Sobre “Memórias”

 

 

 

Memórias foi publicado. Publicado, enfim. Foi uma certa superação. Ah! Vou suspender provisoriamente a modéstia, e escolher o adjetivo apropriado: uma GRANDE superação. Eu não tinha o conhecimento teórico, a habilidade literária e a capacidade de autoanálise; e isso poucos meses atrás.



 

Na verdade, não conseguiria fazê-lo mesmo no início de homo sapiens. Em geral aprendo as coisas bem rápido, e, embora eu não tenha aprendido a escrever da noite pro dia, persiste que minha habilidade literária (que não passa de razoável) era apenas potencial. Havia a predisposição, o germe, o potencial latente, mas não a borboleta desabrochada, o conhecimento prático propriamente dito.

 


Assim, sem os experimentos anteriores, eu não teria conseguido escrever Memórias.

 


Além disso, nesses três meses vários pontos se ligaram na minha cabeça, em se tratando de ideias acerca do funcionamento da sociedade e da mente humana. Novamente, sem isso, nada de Memórias.

 


E reuni a disposição e a coragem para fazê-lo. Até mais cedo do que eu esperava, afinal.

 


Eu queria que Memórias fosse ambicioso. Agora entenderam a razão do “relativamente ambicioso”, quando me referi ao post de Brutus, em Interlude. Mas Memórias acabou sendo mais que um post extenso sobre a infância, envolvendo reflexões. Acabou sendo uma autoanálise densa associada a uma tese acerca da natureza humana. E várias teses menores, associadas à principal. Acabei escrevendo uma dissertação filosófica de autoanálise.

 


Me perguntaram por que eu omiti todos os dezenove anos seguintes. Dos oito aos 26. Por dois motivos bem simples.

 


Em primeiro lugar, minha tenra infância basta para compreender o cerne do meu Eu atual. Todo o resto são detalhes (importantes, é claro) derivados dela. Claro, há traços novos, mas com ela já temos o necessário para entender as aflições e minhas características fundamentais.

 


Em segundo lugar, porque se eu fizesse isso, teria de escrever um livro. E eu teria de manter a mesma densidade. Isto é, não apenas ficaria grande demais, como eu teria de ir até o limite da minha força vital para manter o mesmo grau de ambição teórica e densidade de significado.

 


Isso não é possível, por enquanto.

 


Mas penso, sim, em escrever um livro, este sim autobiográfico, contemplando toda a vida (até o momento da redação, obviamente). E nele aprofundar as reflexões e teses envolvendo prática e ontologia. Mas só mais tarde, mais tarde.

 


No mais, foi difícil, terrível e apaixonante escrever Memórias. Trabalhei pelo menos 200 horas nele. Quando havia terminado de escrever e editar o texto principal, na segunda-feira do dia 7 de março, ainda tinha de escolher e posicionar as imagens. Eu já sabia que escolher e posicionar as imagens era trabalho hercúleo, mas não fazia ideia do trabalho que isso daria considerando-se a exigência conceitual de Memórias. Cheguei a ficar duas horas procurando UMA imagem. E posicioná-las é também um trabalho de elaboração: se deslocas a imagem um, UM parágrafo sequer, o significado muda por completo.

 


O sentido das imagens está diretamente articulado ao texto. Com as imagens, o significado do texto acaba sendo um produto da relação entre as palavras e as fotos e ilustrações. Escolhes a imagem errada, e a ideia e o sentimento vão por água abaixo. Posicionas no local inapropriado, e ocorre o mesmo.

 


É uma verdadeira arte, escolher imagens conceituais e articulá-las a um texto. Trata-se, em simples termos, de gerar conceitos e imagens abstratas, ligadas ao espírito do leitor.




