Algumas observações

 

Homo sapiens não é tocado ao acaso. Bem, quase nada na vida deste que vos fala é tocado ao acaso. Mas homo sapiens menos ainda.

 

Tenho uma planilha de planejamento. Neste exato momento, há 38 posts planejados. Três já escritos; dos restantes, metade com o tema já definido e a outra metade com o tema e nuvens de ideias esparsas.

 

Mas (in)felizmente, as ideias independem de mim, e me assaltam de vez em quando. Daí, acaba que alguns posts estão furando fila. Como este aqui. Não estou conseguindo escrever o suficiente! Estou pensando mais do que consigo escrever, e quanto mais posts faço, mais a lista engorda, em vez de emagrecer. Até às três horas da tarde do dia de hoje, pensei que meu próximo post seria sobre moda, e que o seguinte seria sobre Brutus e os machões. (Este, aliás, será um post interessante, espere pra ver!) Mas notei algumas coisas interessantes hoje, e gostaria de compartilhá-las com minha meia-dúzia de leitores. (Espero que sejam leitoras.)

 

Calma, calma. Não fui acometido pelo estado de hipersensibilidade e hiperestimulação mental. Ou seja, este post não será de milhagem intercontinental. (Talvez “só” interestadual.) Tanto que não o elaborarei como um texto corrido. Vou separá-lo em observações sucintas (ou não) e independentes.

 

 

como se vê, este será um post simples

 

 

1. Refrescou em Curitiba. A temperatura máxima foi de 22 graus. O tempo ficou nublado, com nuvens baixas, cinzentas, típicas de infiltração oceânica. Também ventou com bastante frequência. Foi interessante a situação meteorológica de hoje, e provavelmente também o será a de amanhã. Uma frente fria passou rapidamente por Curitiba, e uma zona de alta pressão desviou para o oceano. No inverno isso traz aquele frio úmido de rachar; no verão traz esse ar fresco. E as nuvens baixas que cobrem o céu como uma cortina cinzenta. Mas o curioso – curiosíssimo – é que esta massa ficou próxima ao solo, enquanto acima dela permaneceu a massa de ar quente que aqui estava produzindo calor até ontem. O ar fresco e úmido foi invadindo e jogando a massa de ar quente para cima. Ou seja: tecnicamente, a situação que produzia o calor anterior não sumiu, só tomou um “chega pra lá” do frescor atual. E veja! Isto que é demais: se fôssemos escalar a atmosfera, depois de algumas centenas de metros iria esquentar, em vez de esfriar. O ar próximo ao solo está mais frio que o mais elevado. Temos, assim, duas situações atmosféricas justapostas, compartilhando o mesmo espaço.

 

Amanhã deverá continuar fresco, mas no fim de semana esquentará abruptamente. A massa tropical atlântica é soberana no verão, e mostrará quem manda no final das contas, neutralizando a infiltração oceânica.

 

 

 

2. Fui comprar umas lâmpadas para as minhas luminárias Tolomeo e Nessino. São lâmpadas E12, raríssimas. Claro, não encontrei as apropriadas, mas dei um “jeitinho”, como todo bom brasileiro. Saí relativamente feliz da loja de lâmpadas. Hoje não choveu, portanto as calçadas estavam secas. Eu estava caminhando em direção ao Shopping Estação, pela Silva Jardim. Bolsa num braço, sacola e guarda-chuva no outro. E celular com música no bolso. (Muito Bowie hoje.) Assim, estava difícil caminhar estilosamente. Então, a certa altura meu pé afundou no único buraco num raio de quinhentos metros. (Pelo menos com essa profundidade.) Em todo o trajeto, desde que saí de casa, nos três quilômetros que caminhei, o único buraco em que ainda havia água. O único. E na água havia sujeira. Portanto, ao afundar o pé no buraco, seguindo as leis da mecânica clássica, jorrou água com sujeira em minha calça.

 

2.1. Veja bem: fui capaz de pisar no único buraco com água em todo o meu trajeto.

 

2.2. Eu vestia uma calça branca.

 

2.3. Fui capaz de pisar no único buraco de todo o meu trajeto e, ao mesmo tempo, vestia uma calça branca.

 

2.4. A calça é uma Dsquared.

 

2.5. Qual a probabilidade disso ocorrer? Não sei, só sei que não faço de propósito. Mas começo a cogitar haver alguma coisa, no fundo do meu subconsciente, que deve fazer ser de propósito. Desta vez preciso poupar Mônada. (Ando culpando-o demais…) Devo ter alguns neurônios rebeldes em alguma região do cérebro. Eles devem filtrar tudo o que passa pela retina, e, oportunistas, ao identificarem uma situação potencialmente embaraçosa, embebedam seus colegas responsáveis por coordenar os movimentos das pernas, assumem o comando e enviam os sinais necessários a elas para fazer-me pisar em vão. Sim. É uma explicação plausível para não cairmos no misticismo. Ou meu subconsciente me faz pisar nesses buracos com calças brancas para produzir mais posts inesperados. Sim, é possível.

 

 

tudo pelas Nessino!

 

 

3. Deslocava-me ao Shopping Estação atrás de cadarços. Tenho um sapato cujos cadarços são loooooooooooooooongos. Difíceis de achar… E me disseram haver uma boa sapataria por lá.

