Proverbial e elementar. Algumas notas cartesianas

 
 
O senso comum é um artefato social e psiquicamente importante. Fornece-nos uma sabedoria prática acumulada e transmitida com o passar do tempo, sem a qual a vida se tornaria desnecessariamente complicada, provavelmente impossível. Há muito conhecimento – e, eu diria, os igualmente proverbiais “sangue, suor e lágrimas” – embutido numa máxima aparentemente tão simples como “onde há fumaça, há fogo” ou “as coisas não são o que parecem”. Sim, o senso comum é o maior dos sábios; é um sábio coletivo, composto por milhares de indivíduos dos tempos e locais mais remotos. Devemos ouvir atentamente o que ele tem a dizer.
 
 
A peculiar confiabilidade da sabedoria proverbial deriva de sua magnitude. Ela torna o senso comum resistente às tentativas individuais de reformulá-lo, protegendo-o das idiossincrasias que poderiam contaminá-lo com os equívocos e preciosismos de uma mente egoísta. Não posso mudar o senso comum porque não concordo com ele. O que é ótimo, pois assim só se incorporam os conhecimentos testados por muitos – e portanto úteis à maioria. Essa inércia faz o senso comum resistente aos caprichos individuais, tornando-o mais confiável coletivamente. Ela seleciona as experiências sistematicamente testadas, extraindo da prática somente a sabedoria mais segura. Sem essa inércia, o senso comum sucumbiria com preceitos inócuos e insignificantes – e, com ele, sucumbiria o indivíduo, tendo de sistematicamente redescobrir a roda; e com o indivíduo, sucumbiria toda a sociedade. Senso comum é memória. É bem coletivo; conhecimento socialmente disseminado.
 
 
Mas todo sábio é humano, e todo humano é falho. O senso comum também erra. E, quando erra, sua inércia afigura-se uma faca de dois gumes: a mesma resistência que inibe a contaminação por equívocos individuais, também obstrui a retificação daqueles equívocos que passaram pela peneira. O que o torna geralmente confiável acaba tornando-o particularmente idiota, quando enfim erra. E, quando enfim erra, torna-se o mais imbecil dos teimosos – um teimoso tomado por um conservantismo com o peso dos séculos.
 
 
O principal risco do senso comum reside em sua tendência de simplificar as coisas. A simplificação é um processo cognitivo importante, por tornar o conhecimento das coisas mais imediatamente apreensível. É um atalho que ressalta o fundamental, ignorando os detalhes. Mas às vezes toma-se por detalhe algo fundamental e vice-versa. Quando isso ocorre, a simplificação exclui o essencial, falsificando o conhecimento. E ocorre tanto mais quanto mais complexo é o objeto. E há poucas coisas mais complexas que o pensamento de um grande pensador.
 
 
 

arte: brighid lowe


 
 

Descartes é um desses injustiçados. As palavras cartesiano e cartesianismo fazem parte da linguagem do senso comum. A maioria dos indivíduos instruídos tem certa ideia do sentido de “cartesiano”. A palavra suscita uma série de imagens mentais de conteúdo pejorativo, como “reto”, “quadrado”, “duro” e “inflexível”. Não obstante, tão apropriado e reapropriado, contorcido e retorcido, o pensamento de Descartes foi perturbado e ajustado às necessidades políticas, sociais e intelectuais do presente. Assim, Descartes – e seu pensamento “cartesiano” – acabou vulgarizando-se no senso comum, reduzido a atributos depreciativos que pouco esclarecem o conteúdo de suas ideias.

 
 

Não é possível desfazer toda essa trama de reduções e mal entendidos. Descartes é um objeto do senso comum, e a associação entre “cartesiano” e coisa ruim já é quase tão proverbial quanto “não coloque o carro à frente dos bois”. Se queres falar mal de um grande pensador com risco mínimo de objeção, aposte em Descartes. Muito bem. Mas nós podemos ir um pouco além. Podemos inverter as coisas e ver justamente o que de proverbial há em Descartes. Ou melhor: o que há de Descartes na sabedoria e no conhecimento tão úteis de hoje. Coisas práticas, essas coisas que esclarecem. Descobriremos o que tanto há de cartesiano em nós, e em preceitos que inconscientemente seguimos ou deveríamos seguir. Garanto que uma leitura atenta de seus escritos iluminam os subterrâneos mais profundos.

