As aventuras de Brutus

 

 

No dia 6 de janeiro de 2011, ocorreu uma singularidade sociológica na Unidade em que pratico Yôga, e tive a sorte de lá estar no momento certo para presenciá-la. Foi como se Mônada me recompensasse por suas travessuras, em vez de surpreender-me com indecifráveis códigos de sociabilidade, solipcistas professando o relativismo cognitivo, computadores rebeldes, chuvas inesperadas, guarda-chuvas em desintegração e buracos cheios de água suja.

 

Uma aluna iniciante, que chamaremos carinhosamente de Olivia, trouxe um amigo para conhecer a Unidade. Embora indelicado de minha parte, digo com relativa certeza que Olivia entende o Swásthya como uma espécie de ginástica zen. Desnecessário dizer que é uma pessoa agradável, educada, boa gente. Mas sua visão de mundo é aquilo que poderíamos chamar de um arquétipo social feito gente. Incorpora e exprime a opinião geral, os procedimentos gerais, os valores gerais. Diz-se que “yoga” é coisa de mulher para dar o que as mulheres desejam, isto é, corpos magros e esculpidos. Com um plus de relaxamento. A sociedade mandou. Voilà. Lá está Olivia.

 

Com essas informações em mãos, já poderíamos deduzir algumas características de seu simpatizante. Afinal, “diga-me com quem andas e direi quem és”. Mas eu não esperava que ele fosse manifestar todos os preconceitos e estereótipos associados ao papel do machão. Sim, todos. Como diabos ele acabara ali? Por um favor à amiga – e possível futura amante? Mais tarde, fui informado que ela o havia presentado com um mês de práticas. Não poderia recusar o presente?  Fora Brutus obrigado a meter-se numa enrascada, pelo bem de um possível romance proibido, ou melhor, promiscuidade deslavada?

 

 

hoje falaremos de caras machões

 

 

Brutus iniciou sua aventura na Unidade irrompendo com virilidade pela porta principal. Sua indumentária denunciava ser um profissional do Direito. Momentos antes, eu descansava no sofá da sala principal, tomando o sempre bom chai. À vontade, conversava com meu instrutor sobre trivialidades; é bom conversar trivialidades às vezes. O soar da campainha obrigou meu instrutor a receber os visitantes. Segundos depois, acompanhando e ofuscando o tom feminino da moça, vibrou uma voz grave e exaltada, de tom intimidador. Voz desses apresentadores gorduchos de programas sensacionalistas, dedicados a tragédias urbanas. Como nunca havia escutado um som desses desde que passei a habitar a casa, fiquei curioso e fui observar o fenômeno de perto.

 

De fato, Brutus trabalhava em algum tribunal do Estado. Verdadeira, portanto, a hipótese da indumentária. Sua expressão geral denunciava virilidade inflamada. Talvez as honrarias jurídicas expliquem-na, em parte. Era gorducho e desde o início tratou meu instrutor com grosseria. E, por este motivo, Brutus.

 

 

 

brutus era a cara e o reflexo do datena

 

 

 

Brutus perturbava a ordem local de duas maneiras. Em primeiro lugar, a massa do seu corpo superava em duas ou três vezes a do habitante médio local, gerando uma perturbação no campo gravitacional do ambiente, ainda que infinitesimal. O que, claro, não constitui um problema. (Embora o seja o fato de ter ali entrado pensando que toda a coisa se resumiria a queimar tecido adiposo e aturar gente esotérica.)

 

A principal perturbação era de ordem cultural. Ele simplesmente não pertencia ao lugar. Não, não apenas: opunha-se. Uma incompatibilidade lógica, diferença inconciliável. Tudo em Brutus oprimia o ambiente, e tudo no ambiente oprimia Brutus. Das cores das paredes aos objetos das estantes; da linguagem corrente ao jeito de ser e estar. Das palavras pronunciadas ao tom de voz. Do olhar ao tato. Tudo era distante. Tudo era incompatível.

