fragmentos. o deslocado

 
 
Sobre o deslocado, o boêmio, o perdido, o andarilho, o intelectual e aquele que vive para e pelas ideias. É a melhor descrição desta figura excepcional, este não-ser, que já vi até aqui.
 
 

“Era mais vagabundo que os outros, que qualquer um que tenha conhecido. Mas isto não quer dizer que nenhum dos outros tenha trabalhado alguma vez. Era incrível. Como se tivesse acabado de morrer. Não totalmente. Comia, mas sem tomar vinho. Fumava. Queria levá-la para a cama toda vez que a tinha por perto. Mas afora isso estava morto, de boca para cima, as mãos embaixo da cabeça, mordendo a piteirinha amarelada, pensando sem parar.
 
 
Talvez ela [Rita] suspeitasse que esse ócio não era só mais intenso, mais voluntarioso que o dos homens anteriores, mas também de qualidade distinta. Deve ter sentido isto muitas tardes ao ir, muitas madrugadas ao voltar; nunca, nem depois, teve palavras ou ideias que expressassem aquela sensação. Mas sabia que algo estranho e permanente ocupava o corpo deitado do homem taciturno, sempre na penumbra ou indiferente ao ciclo de luzes e sombras; sempre mordendo a piteira, possuído.”
 
 
“Ela lhe deu o dinheiro, todo o da noite anterior, e alguns pesos a mais que guardava no armário. Estava certa de que não voltaria a ver o homem. Sentou numa cadeira e começou a recordar vertiginosamente os meses que haviam morado juntos, a extrair-lhes uma póstuma ternura que talvez durasse até o encontro com o próximo homem ou talvez, desvanecendo-se, com ressurreições inesperadas, muito mais tempo. Nunca se sabe. Soube, em compensação, o que Ambrosio fazia com o dinheiro que ela lhe dava ao voltar, com as notas sujas e os punhados de moedas que depositava na cama e que ele não exigia, que se limitava a pedir com indiferença e segurança. ‘Me dê o que você puder.’ Porque nunca saía sem ela e sequer tomava vinho. De modo que, afora as refeições e o preço inestimável da metade da cama que ocupava, não podia imaginar outra despesa além dos vinte cigarros diários. Viu-o, já vestido, levantar o colchão e cavoucar na estopa; viu-o trazer as notas, aliás-las e empilhá-las em cima da mesa. Emprenhava-se em ignorar esta última cena: as mãos quadradas cheias de anéis manipulando o dinheiro com uma recém-adquirida destreza profissional; o piso xadrez do oleado descascado ocupado por ingênuas flores murchas; o aquecedor de bronze, uma meia comprida e desinchada; a cabeça jovem com o brilhante cabelo recém-penteado que se inclinava sem avidez sobre o dinheiro, ainda não totalmente desperta, prolongando, adormecida, o sonho de nove meses. Não queria ver isto, mas sim o curto passado, simples e espantosamente pobre, que a obrigava a inventar cada coisa, a escondê-la ali e descobri-la. E cada coisa, uma vez descoberta, tinha de ser batizada e alimentar-se dela, de Rita. Era fácil e era nada, comprovava com assombro: um homem ou uma forma masculina, tiritando ou suando, imóvel na sombra; uma cabeça jazendo, obstinada, inumana agora pela meditação, pelo desdém pelo mundo, pela submissão, aceita com orgulho, à fatalidade de criar.”

 
 
Juan Carlos Onetti, “Para uma tumba sem nome”, p. 116 e 118, respectivamente. Com adaptações.
 
 
“Uma cabeça jazendo, obstinada, inumana agora pela meditação, pelo desdém pelo mundo, pela submissão, aceita com orgulho, à fatalidade de criar”. Meu deus. Colem isso no espelho do banheiro.
 
 
Até mais.
 
 
F.
 
 

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