 
 

* * *

 
 
A primeira página do “Discurso sobre o método” já fornece sentenças que merecem uma nota na cabeceira das nossas camas, dignas de consulta diária antes de dormir ou ao acordar. O que constitui a inteligência? Donde provém a diversidade das opiniões e dos pontos de vista? Como evitar as armadilhas e os fetiches das ideias? Comecemos com as opiniões e as polêmicas.
 
 
“Eu sei como estamos sujeitos à ilusão no que se relaciona a nós mesmos, e também quanto aos julgamentos de nossos amigos, eles são suspeitos quando dados a nosso favor. […] A diversidade de nossas opiniões não surge de alguns serem dotados de uma parte maior de razão que outros, mas somente disto, que administramos nossos pensamentos por modos diferentes, e não fixamos nossa atenção nos mesmos objetos”.
 
 
Sim, poucos são os problemas reais. Poucos são os problemas que efetivamente questionam coisas diferentes, em vez de polemizar em torno de usos distintos das mesmas palavras; ou em torno das mesmas palavras, aplicadas a coisas diferentes. A maior parte das polêmicas é pura confusão. Um fala de uma coisa, o outro de outra; um entende uma coisa, o outro, outra. Como se nos comunicássemos com línguas diferentes, dentro de nossa língua comum. Descartes prossegue:
 
 
“Possuir uma mente vigorosa não é o bastante; o requisito principal é justamente aplicá-la. As maiores mentes, como são capazes das excelências mais altas, estão igualmente abertas às maiores aberrações; e os que andam muito lentamente ainda podem fazer maior progresso, contanto que sempre se mantenham na estrada direta do que aqueles que, enquanto correm, a abandonam”.
 
 
Foco supera dispersão. Melhor ler e fichar atentamente um texto do que ler dez deles. Melhor estudar um bom texto do que dez razoáveis. E isso para qualquer coisa. O menos, elaborado, é mais do que muito em abundância. Algo assim elementar é cartesiano?
 
 
Também o é a ideia de que a inteligência não é uma propriedade inata, ou necessariamente inata, mas algo que pode ser ampliado por meio da ação deliberada. Descartes fala em aprender a ser inteligente; em ampliar a inteligência mediante a adoção e aplicação sistemática, rigorosa e disciplinada de um método de conduta:
 
 
“Formei um método que me dá os meios, como penso, de aumentar meu conhecimento gradualmente, e de elevá-lo pouco a pouco mais alto que a mediocridade de meus talentos e a duração breve de minha vida me permitiria alcançar.”
 
 
O conhecimento também não é necessariamente erudito, rebuscado ou idealista. Ele pode ser prático – e, sendo prático, pode ser mesmo mais verdadeiro.
 
 
“Pois aconteceu que acharia muito mais verdade nos raciocínios de cada indivíduo com referência aos negócios nos quais ele está pessoalmente interessado, e cujo desfecho presentemente o punirá se ele julgou mal, que nos dirigidos por um homem de letras no seu gabinete, relativo a assuntos especulativos que não têm nenhuma importância prática, e seguidos por nenhuma consequência pessoal além, talvez, das que nutrem sua vaidade tanto melhor quanto mais distantes do bom senso”.
 
 
Todos conhecem o dito “a teoria, na prática, é outra”. Refere-se a uma praga do campo acadêmico chamada intelectualismo, que consiste em confundir a realidade com as ideias que o intelectual faz dela. É uma espécie de fetiche pelas ideias, um fetiche em pensar; pensar por pensar, pensar para polemizar, e nada mais. A realidade como um pretexto para o jogo da corte dos intelectuais. Daí a distinção fundamental entre ciência e teoria teórica: o confronto com aquilo que está fora da mente do observador, e o ajustamento desta àquilo, se almejamos ideias com conteúdo objetivo. Ideias estas que estão em todo lugar, para o horror do intelectual: na ordinariedade da vida; no contar das notas dos negociantes; no cálculo inconsciente da melhor quantidade de lenha a ser carregada; na cautela ao fechar um negócio; no perguntar dos nomes antes da confissão das amizades; na sabedoria de cortejar primeiro, declarar-se depois. Ordinariedade estranha ao mundo intelectual precisamente porque a razão de ser do intelectual – a polêmica idealista – depende da negação do ordinário, do explícito, do que é claro, imediatamente apreensível. O intelectual nega a realidade, portanto, para a sua afirmação pessoal. Ele não tem interesse no real, mas em sua própria mente, sua própria figura, sua própria graça. Ele é, em suma, um déspota em miniatura, dedicado ao domínio das coisas da mente – seus recursos, muito singulares, para acumular poder e prestígio. Se afastará do mundo real quanto mais for necessário, para distinguir-se em meio às lutas no interior de seu universo aristocrático. Descartes matara a charada em 1637.
 