 

Brutos era um blaugrana perdido no Santiago Bernabéu. Uma faixa dos Sex Pistols esquecida entre o Requiem e a Nona. Um livro do Paulo Coelho separando Bartleby de Moby Dick. Uma trepadeira em meio a carvalhos. Mato entre tulipas.

 

 

 

 

 

 

Após as apresentações protocolares, em que Brutus aproveitara para salientar sua elevada posição na hierarquia social, meu instrutor foi notificado das intenções do futuro casal. Teria de conduzir Brutus em uma excursão pela casa. Mas, antes, decorreu uma breve negociação. O principal evento no interior da Unidade é a prática de uma forma específica de Yôga, chamada Swásthya. Era próximo das dezenove e trinta, horário da prática de Olivia. E Olivia trouxera Brutus para “conhecer” a Unidade. Ora. Com tal conjunto de asserções em vista, qualquer um deduziria a conclusão: Olivia trouxera Brutus para que praticasse com ela.

 

Mas Brutus tinha reservas. Não queria praticar de imediato. E não demorou a expor sua intenção, embora na forma de ordem, em vez de indagação. Queria entrar na sala de prática e “dar só uma olhada”. Veja bem. Ele não queria observar, ver, analisar. Queria “só dar uma olhada”. Escolhera uma expressão mais coloquial, quase pejorativa, no intuito de exprimir distância. Ele sentia e percebia, e, portanto, exprimia. Mas apesar de só uma olhada, ficaria do começo ao fim. Olivia e meu instrutor levantaram as sobrancelhas, entre outras expressões ligadas ao absurdo. Lá estávamos sendo exigidos a permitir que alguém ficasse num dos cantos da sala, enquanto os demais praticassem, vigiados. E eventualmente embaraçados por piadinhas.

 

 

 

 

 

 

Sabe, Yôga é uma coisa íntima. Swásthya significa “autossuficiência”. É o momento íntimo do autoestudo. Colocar alguém para observá-lo é como instalar uma câmera de vigilância no interior do ego. É como emprestar a um estranho o seu diário pessoal. Como despir-se à força. Por esse motivo, só permanece no recinto quem está no mesmo barco, buscando o mesmo objetivo, embora seguindo por outros trilhos.

 

Como em tudo, a confiança e a abertura da intimidade dependem de alguma espécie de algo em comum. Essa cumplicidade gera compreensão, que faz abaixarem as armas, as reservas, conduzindo à união. E da união gera-se complementaridade mútua, que suprime a solidão e preenche o coração. Compartilhando valores e fins, os praticantes estabelecem laços de confiança, apoiando a vida e os sonhos de cada um.

 

Como explicar isso a Brutus? Infelizmente, impossível. Sim, impossível. Brutus poderia aprender sânscrito, japonês e mandarim, mas nunca compreenderia esse fato tão simples. Pois para ele é sociologicamente impossível. Seus valores mais profundos, sua visão de mundo, suas categorias de percepção baseiam-se em princípios diametralmente opostos aos cultivados na Unidade. Para compreender, teria de desencarnar, nascer de novo, deixar de ser quem realmente é.

 

Espontaneamente, meu instrutor sabia de tudo isso e respondeu desde logo: “Impossível!”. Com a costumeira polidez que lhe é peculiar, sublimando aquela descarga emotiva que dispara quando presenciamos o que é chocante. Brutus fez aquela careta que as autoridades fazem quando o policial recusa-se a aceitar propina.

 

– Como não posso ver?!?

 

Sensível, Olivia interveio e botou panos quentes, acalentando a ferida no ego de Brutus. Disse a ele: “Sabe, não dá pra explicar… você tem que fazer…”.

 

Sim: embora representante do senso comum, Olivia pressentia a lógica imanente do local. Então, pela quarta ou quinta vez em sua vida, Brutus cedeu.

 

 

sô macho, rapaiz.

