O joelho, os limites, a falibilidade humana

 

 

Aula de Yôga hoje.

 

Estou melhorando. Mas tenho dificuldade numa certa posição, um dos ásanas. E quando isso ocorre, considero insatisfatório. Com o tronco ereto, estende-se uma perna à frente, voltada para cima, e a outra para trás, virada para baixo, com o joelho e a canela ao chão. Forma-se uma abertura triangular com a disposição das pernas em relação ao solo. O objetivo é conseguir estendê-las totalmente, tocando o períneo no chão. (Ou seja, as meninas levam vantagem…)

 

Sim, claro, o fato de recorrer a toda essa descrição acusa que não sei o termo técnico, em sânscrito, da posição. Shame on me!

 

(Resolvi entrar em contato com meu instrutor, que é pessoa fantástica, mas cujo nome não posso revelar, afinal, ninguém sabe o que pode espreitar este blog. Ele me esclareceu o nome da posição: hanumanásana. De todo modo, se eu mencionasse-a logo de cara, tornando o texto mais conciso, persiste que alguns de minha meia-dúzia de leitores poderiam não saber do que se trata. Além de descrições detalhadas darem um drama a mais ao relato.)

 

Mas voltando ao tema. Quando é a perna direita que fica para trás, com a canela encostada no chão, alguma coisa fisga no joelho. Não exatamente no joelho. Fica a uns dez centímetros dali, mais à esquerda. Ou melhor: tomando-se o centro do joelho como referência, fica a dez centímetros dali num ângulo de 220 graus. (Sim, fiz a medição.) Deve ser um tendão. A sensação desencadeada quando atinjo certo ponto de abertura, arrastando a perna esquerda para frente, é quase uma injeção. Tornando-se uma injeção à medida que tento ir além. E uma injeção contínua se tento ir além do além.

 

 

para fazer isso, eu precisaria de um transplante de joelho

 

 

Quando começo a prática estou como todo bom praticante de SwáSthya Yôga, e tenho a expressão facial da caricatura número zero da figura a seguir, a quem chamaremos carinhosamente de Mister Smile. Diga olá ao Mr. Smile.

 

 

 

 

 

 

Mas quando chega hanumanásana, os contornos externos dos meus lábios já sofrem perturbações. Para ser mais correto, adquiri a capacidade sobrenatural de pressentir hanumanásana. Uma premonição. Sim, sou um vidente em matéria de prever hanumanásana. Provavelmente já consigo percebê-la duas posições antes. Como se uma projeção fantasmagórica se materializasse na sala, em minha frente, momentos antes de o instrutor emitir o sinal derradeiro. Neste ínterim, meu íntimo já treme por antecipação. Aliás, já devo executar aquelas duas posições prévias um pouco pior que o normal. É lícito supor, portanto, que momentos antes de hanumanásana minha face abandona o formato de Mr. Smile e aos poucos – mas claramente – assume o formato número 2, a quem chamaremos, também carinhosamente, de Mister Fake.

 

Mr. Fake é um sorriso wannabe, um desriso, um arremedo de sorriso, alguma coisa que quer ser um sorriso, mas não é. É aquele estado de consciência em que o bem-estar já passou, mas cuja lembrança ainda persiste viva na mente. Como um espectro. Tal qual saudosistas apegados a um passado glorioso que já se perdeu, resistindo a aceitar os novos tempos. Para eles, tempos piores. Mas o destino está selado. É justamente por saberem disso, embora sem assumir, que insistem na tentativa de conservar ou reviver o passado. Assim vestindo uma máscara de contornos belos, mas perfurada de cima a baixo por pequenos orifícios que, de relance, nos revelam a face de melancolia subjacente.

 

E por isto Mister Fake é Mister Fake. Ele representa algo que não mais existe, mas não quer deixar de existir.

 

Os segundos correm. As posições se sucedem. Percebo que há muitas posições focadas nas pernas. E, embora não declarado, o foco momentâneo é alongamento associado a controle da respiração. Os sinais vão surgindo, as circunstâncias se articulando. Mônada move seus pauzinhos. Alguns planetas se alinham; Órion ofusca as luzes de Andrômeda; em algum lugar forma-se um novo buraco negro; explode uma supernova no outro lado da Via Láctea. Não há como evitar. É chegada a hora.