 

3.1. No trajeto, passei por uma banca de jornal, dessas com vitrines de vidro, com as revistas expostas. Essas vitrines possuem quatro tipos de público: 1) homens atrás de notícias de futebol; 2) homens atrás de pornografia; 3) homens atrás das tragédias da Tribuna do Paraná; 4) mulheres atrás de fofocas. Como as pessoas não são bobas, muito menos os comerciantes, decorre que as revistas expostas correspondem a tais públicos. (Bourdieu chamava isso de “sociologia espontânea” ou “sociologia prática”.) Assim, havia uma mulher negra, baixa, com indumentária simples e pele batida, observando a vitrine. Passei bem rápido, mas foi o suficiente: ela observava a capa da Ti ti ti. Há há há. Impressionante! A sócio-lógica não falha! Ela estaria lendo o quê, National Geographic? O mangá de Neon Genesis Evangelion?

 

4. Havia necas de sapataria no Shopping Estação. Fui notificado que ela fechou. Dãh. Claro que fechou. Comé que uma sapataria vai se sustentar num shopping? Economicamente impossível. Neste momento, o espírito de Adam Smith apontou e deu umas gargalhadas pra cima de mim. Não deveria ter levado a dica a sério…

 

5. Tomei um Ovomaltine no Bob’s. Para aproveitar a viagem. Não estava ruim, mas tinha a textura arenosa. Não era líquido, e também não era do ovomaltine; foi como se algumas pedrinhas de gelo se recusassem a derreter. Pô! Já foi uma delícia! Coisa de outro mundo. Mas ultimamente estão frequentes os Ovomaltines “marromenos” no Bob’s…

 

 

já foi melhor...

 

 

6. Enquanto tomava Ovomaltine, três metaleiros cabeludos com camisetas de bandas de outros metaleiros cabeludos passaram por mim, à esquerda, provavelmente caminhando em direção a alguma loja de RPG ou de discos (para adquirir discos de metaleiros cabeludos). Um deles, o mais arrojado, tinha barba de Enéas. Mas ainda assim parecia-se com os demais. É impressionante o grau de homogeneidade estética que os metaleiros conseguiram atingir. Tanto que, uns 30 segundos depois, com o grupo já distante uns 20 metros, passou por mim um rapaz magro, digo, pálido, com cabelão, rabinho de cavalo e camiseta do Children of Bottom. Carregava algum refrigerante. Ali eu pensei: “é amigo e vai ao encontro dos outros três”. Dito e feito. Aliás: os metaleiros ou são demasiado magros ou demasiado gordos. Nunca meio-termo. E nunca sarados. Será coincidência? Aposto que não.

 

6.1. Qual a probabilidade de a Gisele Bündchen sair com algum deles? Ou com algum metaleiro cabeludo? Ah, se for um famoso, as chances aumentam. Mas, ainda assim, tipo, um Gene Simmons? Inconcebível!

 

 

 

 

7. Ainda na estação tubo, pensei ter perdido tempo com a ida ao shopping. Uns bons 40 minutos. Mas tomei um Ovomaltine; embora marromenos, ainda é um Ovomaltine. Mas pensando bem! Todo aquele açúcar e aquela gordura saturada devem ter reduzido minha expectativa de vida em uns dois dias. Mas talvez o prazer gerado possa ter me dado mais um dia de vida. De todo modo, produziu este post. Qualidade vale mais que quantidade, então estou no lucro.

 

8. No trajeto de volta, no biarticulado Santa Cândida-Capão Raso, eternamente lotado, passei pela Travessa da Lapa. Lar de skatistas. Hoje um local relativamente civilizado; mas já foi um pedaço tenebroso de cidade. Bem rápido, de relance, vi três rapazes adolescentes (o curitibano diria: piás) em frente a uma loja de sneakers. Dois em pé, o outro sentado. O sentado segurava um copo de plástico, desses de sundae. Ele fez um gesto imitando beber alguma coisa, mas exibindo ao mundo sua extensa língua (à la Gene Simmons), arregalando os olhos e fazendo uma careta de Sérgio Malandro. A coisa mais engraçada que vi nos últimos tempos. Dei umas risadas no ônibus, provavelmente aborrecendo os seres humanos próximos.

 

8.1. Os seres humanos próximos devem ter pensado que eu era doido. Especialmente por rir num ônibus lotado. (Pensei isto na hora.) Mas eu ri mesmo assim.

 

9. Nunca fiz uma prática de SwáSthya tão boa quanto hoje. Supimpa, do começo ao fim. Impressionante como o estado de espírito influencia o desempenho, qualquer seja a área de atuação. Estou começando a atingir outro nível na técnica de relaxamento e na de meditação. Agora já consigo relaxar o globo ocular. Mas espero um dia relaxar o espírito.

 

 

 

 

10. Esqueci meu guarda-chuva na farmácia. Espero que ainda esteja lá amanhã. E espero que não chova amanhã. Para não submetê-los a outro “A chuva e o Mônada”…

 

11. Fui ao Sat Chakra – uma espécie de confraternização dos praticantes de SwáSthya Yôga – com um cardigã Gucci e uma calça Dsquared. A pé. Que demais. Visto cardigã Gucci e calça Dsquared, mas não tenho carro. Existem quantos seres humanos ambulantes vestindo cardigãs Gucci e calças Dsquared, nesta situação, vivos, neste planeta Terra? Seis? Uma dúzia? Bem, não sei, mas sou um deles.

 

11.1. Não, não sou contra carros. Tenho uma bicicleta, e adoro ela, mas também adoro carros. Se quiser me presentear com um, querido leitor, aceitarei de prontidão e te darei quatro ou cinco beijocas devidamente distribuídas pela face.

 

11.1.1. Não, não paguei oitocentos reais no cardigã ou quinhentos na calça. Comprei baratinho no eBay, de um outlet. (Ou da máfia chinesa, mas enfim…) Devo ser o maior especialista do mundo em comprar no eBay.

 

Até mais.

 

F.

 

P.S.: O próximo post será sobre moda, e o seguinte sobre as aventuras de Brutus. Vivam e verão.

 

2 comentários sobre “Algumas observações

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