Perspicazes, sardônicos e impenetráveis

 

Ando escutando MGMT ultimamente.

 

Eles me intrigam.

 

Não é bem uma banda, é um duo formado por Ben Goldwasser e Andrew Van Wyngarden, ambos formados em artes pela Wesleyan University, em Middletown, Connecticut.

 

Stewart Mason, do AllMusic, afirmou que eles parecem um meio-termo entre o som “hostil, proto-punk” de Suicide e a abordagem “sardônica” e “pop” do Flaming Lips. Eu diria que Suicide é puro niilismo. Embora eu goste. Mas é o som do fim do mundo; imagine um carro supersônico disparando por entre casulos atômicos, no meio de um deserto nuclear: isso é Suicide. Difícil entender como pode ser combinado com Flaming Lips. Portanto, é difícil entender no que consiste MGMT.

 

Sinto que eles têm muito a dizer, e coisas importantes; é denso, muito denso, mas está tudo trancafiado num casulo de difícil penetração. O som parece zombeteiro, deles, de nós, de tudo, o tempo todo. Mas essa zombaria está envolvida por tons coloridos de alegria, diversão e extensa exuberância. Do começo ao fim, parece um grande circo. É sutil, muito sutil. Parece que transformam em música um círculo de crianças brincando – mas sua imaginação, não os atos. Como se fizessem um aforismo sonoro da imaginação infantil. Sim, é tudo uma grande brincadeira infantil. Mas sinto – e esta sensação não vai embora – que toda essa comédia esconde um sarcasmo penetrante, e dentro deste pacote está codificada uma mensagem de difícil apreensão, mas de amplo alcance. Brincadeira elaborada demais parece-me ocultar seu oposto. É um instrumento retórico para falar de coisas importantes, destituindo-as de todo o seu peso, sem causar o impacto que o fariam sem todo esse invólucro sedutor de diversão burlesca. E assim seduzindo as pessoas a ouvir, sem perceberem, o que eles têm a dizer.

 

O disco Congratulations é extremamente elaborado e parece uma composição de nove atos, em vez de nove músicas. A progressão é minuciosa e há referências internas que geram conceitos sistemáticos. Faz tempo que não escuto algo assim conceitualmente elaborado, sem recorrer ao rock progressivo e à música clássica. Eles sabem muito bem o que estão fazendo.

 

Há algo por trás, mas não sei o que é.

 

 

(Se o vídeo não funcionar, clique aqui.)

 

[Flash Delirium]

 

Mild apprehension
Blank dreams of the coming fun
Distort the odds of a turnaround
Gut screams out next to none
So turn it on
Tune it in
And stay inert
You say “I’ve got the backbone”
The back way to escape the gun
Climbing a tree with a missing limb
And not saving anyone
And now it hurts
To stay at home
And see
Flash
The mirror ball’s throwing mold
You can’t get a grip if there’s nothing to hold
See the flash catch a white lily laugh and wilt
And if you must smash a glass first fill it to the hilt

 

Plants
As far as I know are still,
Still bending toward the light
And if we dance
Until the heart explodes
It’ll make this place ignite
And even if this hall collapses
I can stand by my pillar of hope it’s just
A case of Flash delirium

 

Here’s a growing culture
Deep inside a corpse
Ages stuck together
Takin it to the source
Timeless desperation
Pictures on a screen scream
“hey people, what does it mean?”

 

Comfort keeps us nice
So quick to donate everything (nothing arrives)
Die wolken drifting blinding smiles circling (einkreisen)
But time’s tingling spines
Attaching hands to floor
The rosy-tinted flash

 

The hot dog’s getting cold
And you’ll never be as good as the Rolling Stones
Watch the birds in the airport gathering dirt
Crowd the clean magazine chick lifting up her skirt

 

(Why close one eye and try to
Pledge allegiance to the sun
When plastic ghosts start terrorizing everyone
Geometric troops aligning
Carried up to the burial mounds
My earthbound heart is heavy
Your heartbeat keeps things light
With the violence forever threatening the night
And even if this hall collapses
I can stand by my pillar of hope and trust)
Lines when I close my eyes and just
Aim blindly at the sun
And hear love
When the ghosts start singing terrorizing everyone
Geometric troops aligning
Carried up to the burial mounds with gold
It’s a heavy load but your
You rhythm makes it light and explode
Like a violent star keeps threatening the night
And even if this hall collapses
I can stand by my pillar of hope and trust
That our heads won’t bust

 

66 55 red battleships
40 earthlike planets
3 holes 2 tits
1 fork in it’s side
Zero tears in their eyes

 

Sue the spiders
Sink the Welsh
Stab your facebook
Sell sell sell
Undercooked
Overdone
Mass adulation not so funny
Poisoned honey
Pseudo science
Silly money
You’re my honey

 

A cólera vai acumulando e explode no fim, descarregada, sendo seguida por I Found a Whistle, que vai complementar Flash Delirium e expandir seu conceito, mas abordando a face oposta da mesma moeda, arrebatando através de um tom mais calmo, onírico.

 

(Se o vídeo não funcionar, clique aqui.)

 

[I Found a Whistle]

 

Hey I found a whistle that hangs like a charm
and when my noose is tied I could blow it
and fall down into your arms
15 centuries of dissolution and grief
to return a yellow trickster and a thief

 

Yeah I found a whistle that works every time
that’s when the trail escapes to nowhere
and the flood erases the crime
such conviction
to paint all the wall with the blood
of the young and the faithful and the good

 

Yeah I found a whistle as thin as a sheet
to split the dumbness of a vision
between asleep and a sleep
tiny axes
repeatedly raising the flag
all ignored, real emotion’s such a drag

 

Hey I’ve got a pistol that’s aimed at your heart
and on dark nights when the moon is right
I could show you
the head attached with a scarf
aerophane sorceress, at home obeying the fates
when it’s gone, has it gone all the way?

 

This time
found a whistle
that works every time
Yeah, I found a whistle
that works
hangs like a charm
Yeah, found a whistle
that works every time
Yeah, I found a whistle
that works
closes my mind every time
a whistle
I’ve got it,
I’ve got it,
this time

 

Gente, é forte.

 

As letras são quebra-cabeças, e referenciam-se, seguindo a combinação melódica entre ambas faixas. E mantive a equação nas minhas duas prediletas. Contudo, elas combinam-se com todas as outras faixas. “Flash Delirium” segue “Someone’s  Missing”, em que Wyngarden praticamente repete por 2:20 que “alguém está faltando”, mas num tom melódico e inocente. E isto explode em “Flash Delirium”.

 

Tem coisa aí. Se alguém tiver ideia de como reconstruir o argumento, me ilumine…

 

Até mais.

 

F.

 

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