 

O instrutor (ou a instrutora, pois as mulheres adoram essas posições) vira-se, eleva o tronco e abre e estende as pernas, uma para cada lado. Todos o seguem. Eu sigo todos. Mas minha abertura pélvica fica parecendo um L tombado. A perna direita não se estende completamente para trás e fica dobrada, com o joelho e a canela ao chão e com as coxas elevadas. E a esquerda, estendida à frente, só toca o chão com o calcanhar. Provavelmente formo um triângulo retângulo, se fizermos de minhas pernas os catetos e o chão a hipotenusa. O que é algo meio embaraçoso de se dizer. (Talvez não devesse tê-lo feito.) Ou seja: tenho que suprimir esses ângulos…

 

Suo frio, o joelho direito já querendo protestar. Mas mantenho-me no ponto de segurança. Isto é, o L tombado, em vez de um travessão alinhado. Uns tiques nas extremidades das bochechas denunciam a vontade de meu corpo evoluir para a caricatura “4” – a quem chamaremos de Mister Lonely. Contudo, ocorre que meu ponto de segurança é insatisfatório, como o é todo desempenho abaixo da média. É então que sou impelido a ir em frente. Ao encontro de Mr. Lonely. E o faço. Deslizo a perna esquerda mais um pouco a frente, no processo forçando o tendão do joelho direito. Então dispara a seguinte sensação:

 

 

 

 

 

 

De agora em diante, já entrei em um novo modus operandi. Tento disfarçar Mr. Lonely, tentando transformá-lo nos hipotéticos Mr. Nuts ou Mr. Crazy, arregalando os olhos e fazendo umas caretas desvairadas. Tento assim estilizar minha situação, na esperança de ocultá-la. Mas todos sabem que mentira tem perna curta; e minhas pernas que o digam, em especial o joelho direito. Não é o bastante. Insisto. Abro minha abertura em mais uns três ou cinco graus – feito de espetacular irracionalidade, considerando o custo/benefício. Outro disparo. Mas desta vez contínuo. Choques, estalos, sensação de cartilagem rasgando espalham-se pelo joelho, a partir daquele ponto focal. É então que Mr. Lonely já não basta mais pra mim. Preciso ir além na escala evolutiva. É então que o estágio “6”, Mr. Brokenheart, bate à minha porta. Toc toc. Não atendo. Primmmm. A campainha, a campainha. Finjo que não ouço. Ele insiste, grita, choraminga, soluça, argumenta, tenta convencer-me a atendê-lo. E quero atendê-lo. Oferecer um chá e deixar que se aposse de mim, para conquistar mais uns dois graus em minha abertura de L tombado.

 

Mas é então que se coloca um sério dilema, um dilema intransponível. Entra em jogo a imagem que imagino que os outros têm – ou deveriam ter – de mim. Um tabu. A masculinidade, a infalibilidade, o destacamento. Além da natural resistência fisiológica ao dano. E, mais do que tudo: aquilo que eu mesmo espero de mim. Meu Eu-ideal. Meu dever-ser. Meu zeocit.

 

 

 

 

 

 

Que fique claro. É lógico que o Método prescreve uma forma diferente de proceder. Não, não somente diferente: oposta. Trata-se de um processo de autoconhecimento, para, por meio dele, autosuperar-se. Autoconhecimento através do treinamento ascético do corpo e da mente. Assim, é lógico que nunca se deve atingir o limiar da dor, mas o limiar do que é possível para si. As deficiências e impossibilidades individuais devem ser respeitadas, por fazerem parte do “eu” – e o objetivo é justamente este: descobrir o “eu”. É preciso explorar-se e descobrir seus limites e potencialidades. E não se tornar um acrobata. Os benefícios físicos são ganhos indiretos, oriundos dos meios aplicados ao fim proposto, de caráter ontológico. Não se trata de submeter-se a ideais impossíveis de habilidade física ou psíquica. Trata-se de aprender a ser quem realmente se é e, no processo, elaborar o ser.