 
“comparei as investigações dos moralistas antigos com palácios muito destacados e magníficos sem fundação melhor que areia e lama: eles louvam as virtudes muito altamente e as exibem de longe como estimáveis sobre qualquer coisa na terra; mas não nos dão nenhum critério adequado de virtude, e o que frequentemente designam com tão bom nome é apenas apatia, ou orgulho, ou desespero, ou parricídio.”
 
 
 

arte: leonardo da vinci


 

* * *

 
 
À práxis, portanto! Eis quatro preceitos para o leitor colar no espelho do banheiro, e aplicar a todas as áreas de sua vida em que encarar dificuldades:
 
 
“O primeiro [preceito observado por Descartes] era de nunca aceitar qualquer coisa como verdadeira que não percebesse claramente ser tal; isto é, cuidadosamente evitar precipitação e preconceito, e não incluir nada mais em meu juízo que os apresentados tão claramente e distintamente à minha mente, de modo a excluir toda base de dúvida.”
 
 
Ora! O indivíduo é um questionador radical, “cético que só duvida que pode duvidar, e não busca nada além de incerteza”? Não acredita na existência de uma verdade sequer; nem a verdade de estar vivo, dedicado a questionar e duvidar de tudo? Pois saiba ele que é um cartesiano. O questionador coerente, pelo menos; já que há os que só duvidam das verdades dos outros, mas não se abstém de em cada discurso tecer quinhentos julgamentos de fato, isto é, sentenças com pretensão à verdade. Parte dos relativistas – pós-modernos, no jargão mais reconhecido – são, assim, cartesianos em essência. E se coerentes em seus princípios céticos, são cartesianos em excelência. Descartes era tão cético que duvidava da própria existência! Dedica um capítulo inteiro para prová-la, e para isso tenta provar até a existência de Deus. Está lá, no capítulo 4.
 
 
Percebemos que a principal diferença entre o pensamento cartesiano e os pensamentos “pós-” prefixados é a desistência destes em dissipar a dúvida. Descartes era um cara teimoso e incansável, do tipo que não se contenta com o fracasso. Seus sucessores e detratores tornaram-se mais tolerantes com a dúvida, com o obscuro, e, com o tempo, tornaram a obscuridade um bem a se perseguir; um adorno que torna o discurso letrado mais sedutor (especialmente nos jogos sexuais eruditos). Mas o ceticismo fundamental já estava todo lá. É fundamentalmente cartesiano. A peripécia dos intelectuais foi conservar o ceticismo, mas separá-lo da prudência e do autocontrole, combinando-o com o preconceito e a presunção. Cedo ou tarde o ego humano sempre derrota a verdade, afinal.
 
 
Mas continuemos com os preceitos.
 
 
“O segundo era de dividir cada das dificuldades sob exame em tantas partes quanto possíveis, como necessárias à solução adequada”.
 
 
“O terceiro, orientar meus pensamentos em tal ordem que, começando com objetos os mais simples e de mais fácil conhecimento, poderia ascender aos poucos e, como se fosse passo a passo, ao conhecimento do mais complexo; nomeando até mesmo em pensamento uma ordem certa para objetos os quais, por sua própria natureza, não sugerem relação de antecedência e seqüência.”
 
 
Elementar. Da análise e meditação das brigas com a namorada para a construção de uma tese de doutorado. Se o objetivo é atacar o cartesianismo, esses são os primeiros passos cartesianos a dar. Pressupondo que todos já incorporamos a primeira regra, o ceticismo. Se não com tudo, certamente com as coisas cartesianas. Descartes se orgulharia de tanto ceticismo para consigo próprio, como um mestre sábio, feliz com os pupilos rebeldes, que se rebelam a partir de seus ensinamentos.
 
 
“E o último, fazer em todos os casos enumerações tão completas, e as revisões tão gerais, que possa ser assegurado que nada foi omitido.”
 
 
Isto é: se nosso trabalho tem um grau mínimo de confiabilidade, ele seguiu mais essa máxima cartesiana. Todos os elementos estudados foram, de fato, estudados. De preferência analisados. Os métodos propostos foram devidamente aplicados. As posições tomadas foram de fato implementadas. O texto tem coerência. Ele não começou um estudo racionalista do conceito de Estado e terminou uma regressão mística do inconsciente coletivo. Ele faz sentido; ao menos para o leitor. Nesse caso, homenageamos inconscientemente a Descartes.
 
