado da pia. Nunca o deixei lá! Claro, tinha de ser hoje. Primeira tentativa. Esticado até as pontas dos dedos, tento agarrá-lo pela tampa, que se desprende do corpo principal. Tenho a tampa, certo! Gargalhadas… Enfim, resolvo sair do box para consumar o dilúvio, mas consigo fazer minha barba.

Pensando em Mônada, ao sair do box tomo todo o cuidado do mundo ao pisar no chão molhado, evitando uma possível queda, rindo e rindo da vida.)

(P.S.2: E lamento por outro post gigantesco. Entendo perfeitamente se ninguém lê-lo, mas estou feliz escrevendo assim mesmo.)

 



 

 

 

12 comentários sobre “A chuva e o Mônada

  1. Não sei se você já era atencioso aos detalhes do cotidiano mas mesmo se sim acredito que o yôga está te fazendo bem.

    Engraçado foi imaginar a Matrix e logo após um ‘page down’ eu ver aquela imagem preta e verde fosforecente.

    Quando estou completamente imerso em uma tarefa, eventualmente minhas emoções ficam à flor da pele, e um exercício que sempre pratico é perceber que tudo ao meu redor continua exatamente como deveria ser: calmo, tranquilo, uma paz só. E é sempre surpreendente! É uma atitude simples que faz toda a diferença. A nossa mente é tão difícil de ser controlada, mas quando isto se torna um hábito, as vantagens são inúmeras e o nosso desenvolvimento pode se dar em escala exponencial.

    Havia visitado seu blog há alguns dias atrás e hoje, lembrando-me de sua existência, voltei e wow me deparei com vários posts. Pensei: OMG! Mas sabe que foi até bom? Continue assim hehe

    Existem tantas formas de melhorar a nossa vida, tantas maneiras de experienciar tudo ao nosso redor, tantos pontos de vista a serem desvendados! Junto a viagens, este é um hobby para a vida toda. Já tenho planos para amanhã. haha =)

    Abraço,
    César

  2. Julius Caeser,

    Bom que meu blog está te inspirando.
    Este é um dos objetivos.

    Sou observador desde que tomei consciência de mim mesmo, creio que com uns 5 ou 6 anos de vida. Tanto que queria ser astrônomo.

    Quanto ao número de posts: pois é, tô postando pra dedéu. Muita ideia represada na cabeça, daí quando a válvula abre, o conteúdo acumulado irrompe com muita intensidade. Mas prov. vou postar menos qdo começar o doutorado.

    Falou.

    • Não completamente. Mas já não é mais o mesmo.

      Agora há dois raspões escuros, bem visíveis, na parte frontal de ambos, e está manchado nas laterais.

      Foda.

      F.

  3. Trágico mas engraçado, rsrs. Quem diria que se aventuraria assim naquele dia, ainda falei “ah deixa para lá esse mamão”… Sinto uma ponta de culpa por apresentá-lo a Bartleby.
    Abração
    Leo

    • Que iiiiiiiiiiiiiiiiiiisso grande Leo.

      Você fez o melhor, aquilo que toda pessoa excelente faria.
      E fui eu quem impôs a compra do mamão. A mim mesmo. Coisa minha. Por isso, ponto pro Mônada😉

      Abração.

  4. Fernando, cheguei aqui no seu blog ontem, depois da sua deixa no facebook. E esse post está ótimo. Leve, subjetivo, instigante e reflexivo. Até com pitadas de crítica política frente à situação das mulheres. Gostei.

    E mal sabia vc que se encontraria com outro autor fascinado com a Mônada alguns meses depois. Mais um ponto pra ela!

    Bjs

    • Obrigado, Rachel. Também gostei deste post.

      Acho que também gostarás de “As aventuras de Brutus” e a série “Memórias”; embora esta seja exigente (muito extensa).

      Pois é, foi uma graaande e boa surpresa ver que o senhor Simmel trabalha com a ideia de Mônada. Me aproximei dele em larga medida por causa disso. E como esse conceito anda me perseguindo, vou me aprofundar nele no ensaio de final de curso.

      Bjos.

  5. Fernando, muito legal ler seu blog, ainda mais com essas imagens que você escolhe. Na terça, com a chuva forte, por pouco não tomo um belo banho de chuva. Mas vi um monte de guarda-chuva quebrado na rua, coisa que nunca tinha visto antes rs.

    • Obrigado, Patrícia. É, invisto bastante nas imagens. Embora ainda precise organizar um pouco melhor meu banco, e verificar meus links. Mas uma coisa de cada vez. Continue aparecendo por aqui; parte da minha meia-dúzia de leitores, hehe.

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