Eustácio, os germes, a ideia e eu

 
 

Eu preciso de mais leitores. Não me entendam mal. Amo todos e cada um da minha meia-dúzia de leitores. Mas hoje eu tive uma ideia; uma dessas ideias que, eu acho, merece ser divulgada e colocada em prática.
 
 
Tudo ocorreu enquanto eu fazia a minha vitamina. É uma vitamina reforçada, dessas espessas, devidamente pegajosas, com lá seus 40 ou 50% de todos os carboidratos e proteínas que um ser humano precisa para viver. Entre outros ingredientes, coloco mamão. (O leitor deve estar lembrado que, lá nos idos de janeiro, eu publicara “A chuva e o Mônada“, em que descrevera a minha odisseia ao supermercado próximo à unidade em que pratico Yôga, para comprar mamão. Data de então o início da minha (boa) relação com os mamões. Foi quando os incorporei à minha vitamina – dela nunca mais sairiam.) (Nossa, homo sapiens já fez sete meses! Passou do seis, e eu nem percebi! Mas não me esquecerei do seu aniversário, não, não…)
 
 
Mas voltando ao ponto, isto é, o mamão. Então, eu acabara de posicionar o liquidificador e despejar o leite, a linhaça, a quinoa, o alecrim, a canela, o gengibre, a criptonita e tudo o mais que não é apropriado revelar. Chegara a hora do mamão. Era um mamão feio, chamado Eustácio. Eu já não fora com a cara dele quando o arrematei. Digo, eu entendo e compadeço (verdadeiramente) com a sua lamúria. Ele tinha alguns grânulos escuros espalhados pelo corpo. Mas havia poucos mamões e todos muito enfermos. Eu sabia que corria um risco de os grânulos evoluírem para colônias de aliens vorazes, mas não me sobraram alternativas. Não existe vitamina sem mamão. Sim, eu entendo, existe, eu sei; sou ponderado; sim, eu sou. Até eu faço vitamina sem mamão às vezes – enquanto amadurecem, por exemplo. Mas a semana inteira sem mamão, não dá. Ele estava relativamente maduro, então, calculei, o consumiria antes de ser infestado por micro-organismos. Mas benditos aliens. Toquei Eustácio e tão logo meus dedos pressionaram a sua face oculta, senti meu indicador afundar numa superfície mole e lodosa. Aquela sensação nauseante, uuuuuuuggggghhhh, subiu dos meus braços até a minha garganta. Trouxe Eustácio até a pia e o virei, para autenticar o estrago.
 
 
Um terço de Eustácio havia sido tomado por germes, staphylococcus, streptococcus; o que quer que seja, produzira um bolor cinza-esverdeado sobre a pele gangrenada, fina como se Eustácio tivesse duzentos anos. Malditos aliens. Eu sabia que Eustácio estava perdido. Então, fui tomado por aquela energia primal e senti a necessidade de vingança. (Seguindo a hierarquia tácita das formas de vida – germes lá em baixo, nós, no topo – é melhor descarregar as cóleras em bactérias. Pensando nisso, alguém já pensou em fazer um movimento em defesa das bactérias? São vivas, afinal.)
 
 
Espero que o leitor compreenda, mas não podia entregar Eustácio a elas sem concessões. Joguei então detergente sobre a colônia de mofo putrefato, água e a vi arrefecer. Então fiz metástase em Eustácio, mutilando-o para ver até onde os aliens o haviam devorado. Então, descobri que eles, de fato, colonizam. A superfície externa de Eustácio já era um microambiente em si mesmo. Um habitat. Lá dentro, em seu coração, o tecido estava apenas levemente amolecido, aquoso, suavemente intumescido. Os aliens atacam aos poucos, minam o sistema imune e irrompem, devastando a vida alheia. E de pensar que não passavam de pequenos grânulos.
 
