Aquela lembrança glacial e “such a rush”

 
 
Vai fazer frio em Curitiba nos próximos dias. Vez ou outra confiro modelos meteorológicos. Os meteorologistas usam esses modelos para fazer suas previsões do tempo. Ora, eles não precisam saber como a atmosfera funciona – quem faz isso são os modelos. Um modelo é um constructo do funcionamento da atmosfera, em circunstâncias determinadas. Então, após anos ou décadas de pesquisa, alguns fulanos desenvolvem equações matemáticas que simulam o comportamento da atmosfera ou mesmo do clima – o modelo meteorológico. Então, supercomputadores rodam esses modelos e geram resultados, geralmente em forma de gráficos, com informações das futuras condições atmosféricas. O meteorologista então olha esses resultados e os interpreta, elaborando então aquelas figurinhas de sol, nuvens e etc., acompanhados da temperatura mínima (temperatura de madrugada e início da manhã, geralmente) e máxima (à tarde). Daí, eles postam esses diagramas nos sites ou vendem pra Globo, que então coloca alguma atriz frustrada apresentadora de TV para transmitir as informações do tempo. (A economia precisa girar, afinal.)
 
 
O que importa é que vários modelos estão disponíveis para consulta grátis na internet. Assim, dá pra ir direto aos modelos; eles próprios já são a previsão e trazem mais informações. Não que os meteorologistas são inúteis; eu é que sou geek.
 
 
Então, consultei o seguinte modelo. Ele apresenta uma previsão de sete dias, a partir da sexta-feira do dia 19 de agosto de 2011:
 
 

 
 
(É do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o INPE; mas eu acho que eles usam modelos americanos para esse modelo deles, o ETA. Mas nóis, os brazucas, dificilmentes fazemos algo sem ajuda gringa, então tá susse.)
 
 
Então, o modelo prevê temperatura máxima – sim, máxima – de oito graus para a segunda feira. Muitas nuvens, chuva fina, vento de sudeste, mínimas de quatro e máximas de oito; bicho, é frio.
 
 
Aqui em Curitiba não é frio. Aqui faz frio. É diferente. Este agosto mesmo, teve bem mais dias de sol com temperatura passando de 20 do que descendo de 10. Mas, sim, com alguma frequência faz um frio que irrita quem é friorento e que esfria mesmo os mais resistentes, desdotados dessa bênção chamada calefação.
 
 
E o modelo também diz que teremos, a partir desta sexta-feira, uma semana de tempo fechado, com chuviscos e frio. E bastante frio. Bicho, eu olho praqueles dados e sei como será a segunda-feira. Mal vai amanhecer. Vai ser daquelas nuvens escuras preenchendo o céu, com o ar úmido e gélido, do tipo que parece pregar na pele e imergir até os ossos, como se esfriasse de dentro pra fora, não de fora pra dentro. Ao meio-dia vai parecer um dia chuvoso às cinco horas da tarde. E vai estar quase escuro às quatro.
 
 
Eu me lembro de dias assim. Em Blumenau. (Não fazia oito graus, mas uns treze, na mesma escuridão – e pior umidade). Vendo este gráfico hoje, eu me lembrei daqueles dias, no colégio, aos 15 anos, quando eu me sentava nos banquinhos do lado de fora do ginásio de esportes e ficava observando o céu e escutando música. O ginásio era grande, e o pátio era grande; o colégio era grande, imenso, do tamanho de uma quadra inteira, e das grandes. Ele parecia um labirinto. Mas eu gostava de me sentar nos banquinhos do ginásio. Podia ver a rua 7 – a mais movimentada de Blumenau, onde fica o shopping, aliás do lado do colégio e visível donde eu sentava. E podia ver os espaços vazios do pátio mais próximo e distantes, bem como os prédios antigos e eclesiásticos, com sua obscuridade cristã. Esse rigor celibatário e sagrado de um lado, e a libertinagem e o neon daquele templo capitalista do outro, me satisfazia e apaziguava. Ali sentado, às vezes eu escrevia algumas coisas. (Sério, eu escrevia MUITA tosqueira aos 15 anos, mas que isso fique em off.) Eu meio que contemplava o frio, numa espécie de atitude de cultivo solitário. Uma coisa meio romântica. Daí, eu me lembrei que, naquela época, e naqueles dias de frio e trevas, eu escutava Coldplay. Ahá! Apropriado, né. Não só pelo “Cold” do nome, mas eles são cold mesmo. Um rock pop bem melancólico. E o primeiro disco, o “Parachutes”, era especialmente assim. (Eles ficaram mais felizinhos depois; mas é compreensível, quando se fica famoso, e quando se sai com a Gwynett Paltrow.) E as b-sides, as demos, eram ainda mais leeeeeentas e friiiiiaaaassss… (Bah! Por isso que enjoo rápido deles.)
 
 
Eu escutava uma dessas, “Such a rush”. De um EP, anterior ao “Parachutes”. (Naquela época eu tinha o hábito de sempre procurar as demos e b-sides das minhas bandas prediletas. Mas hoje, graças à preguiça, eu transcendi tudo isso.) Eu a ouvia… “such a rush, to do nothing at all… such a rush to get nowhere at all…” com aquela voz gélida e preguiçosa do Chris Martin; via os alunos, o céu, o pátio, os ladrinhos, os arenitos molhados; as falas, os gritos, os sussurros; quase dormindo, querendo dormir, apagar; e me sentia, sei lá, um netuniano perdido no meio da Terra. Parecia uma vastidão glacial, azul e cinza, enxarcada. E eu no meio dela. Essa frieza. Mas ela congelava as tendências ao caos. Como uma salvaguarda ao fim; a garantia da vida. Eu via conflito nos meus colegas e nos carros da rua; para suprimir esse conflito, era preciso congelá-los. A vastidão azul glacial infinita parecia um estado de harmonia plena. Mas não é somente triste, como é perigoso, pois é uma escolha pela recusa à vida, para evitar os conflitos e a degeneração intrínseca a ela. Que traz o sol e o calor. Mas, àquela época, eu encontrava paz e razão na vastidão glacial – na qual entrava nestes dias cinzentos e gélidos. E “Such a rush”.
 
 
 

 
 
 
Enfim, a afinidade entre “Such a rush” e esses dias é absoluta. Um é a expressão do outro. Faz sentido que Coldplay seja britânico – poderia ser também algo nórdico, né. (Embora eu ache a música dos nórdicos mais alegre que a dos britânicos, por que será? Digo, não por que eu acho isso, mas por que sucede de fato assim, isto é, por que os nórdicos são mais alegres, ainda que lá seja mais frio e sombrio ainda; com licença, sim, eu estou assumindo que acabei de dizer uma verdade – e eu espero que seja!)
 
 
Bem, e é isso. “Such a rush” e segunda-feira, aqui vamos nós. Não posso me esquecer de comprar uns chocolates e pipoca no domingo, e não me esquecer de ver algum dos 500 filmes à minha disposição. (Já tô com preguiça. Mas “Such a rush” tá susse.)
 
 
 

 
 
Amanhã ou no domingo postarei algo legal… digo, mais do que a média. Nesses dias me ocorreu, finalmente, um estado de hiperestimulação mental, no meio da rua. Registrarei o que ocorreu e o que pensei então.
 
 
Até.
 
 
F.
 
 
P.S.: Ah. Se você gosta (ou atura) britpop, ou Coldplay, fique a sós, se puder, na segunda-feira, e coloque-a pra tocar. Olhe pro céu, pense na vida. Coma alguma coisa, de preferência doce. Dá pra ir loooooooonge…
 
 

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