 

 

Invadido o perímetro, Brutus foi guiado até o vestiário masculino. Quando percebeu a divisão sexual óbvia entre os vestiários, imediatamente reagiu com uma observação fálica e sarcástica, destilando mais acidez para cima do meu instrutor. Exclamou, com voz impositiva: “É separado? Os home são separado das mulher?”. Ao qual meu instrutor respondeu, após alguns centésimos de perplexidade: “Se quiser, pode entrar com a Olivia. Olivia, ele quer entrar aí…”. Ao que Olivia reagiu com gritinhos atônitos. Compadecido com o embaraço infligido à futura amante, Brutus resignou-se com a dualidade dos vestiários.

 

A piada engana, assim como as aparências. O que Brutus realmente quis dizer foi: “Fulano, não sei quanto a você, mas eu sô macho bagarai. Pega essas mina aí e bota tudo no meu colo, falô. Tasco todinhas. Vão tombar que nem dominó”.

 

 

Lembre-se sempre disto, caro leitor: o que as pessoas falam nem sempre é o que querem dizer.

 

 

 

 

 

 

Nesse momento, eu já havia retornado ao sofá e ao bom chai. E, após a “brincadeira”, tudo se esclarecera. Não precisava de mais evidências. Bastavam as informações disponíveis.

 

Na extensa miríade de pontos de contradição entre Brutus e o meio, havia um elemento em especial que se ressaltava e se impunha perante os demais: Brutus era machão. Não um espécime do sexo masculino. Não apenas XY. Não somente homem. Macho-alfa. Macho, rapá. São coisas bem diferentes.

 

Saído do vestiário, Brutus sentou-se próximo de mim e perguntou do que era feita a bebida que eu degustava. Leite com gengibre, canela, açúcar e outras especiarias. Isto, mais a vestimenta de Zinedine Zidane, deve ter bastado para classificar-me no lado rosa da força.

 

Já na sala de prática, meu instrutor chamou Brutus pelas iniciais. Ao que imediatamente respondeu, com inflamação nas cordas vocais:

 

– Bru não! Bru é viado!

 

É viado! Sim. A maior preocupação na vida de um machão: não parecer um viado.

 

Reagiu com toda essa fúria porque já entrara no recinto com cautela, além de alguns preconceitos. Estes produzindo aquela. E ambos oriundos do instinto do macho-alfa. Já entrara no habitat alerta para com sua masculinidade. Era isso, e só isso – para ele a coisa mais importante do mundo – que estava em jogo.

 

 

 

maaaaaaaaaaaaaaaacho, rapaiz!

 

 

 

Ao enxergar o local, as coisas e as pessoas, seus olhos não viram o local, as coisas ou as pessoas. Viram o que já estava impresso de antemão no cérebro, isto é, seu preconceito. Como quando passamos inúmeras vezes pelo mesmo trajeto, o cérebro não se dá mais ao trabalho de processar toda a informação proveniente dos olhos. Em vez disso, recorre à memória, para economizar energia. Assim, a pessoa não mais vê o que está fora, mas o que está dentro de si. Toma as coisas da mente como coisas de fato. Presa a uma memória fossilizada, não mais percebe os detalhes e as mudanças do meio. Enxerga o passado, no lugar do presente. Eternamente.

 

 

É assim que funciona todo preconceito, toda intolerância, toda ordem opressora, toda irracionalidade. Baseiam-se na tirania de uma memória deturpada.

 

 

 

 

 

 

Assim, vítima de sua própria mente, Brutus pré-viu feminilidade. Feminilidade potencial. Não tinha certeza, e daí a reserva; por isso hesitava, por isso soluçava, mostrava tanto nervosismo. Se estivesse certo da danação cor-de-rosa do ambiente, as chances de ali surgir seriam literalmente zero, e assim a singularidade não se consumaria.

 

A dúvida, somente, já era suficiente para fazê-lo sentir sua masculinidade ameaçada. Temia estar entrando desguarnecido no covil do inimigo. Ficou ansioso e perturbado com isso. Por isso irrompeu colérico. Por isso deu ordens. Por isso teceu a piadinha dos vestiários. Finalmente, ao ser chamado pelas iniciais, reagiu pronta e energicamente ao que entendeu como comprovação decisiva de seus preconceitos: o uso da sílaba inicial do nome como apelido, uma demonstração de afeto, conjurou-lhe de imediato o fantasma do homem afeminado. Viadagem, na linguagem nativa. Diante do sinal derradeiro, seu mundo acabara por desabar.

