A verdade sobre a expressão “minha meia dúzia de leitores”

 

 

 

Preciso confessar algo muito importante à minha meia dúzia de queridos leitores. (Espero que sejam leitoras.)

 

 

A expressão “minha meia dúzia de leitores” não é de minha autoria. Copiei peguei emprestado de um jornalista e escritor responsável pela coluna “Crônica da Cidade”, do jornal Correio Braziliense, entre 2000 e 2002. Gostava de ler suas crônicas; eram uma espécie de surto de lucidez em meio à autobajulação ufanista que soterra(va) a Capital Federal. Era minha época de piá rebelde, e, por alguma razão, em vez de filiar-me a algum partido de esquerda, elaborando aquela retórica de rebelde virtuoso (para então explorá-la para tascar fêmeas), ou de montar uma banda (para então fazer o mesmo), resolvi ser um rebelde virtuoso trancafiado. Lembremo-nos que o jovem rebelde virtuoso, em sua megalomania narcisista irresponsável, precisa preocupar-se com coisas grandes e importantes, como salvar ou destruir o mundo, em vez de ajudar pessoas. Assim, investia minhas tardes “pesquisando” as misérias que afligiam este Brasil.

 

 

(Talvez tenha ido longe demais, não? Esquecia-me dos botecos e dos falsos poetas.)

 

 

O Correio Braziliense era minha principal fonte – o conteúdo que eu buscava jorrava em abundância ali. E foi então que tive contato com nosso cronista, cujo estilo imprimiu em minhas memórias a tal expressão das dúzias de leitores. Mas não se trata de uma cópia cem por cento. Se bem lembro, se não estou enganado (e acho que não estou), nosso cronista dizia “minhas duas dúzias de leitores”. Isto é, bem mais otimista que eu. Não me lembro se foi conscientemente que diminuí o número dos MEUS possíveis leitores numa razão de quatro. De uma forma ou de outra, “meia dúzia” é de longe bem mais adequado pra mim, visto que nosso cronista escrevia num jornal de circulação nacional, o que torna seu emprego da expressão um artifício puramente retórico. Uma “psicologia inversa”, para multiplicar seus leitores enquanto lamentava de impopularidade.

 

 

(Pensando bem, é possível que eu esteja fazendo o mesmo; às vezes penso que sim, às vezes sinceramente não. Provavelmente não. Afinal, nossas condições diferem substancialmente, a começar por minha publicidade de 109 amigos – bem entendido, os da minha conta no facebook. Mas confesso cogitar usar a expressão como uma artimanha para fazer o mesmo. Isto é, se já não estiver fazendo-o. Embora acredite que não. Talvez.)

 

 

...espero que sejam leitoras

 

 

Mas o verdadeiro objetivo deste post não é confessar a verdade sobre a expressão, embora tenha acabado de fazê-lo. Em princípio seria, se as coisas não tivessem evoluído como evoluíram. Ora: o leitor virtual já percebeu que eu não mencionei em nenhum momento o nome do cronista o qual usurpei.

 

 

Pensei que confessar a verdade sobre a expressão faria um post interessante. Talvez não interessante, mas um post – e todos sabem como é importante manter um blog atualizado, especialmente quando ele é composto por meia dúzia de leitores. Então, comecei a elaborar minha confissão. Foi quando travei na seguinte sentença: “Pequei emprestado de… de… de…” De quem? Quem era, mesmo? “Putz, esqueci o nome do sujeito”. Esqueci o proprietário do termo! (Pressupondo que ele também não copiou emprestou de alguém.) Como posso escrever sobre alguém sem conhecer sua identidade? É como buscar um ponto no espaço tridimencional sem as devidas coordenadas cartesianas. (E Descartes é bom, ao contrário do que julgam os picaretas rizomáticos pós-modernos.) Obrigado a virar bruscamente o leme, meu infortúnio foi agravado pela necessidade obrigatória de ir ao mercado.

 

 

(Coisas do mundo da vida. Os intelectuais gostam de imaginar que há éter em seus corpos e tomar neurônios por substância anímica. Um baita ego. Que seria do idealismo se fossem instaladas câmeras em seus banheiros?)

 

 

cogito, ergo sum

 

 

Enfim, teria de sair de casa pensando em uma justificativa minimamente aceitável para o esquecimento do AUTOR. Centésimos depois de desligar aborrecido o monitor e milésimos depois de levantar-me do acento, começaram a elaborar-se os contornos da minha justificativa. E, por ironia, comecei a ficar satisfeito com ela. Eu não precisava do nome, afinal. Falaria sobre seu esquecimento ao revelar toda a verdade, fazendo um post mais interessante. (Eu espero.) Sim. Era isso. A luz voltou a refletir na superfície da lua e fiquei imediatamente feliz. Mas então minha memória conspirou contra mim e assaltou-me com o nome do dito-cujo, do AUTOR, no preciso momento em que eu abria e saía pelo portão. “Mané. Mané. Mané. Seu mané! Você lembrou do nome! Jogou no lixo uma boa possibilidade de reflexão inútil que, não obstante, arrancaria alguns risos!”. E o leitor sabe que entre minha meia dúzia de funções no mundo, a principal é arrancar alguns risos da minha meia dúzia de leitores. Os astros só haviam pregado uma peça, e a luz logo me abandonou, lançando-me novamente nas trevas. Uma lua sem reflexo é uma lua que não existe. Logo, isso me deixou um pouco taciturno. Fiquei assim durante a caminhada ao mercado. Mas logo entendi o óbvio: é claro! Para recuperar o gancho, bastava escrever sobre como me lembrei do nome. Tendo assim, por implicação lógica, de escrever sobre seu esquecimento. E no processo apresentando a verdade sobre a expressão da minha meia dúzia de leitores. De uma forma, estaria pregando uma peça nos leitores e, ao mesmo tempo, aplicando a técnica do nosso querido cronista. O que acabei de fazer. E cá estamos.

 

 

Me desculpem! Me desculpem! É que pareceu um post interessante. Ou um post, pelo menos. Talvez ele duplique minha meia dúzia para uma dúzia. Estaria bom já.

 

 

Por hoje é só. Até mais.

 

 

F.

 

 

(P.S.: Ah, sim. Quase me esqueço. O nome do nosso cronista é Roberto Menezes.)

 

 

 

2 comentários sobre “A verdade sobre a expressão “minha meia dúzia de leitores”

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