 
As experiências de um indivíduo geram a sua singularidade e dela depende a forma e capacidade de interpretação e compreensão das coisas. Assim, o que nos faz é o processo que gerou nossa experiência e as emoções e pensamentos associados, não o resultado final. Por isso, é inútil tentar transmitir pelas palavras a totalidade de uma experiência a outrem. Por melhores que sejam suas habilidades literárias, seu interlocutor não possui a riqueza de detalhes da situação completa, e não dispõe de todos os órgãos estimulados quando imerso na experiência prática. É preciso estar lá, é preciso sentir.
 
 
Isso é Descartes:
 
 
“estou persuadido de que se tivesse aprendido em minha mocidade todas as verdades das quais desde então procurei demonstrações e tivesse os aprendido assim sem trabalho, nunca deveria talvez saber qualquer coisa além deles; pelo menos, nunca teria adquirido o hábito e a facilidade que penso possuir ao sempre descobrir verdades novas em proporção em que me dou à procura.”
 
 
Quer dizer, se não tivesse passado pelas experiências do processo de descoberta de suas verdades, Descartes não teria elaborado seu método. Este desenvolveu-se na teia de experiências, ações e reações, que estimularam sistematicamente todos os seus sentidos, tocando todas as frações de sua mente e o âmago de sua personalidade. É o mesmo conosco. Por isso, não cabe, em qualquer coisa, tentar reproduzir as experiências de outrem, mas buscar os instrumentos para lidar com as nossas próprias, descobrindo inovações.
 
 

foto: flávio samelo


 

* * *

 
 
Mas o cartesianismo vai muito além de um método de estudo. É um sistema de ação. Sábios preceitos morais inundam seus escritos; fórmulas repetidas nas filosofias comportamentais tão em moda atualmente. Da vasta riqueza comportamental codificada em sua obra, falarei somente de alguns desses preceitos. Modéstia e autoestudo para controlar as expectativas e as frustrações. Diz o mestre:
 
 
“Minha […] máxima era sempre tentar conquistar a mim mesmo, em lugar de fortuna, e mudar meus desejos em lugar de mudar a ordem do mundo, e em geral acostumar-me à opinião de que, salvo em nossos próprios pensamentos, não há nada absolutamente em nosso poder; de forma que, quando fizermos o melhor em coisas externas a nós, tudo em que falhamos será tido, no que a nós refere, absolutamente impossível”, então, “este único princípio parece a mim suficiente para me impedir de desejar no futuro qualquer coisa que não posso obter, e assim me fazer contente”.
 
 
Ou seja: (1) avalie a sua capacidade de realização, (2) estabeleça objetivos apropriados às suas capacidades e (3) feito isso, dê o seu melhor. Ajustando os objetivos às capacidades, e aceitando as suas capacidades, evitamos a expectativa – e, com ela, a frustração. E, feito o melhor, não se arrependa dos resultados, sejam quais forem.
 
 
Bela fórmula. Mas há um porém:
 
 
“Mas confesso que há necessidade de disciplina prolongada e meditação frequentemente repetida para acostumar a mente a ver todos os objetos nesta luz; e acredito ser principalmente o segredo do poder dos filósofos que em tempos antigos foram habilitados a subir à influência e fortuna e, ao meio de sofrimento e pobreza, desfrutar de uma felicidade que seus deuses poderiam ter invejado.”
 
 
Como?
 
 
“ocupados incessantemente com a consideração dos limites prescritos pela natureza ao seu poder, eles [os filósofos dos tempos antigos] se tornaram tão completamente convencidos de que nada estava à sua disposição salvo seus próprios pensamentos […] e sobre seus pensamentos eles adquiriram um equilíbrio tão absoluto, que tiveram pouco fundamento por isto para se estimar mais ricos e mais poderosos, mais livres e mais felizes que outros homens os quais, por mais que tenham favores dados a eles pela natureza e fortuna, se destituídos desta filosofia, nunca poderão comandar a realização de todos seus desejos.”
 
 
Quer dizer: qualquer lugar pode ser um céu ou um inferno, dependendo de nossa atitude mental. O sofrimento e a felicidade estão na cabeça, não fora dela. Assim, nossa liberdade está em nossa margem de controle sobre nossos pensamentos. Através do autoestudo e da disciplina, deve-se controlar nossas expectativas controlando nossos pensamentos e, assim, tornarmo-nos independentes da situação objetiva. Um estado perpétuo de bem-estar. Sim, o problema todo está na cabeça; mas, ao mesmo tempo, é sobre ela que temos mais controle. Isto também é cartesiano.
 