 

Afeto é coisa de biba. Macho que é macho não reflete, não contempla, não admira, não sente. É pedra, porrada, é duro na queda. Sua reação declarava, com hombridade, seu gênero a todos os possíveis emasculados presentes:

 

– NÃO SEI QUANTO A VOCÊS, MAS SÔ MACHO! MACHO BAGARAI! ENTENDERAM?!?

 

 

É isso o que comunicou, é isso o que transmitiu, é isso o que disse, embora não o falasse.

 

 

 

 

 

 

Pobre Brutus. Desde o início, devia estar acometido por uma ansiedade mórbida, como se caminhasse de olhos vendados por um terreno desconhecido e hostil. Desde o início, seu cérebro devia oscilar nervosamente entre o lado azul e o lado rosa da força – tentando aferir de uma vez por todas a natureza sexual dos habitantes daquele estranho universo particular. Em certo sentido, compadeço-me com Brutus. Ali, ele era minoria. Ali, sentia-se intimidado e precisava conduzir-se na defensiva, ao contrário de no mundo exterior, em que o diâmetro da pança combinada à indumentária e os títulos honoríficos conferiam-lhe permissão para destratar o próximo. (Com a exceção da Vossa Excelência.) É um fato sociológico espetacular: o dominante, o poderoso, o alfa, sentir-se intimidado, deslocado de seus domínios. Como um Rei destituído de seu exército, obrigado a defender sozinho o seu trono.

 

 

 

 

 

 

Nos países patriarcais, Yôga é visto pelo senso comum como coisa de mulher. Na verdade, qualquer atividade física que envolve posições coreográficas, qualquer ato de estilização e contemplação é relegado ao domínio feminino. E como o domínio feminino é entendido – e imposto – como inferior ao masculino, decorre que as práticas a ele associadas sofrem de estigma. Mulher pode, afinal, são naturalmente afeitas a “frescuras”. Quanto ao homem, ousando aventurar-se por esses domínios, será marcado com a inelutável chaga da viadagem. Um biba. Sucede assim pela coreografia e a estilização agredirem a índole do macho-alfa. Macho tem de levantar FERRO. Macho tem de exalar FORÇA. Força bruta. Assim, todos os equipamentos, ferramentas, elementos, movimentos e práticas que o cercam precisam exprimir esse princípio. A prática precisa estar diretamente relacionada a algum atributo mor de virilidade. E quanto mais o atributo manifestado exprimir “força”, melhor. A força é o elemento fundamental.

 

Esse princípio aplica-se a vários domínios de suas vidas. Nesse imaginário, força é acompanhada de rusticidade, dureza, aridez, bruteza, inflexibilidade, insensibilidade, resistência, agressividade, dominação, entre outras insígnias do patriarca.

 

Assim, no domingão, o macho-alfa faz um churrasco e toma cerveja, com seu grupo de machos-alfa. O churrasco precisa ser de carne vermelha – branca já lança dúvidas sobre a masculinidade do réu. E precisa ser mal passada. Tem de escorrer sangue. Comer sangue é coisa de macho; filé bem passado é coisa de mulher – ou biba. E os filés têm de ser grossos. Que frescura é essa de filé fininho? Tem de mastigar tudo goela abaixo, mermão. E se tiver nervo, gordura, melhor ainda. E com fagulhas de carvão queimadas na textura do cadáver. E é importante que acompanhe cerveja. Suco, nem pensar. Maricagem natureba!

 

 

 

 

 

 

O leitor poderia repreendê-los por seus hábitos nocivos. Mas, para eles, quem pensa em saúde é mulher. Ou biba. Macho não fica doente e, portanto, não precisa cuidar da saúde. E por isso evita o médico. E aí está uma importante razão de sua catastrófica expectativa de vida.

