Uma palavra antes de “Sobre Memórias”

 

 

 

O post a seguir é um post sobre um post. Falarei um pouco sobre Memórias. Mas antes farei algumas considerações triviais (ou nem tanto) sobre o dia de hoje. Ora! É justificável! O contexto que envolve nossa ação a influencia. Bela desculpa, não? Embora a proposição em si mesma seja verdadeira…

 


O dia de hoje foi meio catastrófico, mas houve alguns elementos aproveitáveis. Tem de se esforçar, mas houve. Bem, começaram as aulas do doutorado. O que não é algo bom. Claro, seria, se fosse em Stanford. Neste caso não apenas bom; seria simplesmente demais. Mas o fato é que me sinto como o Zidane obrigado a jogar futebol no Araras Esporte Clube. Ok, Ok, Zidane é demais; em Memórias falo tanto de “controle do ego” e emito um absurdo desses… Mas o Benzema ou o Adebayor, vai.

 


Se eu investisse as 180 horas de aulas pela frente em estudos próprios, pelo menos leria, ficharia e sistematizaria o The Conduct of Inquiry, o Regras do Método e A Sociedade dos Indivíduos. E ainda leria o Tratado de Yôga. E minhas células oxidariam bem menos.

 


A primeira coisa aproveitável é que descobri um autor (perdão) do caralho. O Georg Simmel. Um alemão judeu. Eu só ouvira falar dele na graduação. Eu o considerava um Weber wannabe. Mas ele é realmente interessante. E eu só o descobri porque a aula era sobre ele. Eu estava entediado e melancólico, mas resolvi (ou consegui) concentrar-me, especialmente quando a professora pronunciou a palavra “Mônada”.

 


(Môôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôônada…)



Escutei mais uns 20 minutos, e daí abriu-se uma luz no teto e ocorreu-me uma daquelas iluminações profundas. Consegui sacar os princípios da obra do Simmel (e sem tocar qualquer um de seus livros!). Percebi que toda a sua obra deriva de uma epistemologia fundamental, e esta de uma visão ontológica. E no cerne desta visão, voilà!, Mônada.

 


Ele parte de um foco geral, fragmentado em temas distintos. Trata dos temas mais diversos, de dinheiro à moda. Da moldura dos quadros ao sistema da oferta e da procura. Mas tudo partindo desse foco.

 


Saquei. O intelectual deutsch imaginou uma espécie de “unidade”, um tipo de “espírito”, um princípio gerador universal, do qual emanaria todaqualquer manifestação humana. Essa “unidade” é a necessidade humana de produzir sentido à vida. Necessidade cultural! Necessidade espiritual! É a tal “incompletude humana”, a que me referi em Memórias. Este imenso vácuo a ser preenchido com símbolos, palavras, valores e emoções.




Havendo, portanto, uma unidade geradora, tudo derivaria dela; ou melhor, seriam manifestações específicas dela. Daí a ideia de Mônada. Um tipo de entidade latente, que em tudo estaria e tudo geraria, da qual tudo não passaria de uma fragmentação específica. Assim, as coisas se dividiriam a partir do princípio gerador fundamental e continuariam a se diferenciar e fragmentar, relacionando-se e gerando coisas novas, mas sempre conservando o “germe” do princípio monádico.

 


Por isso Simmel estuda coisas tão diversas. Porque assim procedendo não está fazendo nada mais que emular em sua pesquisa e teoria os próprios princípios do espírito humano. Se o bicho homem é x, então todo o meu estudo também será x. E com a bendita ideia de Mônada no cerne de tudo isso.

 


Legal, não? Então fiquei bem entusiasmado na aula. Ciclo de cinco segundos melancólico, daí vinte entusiasmado. E assim sucessivamente. Agora tenho algo aproveitável pra ler! Quinze por cento da disciplina será útil. Embora esteja certo de que o resto poderia ser muito bem substituído por tardes vendo jogos do Real Madrid. (Que otimista. Do Barça, na melhor das hipóteses.)

 


A segunda coisa aproveitável, embora insignificante, é que, estimulado pelas sacadas da aula, descobri que um dos prédios que ficam perto da Reitoria da UFPR foi inspirado no prédio do Congresso Nacional. O mesmo formato. É claro, cristalino como água mineral. O arquiteto inspirou-se na obra do Oscar Niemeyer, modernista ferrenho. Mas como não é Niemeyer, fez seu próprio Congresso Nacional, só que na Ubaldino do Amaral. E talvez tudo isso inconscientemente. A imagem do Congresso pode ter ficado marcada em seu inconsciente, produzindo estímulos psíquicos tácitos, até que, confrontado com as condições propícias, desenhou um prédio à la Niemeyer.

 


Esta descoberta então enfim desencadeou o estado de hiperestímulo e hiper-sensibilidade mental, e comecei a ficar a mil. Fazia um tempo que isso não ocorria. Então descobri uma fórmula teórica para fazer a Sociologia dialogar com a Neurologia, resolvendo o célebre (e tolo) dilema do indivíduo versus sociedade. Algumas lágrimas se formaram nos meus olhos e tive de abortar alguns gritos de satisfação (eureeeeeeeeeeeeka!!!); ainda bem que estava de óculos. Mas não falarei disso aqui. Colarei uma folha com a ideia na parede da frente, para desenvolver quando (e se) tiver 40 anos.

 


Comecei a reparar demais nas pessoas, o que desencadeou ansiedade, e com ela a percepção de alguns problemas, e com isso resgatei a melancolia. Então, era hora de tirar o fio da tomada. Joguei isso pro lado; mas resolvi entrar na toca e postar logo “Sobre Memórias”, algo que faria só no final de semana.

 

 


* * *

 

 

 

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