sobre o amor

 
 

 
 
Venho há algum tempo falando de um tal de Georg Simmel. Engraçado como são as coisas. Às vezes, a articulação de eventos e fatos que se engendra sob a nossa presença faz tanto sentido que nos sugere a presença de alguma espécie de vontade subjacente, unindo ou afastando os pontos para nos agradar ou confundir. Por acaso esbarrei com Simmel em uma disciplina do doutorado. Nada a ver com o meu trabalho. Por acaso, havia na bibliografia referências relativamente periféricas na obra do filósofo alemão. Por acaso, eu não estava interessado em economia ou sociologia política. Por acaso, peguei os textos estéticos como objeto.
 
Por acaso, descobri que Simmel fala – e bem – sobre coisas ao mesmo tempo tão ordinárias e complexas como o amor e outras as formas de sensação intensa. Simmel foca as coisas mais representativas deste algo hipotético, evasivo e imaterial chamado “alma”. Ele busca uma fugidia e dualista unidade, um princípio, em estilo monádico, nas manifestações mais densas do espírito humano.
 
Vem a calhar. Eu precisava de um pouco de filosofia da consciência, de um olhar mais atento para o que ocorre dentro do coração humano. Eu já sabia que há um universo mais extenso, um mar mais profundo e forças mais vastas no interior do coração humano do que na vastidão do cosmos. Mas diferente de conhecer a distância é percorrê-la. As palavras de Simmel são um meio-termo entre o conhecimento vago e a sabedoria próxima. Suas palavras sobre o amor merecem ecoar. Eu farei que ecoem.
 
 

* * *

 
 
O principal texto em que Simmel discute o amor é “Filosofia da Coqueteria”. “Coqueteria” refere-se à coquete, isto é, a mulher envolvida em uma relação de cortejo, em que busca despertar a atenção, admiração e atração de um homem. A coqueteria é uma forma de relação intersubjetiva marcada pela paixão e cujos princípios são os do amor.
 
O amor é dualista, paradoxal; funda-se numa relação aparentemente contraditória entre posse e não posse. Nos diz Simmel:
 

“A essência da coqueteria, expressando-nos com paradoxal concisão, é esta: onde existe amor, existe também – quer no seu fundamento, quer à sua superfície – posse e não posse; portanto, onde existe posse e não posse – embora não na forma da realidade, mas do jogo – existirá também amor ou, pelo menos, algo que ocupa o seu lugar”

 
Trata-se, pois, de demonstrar o interesse, sem parecer fazê-lo; de dar-se ao homem sem no entanto efetivamente entregar-se; trata-se de fazer, não fazendo. É precisamente este choque entre ser e não ser, positivo e negativo, que desperta toda a paixão do amor. É o seu mistério.
 
 
 

 
 

“É característico da coqueteria, na sua forma mais trivial, o olhar pelo rabinho do olho, com a cabeça meio virada. Há nesta atitude um afastar-se, associado ao mesmo tempo a um efêmero dar-se, uma atenção que se dirige, por um momento, para o outro ao qual, todavia, nesse mesmo instante, se esquiva simbolicamente mediante a direção oposta do corpo e da cabeça. Este olhar, no plano fisiológico, só pode durar uns segundos, pelo que na sua doação está já pré-formado, como algo inevitável, o seu desvio. Tem o encanto do clandestino, do furtivo, do que não pode durar muito tempo e em que, por isso, o sim e o não se misturam inseparáveis. O olhar pleno, de frente, por íntimo e ardente que seja, nunca tem o matiz específico da coqueteria”

 

“Neste mesmo sedimento do efeito coquete se inscreve o balancear e o bambolear das ancas, o andar ‘coleante’. Não só porque esse movimento acentua de modo concreto as partes sexualmente mais atraentes do corpo, enquanto persiste, todavia, a necessária distância e reserva, mas também porque esse modo de andar materializa o ritmo alternado e incessante da oferta e da recusa”

 
O olhar pelo rabinho do olho, com a cabeça meio virada. O andar provocante, com o corpo em guarda. O olhar dizendo “sim”, a inclinação do corpo, “não”. O “sim” doando-se, mas, ao mesmo tempo, nele próprio já presente a sua recusa; a sua negação, na forma de possibilidade de recusa.
 