 

Portanto, o que é importante é a disposição de desenvolvimento perpétuo. Para atingir o máximo daquilo que é possível para si. Eu entendo perfeitamente. Entendo com clarividência. Mas a mente não é uma unidade coerente, é um composto de múltiplos órgãos nem sempre em harmonia entre si. Na prática, no inconsciente, no hábito, no mais profundo do ser, ainda não entendi. Não atingi esse equilíbrio. Pelo menos por enquanto. E por isso procedo transgredindo os limites.

 

 

 

 

 

 

Não quero ser um acrobata. Quero apenas superar meus limites. Talvez tudo isso ocorra por ainda não ter plena consciência deles. Talvez essa irracionalidade desapareça quando o tiver. Mas por que não aceito meus limites? Por que ajo assim? Provavelmente por uma profunda insatisfação com a falibilidade, com a incompletude, com os confins. Temo profundamente os limites. Não os aceito. Me aterrorizam. Sinto como se fossem uma jaula, correntes inquebráveis, uma camisa de força que me sufoca.

 

Mas é-se falível. Todos o são. Quanto a isso, nada se pode fazer.

 

Tendo a achar que sou particularmente falível. É uma confusão. Na verdade, é tudo uma grande confusão. Minha mente projeta o limite além da capacidade humana, tornando impossível atingi-lo ou superá-lo. Não entendo que não é preciso ir tão longe para libertar-se das amarras. Não entendo que os limites que devemos quebrar são aqueles que estão DENTRO de nossas possibilidades humanas, não fora. Que não é necessário ser infalível para ser livre.

 

Isto é muito importante, meu caro leitor. Talvez uma das coisas mais importantes que jamais escreverei neste blog: não é necessário ser infalível para ser livre.

 

 

 

 

 

 

É então, no limiar da dor, que atinjo o limite final, absoluto, em que a impossibilidade torna-se irresistível, em que o corpo humano limita de uma vez por todas a mente humana. O instinto de autopreservação faz-me agir de maneira minimamente racional e dou adeus a Mr. Brokenheart, que retorna ao encontro de seus irmãos, Mr. Sad e Mr. Pain. Sinto por eles, mas não irei ao seu encontro. Nem pelo bem da infalibilidade humana. Então, recuo.

 

Hanumanásana termina, sendo sucedida por outra posição. Uma em que eventualmente me dou bem, em que gozo de boa aventurança, mas que outra pessoa, por sua vez, tem seus problemas. Então me identifico com ela. Sinto uma imensa humanidade comum, que se manifesta na forma de compaixão. Embora esteja cônscio de que a base de tal benevolência é em certa medida a pena, e a pena é egoísta, pois exige que alguém compartilhe de nossos problemas ou que sofra de mazelas das quais estamos salvos. O ideal seria sentir compaixão sem a necessidade de outros sofrerem sozinhos ou lamuriarem conosco.

 

De todo modo, algo definitivamente positivo deriva disso tudo. Sinto-me compelido a continuar em frente, explorando os limites, ao lado de outros seres humanos falíveis. Essa condição humana comum nos propele adiante, para que nos descubramos e ampliemos os limiares do possível. Pois é assim que as coisas são. Não dá pra ser 200%. Toda a vida consiste em aproximar-se dos 90 ou 100% que são possíveis a nós.

 

 

 

 

 

 

Muitos filósofos e pensadores já perceberam que a vida, em última instância, não tem sentido. Sim, estão certos. É uma luta perdida de antemão. O Universo um dia irá decair. Nem sequer as partículas elementares, que compõem toda a realidade, são eternas. A quantidade de hidrogênio no cosmos é limitada. Em tempo, não haverá mais combustível a ser queimado pelas estrelas, que virarão casulos de metais pesados. E sem estrelas, não haverá luz. Nestas trevas, restos de corpos celestiais flutuarão silenciosamente na profunda vastidão negra. Até que as forças fraca e forte que sustentam seus átomos se esgotem e seus elementos degenerem sobre si mesmos, gerando uma massa de energia morta, um estado de entropia absoluta. Isso ocorrerá em 10 elevado a 100. Isto é, em 10 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 000 anos. Ou seja, o objetivo fundamental da vida, que é perpetuar-se, não se realizará. Partimos em uma aventura com destino selado. Porém, ao mesmo tempo, é precisamente por isso que não temos nada a perder. Se para o cosmos não faz diferença alguma se vivemos ou padecemos, se somos um ponto insignificante na vastidão do Universo, então podemos muito bem viver até os últimos limites. O que, para nós, faz TODA a diferença. Como um paciente terminal que aprende a viver ao máximo até o último suspiro de seus pulmões, a mortalidade incita a produção de sentido, de memórias, de caras e ternas lembranças, por tanto quanto durar esta grande odisseia.

