Três coisas aparentemente banais que não obstante valem um (bom) post

 

 

 

Estou com preguiça de escrever “A Lua”. Escrever não é fácil. Duvido que algum escritor realmente sinta prazer em fazer isso. Ele pode gostar, mas prazer, nem. Digo, até pode haver prazer, mas é um prazer masoquista, fundado em suor e lágrimas. É, estejamos certos que todo escritor é um masoquista frustrado. (Ainda bem que não sou um deles.)

 

 

Percebi que está mais difícil postar em homo sapiens porque, pra variar, o transformei numa empreitada obsessiva. Infraconscientemente passei a esperar posts mais longos e ambiciosos. Virou obrigação escrever à beça e com densidade. Isto é: eu próprio torno cada vez mais difícil minha missão de reunir meia-dúzia de leitores. (Espero que sejam leitoras.) Obrigo-os a estressar o cérebro toda vez que digitam no browser ágá-tê-tê-pê-dois pontos-barra-barra-zeocit-ponto-wordpress-ponto-com. (Ilustre endereço da toca zeocitiniana.) Assim sendo, 1) me estresso mais; 2) estresso mais o leitor. Isto é, o resultado do meu estresse é mais estresse – e menos leitores.

 

 

Que demais!

 

 

Bem, eu preciso postar mais. O ritmo de posts mais densos está bom; maior que no início, até. Mas não é preciso ser pedante pra fazer bons posts; tenho imagens legais e coisas legais que provavelmente interessam o leitor assíduo. Isto é: você.

 

 

 

 

 

 

Sexta-feira, dia 17 de junho, foi um dia intenso. Mas como este não é um post intenso (eu espero), vou falar sucintamente (eu espero) de três coisas.

 

 

As duas primeiras envolvem uma rápida visita à minha segunda casa, a Universidade Federal do Paraná. É, já andei tanto por aqueles corredores, povoei tanto aquelas salas e subi tanto naqueles elevadores que meus espectros devem divagar pelas arestas de cada sala, pelas cristas e pelos ladrilhos feiosos das paredes. Provavelmente, sem saber, já assimilei o prédio da Reitoria da UFPR, e ele já me assimilou. Enfim, se existir metafísica, meu ente transcendental atormentará muitos das gerações futuras. (Juro que cutucarei o dedão dos pós-modernos.)

 

 

Elevadores? Os míticos elevadores da Reitoria. Eles fazem parte do lugar; define-o, dá o seu charme. Mas são terríveis. São feios, madeirescos, lerdos, instáveis e desconfortáveis. Não sei por que a gente alimenta essa nostalgia por eles. Como uma máquina de escrever velha e problemática, que não obstante rodeia-se de um charme saudosista que nos encanta e ludibria, impedindo que a joguemos fora. Como as suas lembrancinhas inúteis em seus armários e prateleiras. Como algumas de nossas lembranças melancólicas, que continuamos recordando e cultivando por se referirem a momentos marcantes da vida. Racionalmente, é preciso abandoná-los e caminhar em direção ao futuro. No caso dos elevadores, substituir a madeira por ALUMÍNIO ou AÇO INOXIDÁVEL; teclas sensíveis ao toque; telas de cristal líquido nos cantos do teto mostrando a previsão do tempo; piso de granito ou porcelanato e etc. Que Mônada me ouça. Enfim. Nossos mitológicos elevadores estão em manutenção. Bem, eles SEMPRE estiveram em manutenção – como toda a Reitoria da UFPR, que está eternamente em obras, sendo reformada desde sempre, mas sem nada mudar, continuando como sempre foi e como sempre será. (Eles devem contratar os operários pra andarem pra lá e pra cá, carregando entulhos, só pra fazer propaganda barata. Ou desviar dinheiro. É, boto fé, deve ser isso.)

 

 

Mas desta vez a parada está foidcha, mano. Eles realmente botaram pra quebrar. TRÊS dos cinco elevadores estão interditados. Parada séria, tipo, não manutenção de rotina, eles estão INTERDITADOS mesmo. Agora, melhor que as filas históricas e a superlotação incomum da pobre dupla de valentes elevadores funcionais (espero que seus cabos e engrenagens não protestem em queda livre), são as placas e avisos anexados ou encostados aos três irmãos enfermos. Saquem só.

 

 

 

PERIGO: elevadores da Federal

 

 

 

conforto e segurança...

 

 

 

...mas nem tanto

 

 

 

nossos queridos elevadores. e que mônada nos ajude

 

 

Simplesmente DEMAIS, não?!?

 

Ah, sim. E vejam o tipo de cartaz que encontramos nas paredes ao lado dos elevadores:

 

 

 

 

 

Simplesmente DEMAIS, não?

 

 

Ah, a Reitoria faz parte de mim, e eu faço parte da Reitoria. (Mas, por favor, que Mônada não apronte com os elevadores. Quando eu estiver dentro deles.) [Não que eu deseje que o faça com outros; é que temo que só o faria em minha presença.]