 
 

 
 
 
Foi quando me lembrei que tenho poucos leitores. (Embora ame-os todos e cada um.) Porque um deles, o senhor Giulio, acusou a minha falta de marketing. Sim, ele o fez. Não adianta negar, porque está ali, no post do chimpanzé-gente, o “project Nim”. (Se é que algo que pode ser considerado “gente” possa ser referido como um “projeto”.) (Somos realmente cínicos, nós, a “gente”.) Então, ocorreu-me a ideia: já que ando de pasta de laptop pra lá e pra cá, não custa nada carregar uns folhetos com propaganda de homo sapiens e espalhá-los pela cidade.
 
 
Sim! Que demais! Imagine só! Eu, andando por aí, colando folhetos sobre um blog nas paredes de locais cults como a Reitoria, a Praça da Espanha ou o São Francisco. A ideia mal acabara de formar-se na minha mente e a minha boca e garganta já se dilataram para gargalhar. Eu ri bagarai. Juro por deus, ri como há tempo não ria. Mas logo a ideia deixou de ser absurda e desenvolveu-se em projeção e expectativa, logo que uma dose de seriedade tomou conta do meu sistema límbico. Talvez fosse realmente interessante, dar de cara com uma mensagem misteriosa no mural do departamento de Letras ou nas muretas carbonizadas do São Francisco, falando de uma empreitada para reunir mais que uma dúzia de leitores. (Espero que sejam leitoras.)
 
 
Claro, isso denuncia que eu não tenho os esquemas zuckerberguianos para divulgar via internet, daí sendo obrigado a recorrer ao meio físico. Mas é uma ideia interessante. É uma atividade lúdica. Ela tem valor em si. Não precisa lograr êxito. O que importa, é fazer. Dar o melhor dentro das possibilidades, buscando sucesso, lógico; mas extrair prazer do ato de fazer, fazendo o presente, presente, tornando a vida algo que vale a pena ser vivido. E é algo excêntrico. Compatível com o meu habitus. Apropriado, portanto, à minha missão em vida. Eu vou selecionar alguma imagem, alguma entre as 98 mil. Vou elaborar uma chamada. Algo como…
 
 

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[IMAGEM]

 
 

OLÁ

 
 

MEU NOME É F., VULGO “ZEOCIT”, E VENHO POR MEIO DESTE FOLHETO PROPAGANDEAR O MEU BLOG, “HOMO SAPIENS”.

 
 

ACREDITO QUE SEJA UM BOM BLOG. ÀS VEZES ESCREVO COISAS INTERESSANTES NELE. ALGUMAS DEVEM TE INTERESSAR. ESTOU CERTO QUE SIM.

 
 

VENHA FAZER PARTE DA MINHA MEIA-DÚZIA DE LEITORES. (ESPERO QUE SEJAM LEITORAS.)

 
 

https://zeocit.wordpress.com

 
 
ATÉ MAIS.
 
 
F.
 
 
P.S.: NÃO SE ESQUEÇA DE LER O POST SOBRE A IDEIA DESTE FOLHETO E EUSTÁCIO, O MAMÃO.
 
 

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A imagem vai em primeiro plano, pra chamar a atenção. Talvez eu mude alguma coisa no texto, mas será algo assim. Tem de ser curioso, provocante e misterioso. E tem de zombar de si mesmo, não se levar tanto à sério. (Gostamos e precisamos disso.) Na pior das hipóteses, farei algo interessante e acumularei mais meia-dúzia de leitores. Atingirei uma dúzia, ou duas (neste caso me emparelharia ao Roberto Menezes). Adicionarei mais uma centelha em minha afirmação própria de vida; e de quebra talvez faça algumas pessoas alegres.
 
 
Yep. Farei isso. Fernando, o flânerie, lunático e apaixonado, em busca do Andarilho Cósmico. Além de dançante. É um ótimo conceito.
 
 
Até mais.
 
 
F.
 
 
P.S.: Você é um leitor atraído por meus folhetos mequetrefes? Que demais! Seja bem-vind@. (Espero não ter feito propaganda barata.)
 
 

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