 

Macho que é macho não leva desaforo pra casa. Cutucou, leva. Quem tem cojones não foge de uma briga, colega. E se tiver um cano em mãos, mete logo uns pipoco. Eis a origem daquelas notícias “fulano mata sicrano após discussão em bar”. E eis outro notável fator de compressão da expectativa de vida do cara durão.

 

Nessa roda de iguais, sentem-se confortáveis para cultuar os deuses da masculinidade. Assim, após autenticarem seus hábitos alimentícios, prosseguem às seguintes etapas:

 

1. Discussão sobre suas esposas;

2. Exorcismo de suas esposas (e respectivas sogras);

3. Discussão das responsabilidades de pai de família;

4. Exorcismo das responsabilidades de pai de família (acompanhado de contemplação nostálgica dos áureos tempos de libertinagem juvenil);

5. Discussão sobre política;

6. Reclamação da política;

7. Discussão sobre futebol;

8. Polêmica sobre futebol (envolvendo acusações de elaboradas conspirações para, evidentemente, beneficiar o clube do outro);

9. E, o mais importante: discussão sobre mulheres.

 

Ao final da reza, concluem aquilo que sempre concluem, e continuarão a concluir: que o casamento é uma maldição diabólica; que suas esposas são um pé no saco; que nunca deveriam ter casado; que o governo não presta (desde que não façam parte dele); que seu time – e somente ele – é prejudicado pela arbitragem. Por fim, definem o rol das cadelas mais gostosas do planeta, sem jamais se esquecerem de mencionar o estrago que infligiriam às pobres coitadas, na ocasião de uma possível foda.

 

Durante o ritual, gargalham enquanto destilam veneno sobre seus próximos, competindo para definir o mais macho, isto é, o mais bárbaro entre os primatas. Pois, não, o macho-alfa não tem amigos, não confia em ninguém, não ama ninguém. Seu único amigo é ele mesmo, e sua única paixão é o próprio ego.

 

O carro, a mansão e o dinheiro são suas expressões fálicas. A propriedade é a medida exata do grau de egolatria, e no fundamento do ego está a proeminência sexual. Por isso, grande parte das manifestações oriundas de um macho-alfa tomam expressão sexual. Daí a proeminência contundente de referências e implicações dessa ordem, em toda a sua prática e linguagem. Especialmente nas piadinhas. (Lembra-se de Brutus e o vestiário?) Tudo é uma questão de convencer que o seu tem alguns centímetros a mais que o da concorrência.

 

 

 

 

 

 

Um grupo de jovens machões – futuros déspotas esclarecidos – estaciona o carrão à beira-mar e abre o porta-malas, escancarando o som de cinco mil dólares. Usam a potência do áudio como metáfora para a agressividade – o indicativo pródigo de virilidade. Nesta trama, desrespeitar pessoas é imprescindível, para exprimir poder. Há dez mil anos, assaltariam a comida alheia, pilhariam suas habitações e ameaçariam sua prole, impressionando as fêmeas e reafirmando a dominação. É rigorosamente a mesma coisa. Assim, com o som alto, bem alto, emitindo alguma baixaria, cumprem o objetivo de irritar os seres humanos mais próximos e perturbar a vizinhança, violando território. E ai de se alguém relevar. “Ohhh, ele tá com peninha, tá com peninha…”. O espetáculo de balbúrdia é acompanhado de shorts rebaixados, quase mostrando os pelos púbicos. Mostrar ou quase mostrar os pelos púbicos é fundamental. Deste modo, declaram à sociedade aquilo de que são feitos, e a que se reduzem.

 

Os indivíduos em cena variam. As peças que vestem, os meios aplicados, as ferramentas variam. As formas de expressão variam. Mas os princípios e fins são os mesmos. É a mesma persona social. Como um mesmo ser, um mesmo espírito, disperso e vivo em inúmeros indivíduos, de todos os tempos e lugares. Da mais tenra infância à vida adulta, de jovens arruaceiros a imperadores e reis.