 

 

* * *

 

 

A segunda coisa ocorreu dentro da sala da secretaria da pós-graduação de Ciência Política. Esqueci de mencionar que a razão de minha visita à Reitoria era receber o cheque referente ao meu trabalho de revisão, e me apossar da grana associada a ele. Mas eu precisava imprimir o recibo e assinar meu nome nele, para então receber a grana. Mas tchê, como o Estado prefere pagar 21 mil pratas aos deputados e senadores e o resto dos petralhas que povoam nossa oligarquia, digo, democracia, a me pagar 20 reais a hora, decorre que não tenho uma impressora. (Embora confesse que provavelmente usaria os 20 reais-hora para comprar roupas. Ou sapatos. Ou livros. Ou Playstation 3.) [Veja-se que intelectual imprestável eu sou; colocando sapatos e roupas à frente dos livros.] Então, meu querido orientador forneceu-me a chave da secretaria para usar o micro e a impressora do querido secretário para imprimir meu recibo e apossar-me assim do cheque com meu suado dinheirinho. Enquanto eu estava fazendo isso, normalmente acometido por minha índole observadora-contemplativa, fitei o ambiente com um raio-x e, pousado sobre a mesa ao meu lado direito, encontrei algo espetacular. Uma relíquia. Uma peça de museu. Uma pérola que me remeteu ao início dos meus 26 anos de vida!

 

 

DISQUETES NIPPONIC DE CINCO POLEGADAS! OS DISQUETÕES-BOLACHA! UAAAAAAAAA!!!

 

 

 

 

 

 

Relíquias neeeeeerds! Saquem só essa caixinha! Os quadradinhos estilo anos 80! O tosquíssimo efeito 3D, como que dizendo assim: EU SOU TECNOLÓGICO. EU SOU MAGNÉTICO. EU SOU MICROELETRÔNICA. EU SOU O MONOLITO NEGRO. EU SOU…

 

 

Parece coisa saída de Tron! Tetris! Aqueles joguinhos tosquíssimos de Atari! River Raid! Space Invaders! Star Fox! Subcultura cyberpunk! Anos 80! Primórdios da cultura nerds! Dos caixotes pretos e seus quadrados ambulantes! Do Sheldon, sua trupe, e todas as longas horas imersos nos mundos eletrônicos deste mundo pós-moderno!

 

 

 

 

 

 

Orgulhosamente ostentando sua incrível e definitiva capacidade. A foto está ruim (terrível), mas com atenção vê-se o anúncio do incrível volume de 500 kilobytes. Tipo, quinhentos kás. E isso “unformated”. Mas, saca, pra usar o dito-cujo, é preciso formatar. É a formatação que efetivamente torna o disco magnético utilizável, pois o divide em pequenos bloquinhos nos quais são gravados os dados. E “formated” o espaço real do disquete de cinco polegadas comprime-se a 380 kilobytes. Mas, saca, é tão pouco (até praquela época, diga-se de passagem) que eles colocam o espaço virtual. Saca. É como eu colocar o valor do meu salário bruto em cima do meu salário líquido – uma miséria – como que pra dizer assim:

 

 

– VEJA BEM! EU GANHO 1 800 CONTOS, MAS NA VERDADE SÃO 2 400! SE NÃO FOSSE A DILMA, SERIAM DOIS MIL E QUATROCENTOS! ACREDITE, ACREDITE EM MIM…

 

 

Tipo. Trezentos e oitenta kilobytes. As imagens que eu inseri neste post têm entre quatrocentos e oitocentos. Quer dizer, nenhuma delas caberia num disquete desses. Demais, não?

 

 

E os caras ainda colocam o tamanho virtual ANTES do real. Meu Kubrick, que recalque informático absurdo. Mas enfim. Eles são adoráveis mesmo assim. (Me pulsou no inconsciente agora que talvez eu esteja mistificando os disquetões da mesma maneira que alguns mistificam máquinas de escrever. Mas não pensarei nisso. Permitam-me cultivar minha nostalgia nerds em paz.)

 

 

Agora vejamos o bolachão propriamente dito. Primeiramente de costas, pois nosso disquete é misterioso:

 

 

 

I'm too sexy, baby

 

 

Agora de frente:

 

 

I'm too sexy for my shirt, too sexy for my shirt, too sexy for...

 

 

 

Agora suas inscrições identitárias:

 

 

 

atenção especial ao "ERROR FREE". estes disquetes davam pau pra c******

 

 

 

Uaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa! Disquetões-bolacha de cinco polegadaaas!

 

 

* * *

 

 

Por fim, uma árvore. Há um filhote de bordo aqui do lado de casa, ali na esquina. Dá pra ver da janela. Talvez ela não seja mais uma filhote; calculo uns cinco metros de altura. Crescidinha, até. Mas os bordos atingem uns quinze, não? Ou vinte. Mais acurado “criança”, então. Batizei-a de Lucy.