Então, fiquei umas 40 horas escolhendo e posicionando as imagens. (Tal é a razão deste post não ter imagens. Chega. Não quero fazer isso por um tempo…)

 


E reeditei os textos à medida que fui passando-os do Word para o WordPress. Especialmente o “Final”, que foi quase todo reescrito, expandido e depurado. (Embora tenha conservado todas as ideias presentes no original).

 


Além do trabalho bruto, é claro, houve toda a carga emotiva. Que já está bem e suficientemente expressa em Memórias, não sendo mais necessário tocar no assunto.


 


* * *

 

 

 

Uma rápida consideração. Em Memórias falo da necessidade de superar a “condição humana”, quando falo de nossa maldade intrínseca. Para, em “Final”, recusar tal superação, em prol de nosso “lado brilhante”.

 


(Lembre-se que superar a condição humana é superar inclusive tudo aquilo que sentimos, temos e imaginamos de bom. Pois se trata de suprimir a dualidade da mente humana. Como o Andarilho Cósmico, caminhando sobre o Universo Homem…)

 


Sim, resolvi correr o risco. Pelo simples motivo que superar a condição humana, nas condições atuais, implicaria o suicídio. Ou cinquenta anos de vida reclusa, buscando um estado crônico de meditação perpétua. Mas não estou disposto a nenhum dos dois.

 


Eu entendo que é preciso, em última instância, superar a condição humana, mas escolhi buscar seu lado brilhante, dentro de minhas e nossas possibilidades reais.

 


Em parte não somente pelo desejo de continuar a ser e fazer aquelas coisas tão caras – o que é aliás natural, já que ainda sou jovem. É, sim, tive o fardo de descobrir essas coisas cedo demais.

 


Mas também por ceticismo. Para mim, superarmos de fato a incompletude do Homem é algo como cruzar a Via Láctea a pé. Considero impossível. Nossa própria constituição biológica teria de ser radicalmente mudada; talvez até mesmo suprimida. Coisa da mais maluca ficção científica. E a probabilidade da mera sobrevivência física no longo prazo é extremamente baixa, pelas mais diversas razões. (Benditos meteoros!)

 


Assim, termino Memórias falando em dar o melhor; em dedicar-se à tentativa de gerar e conservar ao máximo o lado brilhante desta coisa maluca chamada humanidade. Pelo maior tempo possível. Falo em suprimir ao máximo o lado obscuro, dentro dos limites de nossas possibilidades. É a minha escolha.

 


E por isso, aliás, fiz este post

 

 

 

* * *

 

 

 

Por fim, com Memórias e os posts publicados até aqui percebo que cumpri todos os objetivos delineados no início de homo sapiens. Está tudo registrado lá, no primeiro post. Também achava que demoraria mais tempo! Talvez anos. Acabei me dedicando mais do que esperava (graaaaande novidade…). Novamente, cheguei ao ponto de chegada antes de partir. Embora desta vez tenha conseguido percorrer todo o percurso.

 


Continuarei, sim, a empreitada. Desenvolver mais os conceitos e explorar mais os temas já explorados, além de explorar novos. A vida segue; entramos em um novo ciclo, afinal.

 


Mas tirarei umas “férias”. É preciso distanciar-se um pouco, dar um tempo. Ando meio enjoado desta tela, deste teclado, desta toca. Quero fazer algumas outras coisas. Mas espero encontrar minha meia-dúzia de fiéis leitores (espero que sejam leitoras), quando voltar.

 


Bem, até lá!

 


F.


 


4 comentários sobre “Sobre “Memórias”

    • Pôoooooooooooooo, vc leu meu post antes deu editá-lo!!! Sempre edito umas três vezes. Botei em “pending”, pra o post sumir até eu publicá-lo novamente, mas conseguistes pegá-lo antes de eu acionar a opção.

      O conteúdo era o mesmo.

      Mas me pegastes com o post todo feioso e mal formatado! O WordPress destrói a formatação na primeira publicação!

      Que gafe.

      Meu blog tem de ser sempre todo lindão…

      hahahaha…

      F.

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