 
“Corpos grandes, uma vez subvertidos, são a duras penas reerguidos, ou até mesmo mantidos erguidos quando seriamente abalados, e sua queda é sempre desastrosa.”
 
 
Não só edifícios, objetos físicos. Objetos da mente. Um grande amor, uma grande amizade, uma grande ideia, um grande projeto, uma grande expectativa. Valor demais implica risco. Importância, valor e risco são diretamente proporcionais, assim como suas expressões psíquicas, como a expectativa, a alegria e a frustração. Daí a escolha pela simplicidade, isto é, a abstenção parcial das expectativas, para a satisfação com o mínimo. Algo que pode ser, talvez, muito mais desafiador…
 
 
Ele pode ser mesmo poético:
 
 
“Como sou de uma disposição que me faz pouco propenso a ser tido diferente do que realmente sou, pensei necessário tentar por todos os meios me fazer merecedor da reputação a mim outorgada; e é agora exatamente oito anos desde que este desejo obrigou-me a deixar todos os lugares onde a interrupção por quaisquer de meus conhecidos era possível, e recorrer a este país no qual a duração longa da guerra levou ao estabelecimento de tal disciplina que os exércitos mantêm, ao que parece, só para permitir que os habitantes desfrutem com mais firmeza as bênçãos da paz e onde, no meio de uma grande multidão ativamente empenhada em negócios, e mais atenta aos próprios negócios que curiosa sobre os de outros, pude viver sem ser privado de quaisquer das conveniências tidas nas cidades mais populosas, e ainda tão solitário e isolado quanto estaria no meio dos desertos mais distantes.”
 
 “Tão solitário e isolado quanto estaria no meio dos desertos mais distantes”. Você já se sentiu assim, mesmo em meio à multidão; na cidade grande? Lembro-me das palavras do sargento Welsh, quando indagado pelo soldado Witt, em cena épica de “Além da Linha Vermelha”, de Terrence Malick:
 
 
– Don’t you feel lonely?
– Only around people…
 
 
Daí a figura do gênio solitário. Descartes, se não seu fundador, foi seu arquétipo e materializador.
 
 
Aprende-se demais com os grandes. Não é possível reduzi-los a uma etiqueta pejorativa e achar que estão superados. Pelo menos não nós, os anões, que precisamos necessariamente nos amparar sobre os ombros dos gigantes.
 
 

* * *

 
 
“Continuei tendo estima pelos estudos nas escolas. Eu estava ciente de que os idiomas neles ensinados são necessários à compreensão dos escritos da Antiguidade; que a graça da fábula estimula a mente; que as ações memoráveis da história elevam; e, se lidos com discrição, ajudam a formar o juízo; que o estudo de livros todos excelentes é, como fora, ter uma entrevista com os homens mais nobres das idades passadas que os escreveram e até mesmo uma entrevista estudada na qual é descoberto a nós só seus pensamentos mais seletos; que a eloquência tem incomparável força e beleza; que a poesia tem suas graças extasiantes e delícias; que na matemática há muitas descobertas refinadas eminentemente adequadas a gratificar o indagador, como também para adiantar todas as artes que diminuem o trabalho do homem; que numerosos preceitos altamente úteis e exortações à virtude estão contidos em tratados de moral; que a teologia mostra o caminho ao céu; que a filosofia dispõe os meios de discursar com aparência de verdade sobre todos os assuntos, e comanda a admiração dos mais simples; que a jurisprudência, medicina e as outras ciências obtêm para seus cultivadores honras e riquezas; e, em breve, que é útil dedicar um pouco de atenção a todos, até mesmo aos que mais abundam em superstição e erro, para que possamos estar em posição de determinar o seu real valor, e guardar contra ser enganado.”
 
 
 

 
 

Um comentário sobre “Proverbial e elementar. Algumas notas cartesianas

  1. Fernando Cartesiano… a erudição e manejo das palavras, assim formando ideias, transmitindo o pensamento e talvez uma realidade.
    Muito bom, digno de permanecer no caminho, lendo e escrevendo, observando e vivendo, buscando na erudição e na vida real subsídios para ampliar laboriosamente o saber e o fazer, surpreendendo-nos com novas formas de ver o que ignorávamos ou pensávamos já resolvido…
    Realizar atrai felicidade. Bom é ser assim laborioso, cuidando, agindo, interagindo, ouvindo, observando, doando, surpreendendo.
    “Fique assim, bem assim, sempre assim!”
    bjx

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