 

 

 

 

 

 

São os mesmos que adentram no espaço alheio como conquistadores invadindo terras. São os mesmos que perseguem e humilham implacavelmente colegas e subalternos. Os mesmos que avaliam sua existência pelo tamanho de suas posses. Os mesmos que medem o valor da humanidade segundo a extensão de seus domínios. Os mesmos que invadem países, exterminam culturas e subjugam nações. Os mesmos que instituem cartéis, máfias e impérios. Os mesmos que pensam que ser é igual a competir, agredir, impor. Agem para afirmar a outro ser humano, em todo momento, que são eles que estão no comando. Que são eles que detêm o poder.

 

 

 

 

 

 

Dos ultrajes, dos insultos, das zombarias, das provocações mais tácitas, à agressão, a violência, a destruição em massa. Vivem e morrem em estado de guerra. Disseminam dor e sofrimento. Miniaturas de Calígula, em todas as eras e lugares. Se pudéssemos abrir suas cabeças, radiografar seus espíritos, descobriríamos o déspota vil, ainda vivo, espreitando, clonado e disseminado por milhões de mentes e corpos mundo afora.

 

 

 

 

 

 

Não há mais nada no interior dessas carcaças. Além da massa de selvageria primal, encontraríamos um abismo, e se tentássemos mergulhar mais fundo, na fugaz esperança de uma luz no fim do túnel, encontraríamos o vácuo, e no vácuo um buraco negro, e nele afundaríamos infinitamente.

 

 

O espírito do macho-alfa é assim. Ele é raso. Ele é plano. Ele tem só duas dimensões. E a humanidade não pode contentar-se em ser rasa.

 

 

F.

 


6 comentários sobre “As aventuras de Brutus

  1. Oi Fe!
    Nossa, gostei muito do texto. Muito bem escrito =)
    Nunca vi uma pessoa assim na Unidade.
    Não gosto desse tipo de comportamento…aqui em casa já foi muito assim e fora de casa também, atraía meninos estilo brutus. Hoje continuo atraindo, mas não dou brecha para se aproximarem de mim.
    Vou compartilhar o texto, achei bem interessante😉

    beijos,
    Fe.

    • Oi Fe,

      Muito obrigado pelos elogios. Também fiquei satisfeito. Vou melhorando com o tempo. Agora preciso escrever o “memórias de infância”, e assim fecho os posts mais importantes desta primeira etapa.

      Que bom que conseguistes encontrar as pessoas e comportamentos com os quais te identificas e sentes bem. Às vezes a pessoa sofre mas “descobre” só mais tarde, tarde demais.

      Normal que os Brutus se aproximem, atraídos pela beleza. Mas os tipos mais refinados também reconhecem e são atraídos por ela, e não somente a exterior.

      beijos,
      Fer.

    • Que demais! Receber elogios do senhor GUILHERME KNOPAK, o maior conhecedor de literatura que conheço. (Talvez atrás do senhor Adriano; mas veja a diferença de idade… digamos, de 46 para 39 anos. [Hahahaha…]).

      Bem, após “memórias” eu poderia muito bem transcender e seguir para o próximo “plano”. Não seria demais? Mas bem, como não acontecerá, continuarei aqui, com meu blog. I’ll be back. Maior, melhor e mais sexy do que nunca.

  2. Nossa! Amei!
    Fê, como é legal conviver com pessoas como você. Seu texto me envolveu e encantou, parabéns! Me diverti absurdamente, como há tempos não acontecia (ao ler algo), obrigada por estes momentos!
    Você escreve muuuuuuito bem! As idéias e colocações são brilhantes!
    Um beijo no seu coração! Val.

  3. Facilmente um dos melhores textos que já li e jamais terei lido.

    Aliás, esse culto ao personalidade presente nos caras machistas, atrelado a falta de humildade – mas talvez esta também seja uma de suas características -, está presente na maioria dos homens. Daqueles que acham que as mulheres são depósito de *****. Acho que faço parte desses aí😦

    Abs.

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