 

Por isso, é preciso perseverar. Para ver até onde podemos chegar. Seja qual for a trajetória escolhida por cada um. Perseverar e perseverar; adiante, adiante, adiante; sempre adiante.

 

 

 

 

Outro post extenso. É hora de ir.

 

Até mais.

 

F.

 

P.S.: Uma observação quanto ao Mr. Smile. Alguém poderia citar o Mister Smile de Frank Krause. Difícil de acreditar como pode parecer, meu Mr. Smile não tem nada a ver com o Mr. Smile do Sr. Krause. Tratou-se de uma justaposição fortuita de nomes. Perdido em minha falta de erudição literária (e gostaria que esta sentença fosse apenas falsa modéstia), estava à busca de algum personagem que pudesse ser um referencial cômico da caricatura da imagem dos níveis de dor. Para dar vida e tornar o texto mais agradável. Mas não obtive êxito. Lógico: nem o Google te salva quando precisas simular dez anos de vida literária em cinco minutos, em um cérebro recheado de Street Fighter. Então, simplesmente olhei para o Mr. Smile, divaguei por alguns momentos, e então alguma coisa piscou, provavelmente influenciada por algum obscuro conhecimento prático da técnica narrativa de usar a metalinguagem de maneira cômica. Ora, o Mr. Smile tem obviamente cara de Mr. Smile. E assim ele surgiu. Simples. Algo óbvio. Mas fiquei com o óbvio: é mais seguro…

 

 

3 comentários sobre “O joelho, os limites, a falibilidade humana

  1. Este artigo tem tanto sentido nas entrelinhas que tem um ar poético.

    E eu ACHO que entendo o que você diz com não esperar alcançar os 200%. Você quer delimitar uma base geral para pautar sua vida, ou seja, partir do abstrato, do GERAL, do irrevogável, das leis universais que regem a tudo e a nós, para então voltar a si e com estas certezas infalíveis em mente desenvolver-se cada mais para o ESPECÍFICO e ultrapassar os seus limites dia-a-dia.

    De qualquer forma, esse foi o início do meu caminho.

    Abraço,
    César

    • É, até que é bem denso. Talvez o mais denso até agora.

      No sentido a que atribui aos percentuais, 200% é impossível. Está além da vida. Na prática, é o que acabo tentando fazer – e isso te sabota. Só levará ao sofrimento e ao fim da vida.
      100% é o máximo possível; a excelência humana absoluta. Só pra isso já há limites quase intransponíveis a superar.

      Abraço.

  2. Fugindo um pouco do foco do assunto… Cara, toma MUITO cuidado com joelho. Parece óbvio dizer isso, mas eu preciso enfatizar isso, é algo muito delicado que pode trazer sérios problemas p/ vc.

    Eu já chorei de dor em duas ocasiões:

    – Levei uma chave de joelho (ou kneebar, nos meios do submission) num treino de jiu-jitsu e demorei pra bater, fiquei um mês sem me movimentar direito, quase desloquei as articulações do joelho e a dor era indescritível. Tá, tvz a dor se aproxime da foto do trovão que vc postou. Nunca me esquecerei disso, chaves de joelho são um SUPLÍCIO😦

    – Caí numa disputa de bola enqto jogava futebol, e meu joelho se chocou com o piso duro da quadra. Outra dor ridiculamente indescritível… E você fica ali deitado uns 5 minutos, estático, agoniado, pedindo p/ mamãe ajudar.

    Mas felizmente hj meu joelho está 100% (ou 200%, como preferir, hehe) e faço tudo que gosto numa boa. Só que, como registrei, qse fui pro estaleiro por causa de péssimas experiências com joelho.

    Nunca pratiquei ioga, mas imagino que você deve arriscar umas posições um tanto qto forçadas, portanto todo cuidado é pouco.

    Mas é isso, e parabéns pelo ótimo post, vou me lembrar do que vc disse.

    Abs.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s