gotas

 
 
Cinco. Manhã. Meio-dia. Até meio-dia dá sete. Aula. Aula às catorze. Cinco, então, treze. Está bom. Uma hora para as catorze. Certo. Aula, então. Maracujá. Um, dois, três goles. Melhor três bicadas que um golão. O mar, o mar, subitamente sinto falta do mar. Isso é importante. Chove e há aula em breve, mas chove às cinco da manhã. Eu não tenho sono; algo está aceitando a vida noturna; algo que enseja sair de dentro de mim. Maracujá. Como um sonho. Penso, agora, como se sonhasse; só palavras avulsas e ideias avulsas, aparentemente desconexas, embora claras ao inconsciente que não posso acessar.
 
 
Eu gosto do gelado do maracujá gelado, mas só porque faz calor.
 
 
Eu sei que isso importa, mas são cinco da manhã. Saio então da cozinha, pois preciso da aula e, com ela, das oito horas de sono, não havendo mais tempo a perder. Avisto a janela da sala, molhada por algumas gotas de chuva, agora ou ainda um chuvisco. Chuva. Água. Mar.
 
 
As gotas caem ao acaso, mas está claramente formado um filete, um caminho de massa aquosa, em que as gotas recentes escorrem, quando no resto da janela há apenas respingos esporádicos, com espaços significativos entre cada aglomeração. Uma gota, outra gota, cada gota. Naquele filete. Elas seguem o caminho que a anterior deixou. E a outra. E a outra. E o caminho fica mais denso, mais fundo, mais propício – se isso continuasse ad infinitum o vidro desabaria e com ele todo o caminho, e as gotas.
 
 
O passado recria a todo instante as condições de sua própria reprodução. E assim foi. E assim é. E assim será.
 
 
As gotas me disseram, e está claro. Gotas, caminho, probabilidade, entropia. As gotas buscam o caminho mais fácil, isto é, o estado mais provável. Como eu, agora, indo dormir. A liberdade consiste precisamente na capacidade de assumir ou realizar um estado mais improvável. Quanto maior a capacidade de realizar coisas improváveis, maior o grau de liberdade de que se goza. Mas contra ela operarão as tendências naturais, isto é, o escorrer da maioria das gotas. Ser livre é escorrer para cima e esbarrar contra o fluxo descendente. Mas um dia o vidro quebrará, e deve quebrar tanto mais cedo quanto mais gotas livres existirem. Não haverá para onde escorrer ou o que escorrer. Como um sonho, talvez um refúgio para os nossos estados improváveis, absorvendo os fardos da vida, tornando-a mais fácil, facilitando, por comparação, o ato fundamental de discernir a realidade da fantasia. Embora a investigação desta ressalte o fundamental daquela, também por comparação. Mas adoramos o improvável. Desejamos o improvável. O mundo ideal está no improvável. O amor perfeito é improvável. A paixão intensa, fulgurante, é improvável. A utopia é improvável. A glória é improvável. Deus é improvável. A vida é improvável. Estando o improvável relegado aos sonhos, arriscamos perseguir eternamente um sonho. Viver a vida em busca do que não é nela possível. O sonho, o improvável, a felicidade perpétua. Ou arriscar tudo e correr o risco de vir abaixo mais cedo. Tudo isso não me soa bem. Lembra a chama intensa que antes se exaure, talvez cedo demais.
 
 
Eu escrevo isso e vou dormir; gotas, água, fluindo sem parar.
 
 

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