 

 

O outono chega ao fim e a maioria das árvores temperadas já estão sem folhas ou em vias de está-lo. Muitas destas perdem volumes significativos de sua copa sem mudar satisfatoriamente de coloração. Assim, quando finalmente mudam de tonalidade, já não há mais tantas folhas. Mas a minha bordinha não só ainda retém a maioria das suas, mas tingidas de vermelho. Está frondejante, carregada de folhas em tom carmesim. Ela demora a aceitar a presença do outono, consequentemente resistindo a colorir de vermelho a sua copa; mas quando o faz, faz por completo, como se resistisse às demandas do tempo só para mudar de estado majestosamente. É uma árvore orgulhosa e exigente. Não irá acolher o inverno sem antes demonstrar toda a sua exuberância.

 

 

Lucy merece, portanto, ser registrada. Não satisfeito com o registro, pensei que merece algo mais, isto é, a apreciação coletiva. Então, resolvi postá-la em homo sapiens. Cá está ela.

 

 

 

lucy, o bordo carmesim

 

 

 

erguendo-se e distinguindo-se na paisagem

 

 

 

o contraste entre o vermelho e o azul me fascina. assim, o outono me fascina

 

 

 

lucy, em seu esplendor

 

 

 

Que maravilha. Lucy em sua infância, preparando-se para entrar na puberdade. Tornar-se-á uma moça, uma jovem belíssima, que abrilhantará o Juvevê por décadas afins. E eu cá estarei para contemplá-la, a cada outono, a cada primavera. Do verde ao vermelho; contrastando com o céu azul e alegrando o acinzentado dos dias chuvosos. Eu a conheço desde o nascimento, nos idos de 2005, quando era um arbusto de cinquenta centímetros. Torci para que crescesse saudável, pois sabia de todo o seu potencial. A cada caminhada em direção à padaria, quando morava naquele antigo apartamento, a duas quadras dali. Quando me mudei para minha toca atual, fiquei imediatamente feliz em saber que residiria logo ao lado de Lucy. Ter um bordo ao lado de casa foi um fator de atração. Vê-la é um privilégio, especialmente por residir numa região subtropical. Lucy é nativa do clima temperado. É um privilégio tê-la aqui.

 

 

Somente um detalhe me incomoda. Lucy merecia ser registrada por lentes melhores. Mas isto não posso resolver. Não com minhas rendas atuais. Ano que vem, talvez? Basta que nossa amiga mantenha sua exuberância. O que certamente o fará. O outono despede-se majestosamente. Foi um bom outono. Espero ter muitos outonos pela frente. Até o próximo.

 

 

F.

 

 

P.S.: Pra variar, escrevi demais novamente. Três horas elaborando o post.

 

 

 

5 comentários sobre “Três coisas aparentemente banais que não obstante valem um (bom) post

  1. Oi Fernando! Realmente é complicado manter um blog rs Eu criei um mas desisti dele faz tempo. O duro é que nós leitores que acompanhamos sempre queremos novidades.
    Só na reitoria mesmo para encontrar esses disquetes rs
    Ah, linda mesmo sua Lucy.
    Beijos

    • É. Ainda não sei donde eu tirei forças pra manter homo sapiens, hehe. É doloroso à beça manter um blog. Mas me satisfaz. Me esforçarei pra atualizá-lo mais e apetecer à meia-dúzia de leitores, hehe. E sim, Lucy é majestosa. Beijos.

  2. Você sabe explicar por que, nessa semana de transição entre outono e inverno no hemisfério sul, voltou a fazer calor? Claro, não falo daquele calor intragável de 40 graus, mas sim do tempo com sol e algumas nuvens, beirando os 30 graus – que deveria predominar, teoricamente, na primavera…

    • Porque estamos numa região subtropical. Nosso outono-inverno não são estações frias – são estações de invasão esporádica de ar frio. Períodos de frio (invasão polar), não situação de frio (presença constante ou quase de ar polar). Nossa latitude é baixa. As estações em clima subtropical não são bem definidas. É um clima de transição entre o tropical e o temperado. A própria definição das quatro estações refere-se ao clima temperado. Não faz sentido falar em “inverno” ou “verão” dentro da zona tropical. Fala-se nisso porque os países centrais têm clima temperado, assim, a economia e a cultura ronda seus referenciais. Agrava-se o fato de o Brasil ser um país medíocre, recalcado e dependente. Então, um sujeito em Salvador fala em “inverno”, quando na verdade esse termo refere-se a qualquer coisa, menos aos elementos climáticos e meteorológicos associados ao inverno. É como eu falar em “samba” referindo-me a danças tradicionais japonesas. Só a palavra é a mesma. Então, estamos importando coisas que não são nossas. Vc não pode tomar outras realidades como a nossa própria. Não estamos em Londres, Nova York ou Tokyo. Assim, o clima só se torna temperado, e assim as estações só se distinguem e se definem decisivamente a partir da latitude 35. Mesmo nesta ainda há veranicos ocasionais – bloqueios atmosféricos que desviam as invasões de ar de origem polar. É absolutamente normal, portanto, esses períodos de calor no nosso outono-inverno. E essa divisão, aqui, é puramente nominal. Na prática, maio e junho já fazem parte do que se chama de “inverno climático”. O nosso inverno vai de maio a agosto. Fora isso, há um curto período de transição em abril e em setembro-outubro. Da mesma forma, nosos verão é caracterizado em uns 4 a 5 meses do ano. Latitude baixa é assim mesmo.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s