 
 

 
 

“Ela gosta de se entreter com objetos que, por assim dizer, se encontram além da pessoa [do ‘alvo’]: cães, flores ou crianças. De fato, isto significa, por um lado, o afastamento daquele para quem se olha e, por outro, torna-lhe patente o valor inestimável da sua entrega; ou seja: não és tu que me interessas, mas estas coisas aqui – e ao mesmo tempo: isto é um jogo que para ti represento, pois se me ocupo delas é pelo interesse que sinto por ti.”

 
Ora, é claro, não somente cães, flores ou crianças É uma maneira velada, portanto segura, de transmitir o que se sente. Uma maneira purificada, salvaguardada da exposição excessiva. O valor reside justamente nessa entrega velada. Nessa compenetração entre posse e não posse. Nesse possuir não possuindo. A mulher – e o amor – se valoriza dessa forma, e assim desperta a sua paixão.
 
A mulher, contudo, não quer apenas agradar. De forma alguma. Seu valor não seria um décimo de sua apreciação real caso o fosse. A densidade anímica, a complexidade, a intensidade do amor reside justamente em que ele não tem finalidade alguma, exceto o cultivo de si mesmo. Em vez de ter uma finalidade definitiva, uma função, o amor, na coqueteria, busca o próprio meio, isto é, gerar mais amor. Os meios são os próprios fins. A coquete “busca” agradar na mesma medida em que “busca” a recusa. Busca-se gerar apreço, paixão. O agrado e a recusa são as formas que o amor encontra para manter acesa a sua paixão.
 
Como num jogo, em que o mais importante é jogar, em vez de ganhar ou perder. Em que o mais importante é o percurso, e não o fim. Em que se busca prolongar o percurso ao máximo. A essência do amor não está no agradar e recusar, mas na arte do agrado e da recusa.
 
 
 

arte: henri de toulouse-lautrec


 
 

“Talvez”. Sim, o “talvez” é a palavra que melhor define a coqueteria, o fundamento do amor.

 

“Na atitude anímica que a coquete sabe provocar, este valor eudemonista do acaso, da consciência acerca da nossa ignorância sobre se ganharemos ou perderemos, chega, por assim dizer, a afirmar-se e a consolidar-se. […] Porque o jogo recíproco de ambos [homem e mulher] se mantém, e nenhum deles é assaz sério para expulsar o outro da consciência, paira também sobre o negativo a possibilidade do ‘talvez’; sim, este ‘talvez’, em que a passividade da resignação e a atividade da pretensão constituem uma unidade do estímulo, circunscreve toda a reação interior à conduta da coquete”

 
“Anímica” refere-se a “alma”, trata-se dessas coisas instigantes e aparentemente imateriais que sentimos dentro de nós. Por “valor eudemonista” Simmel refere-se a algo que possui valor por nos conferir felicidade; algo que nos faz felizes, sendo portanto valoroso. Entre o resignar-se e o pretender, a passividade e a ação. É o “talvez” que está entre ambos. Mas por que “talvez”? E donde o seu encanto? Do risco. Existe “talvez”, porque existe risco.
 
O mesmo princípio, para qualquer coisa de valor. Por que um Brasil versus Argentina interessa mais que um Brasil versus Paraguai? Porque lá há mais risco. Por que o choque entre dois poderosos instiga mais a atenção do que entre dois medíocres, ou entre o grande o pequeno? Porque ali há mais risco. Tememos mais quando há mais em jogo. Como um esporte radical. O risco o torna mais instigante, faz irromper de dentro de nós as paixões mais fortes. O tesão do jogo é o risco de perder. É a incerteza. Quanto maior a incerteza, maior o risco, maior o tesão – maior a vontade de conseguir esse algo em busca, o valor em jogo.
 
O choque misterioso entre forças contraditórias gera todo esse anelo, o fascínio, toda a atração, que atrai o homem e a mulher. Uma posse eternamente entre aspas: quando um é completamente do outro cessa todo o jogo de forças, toda a interação entre potências duais complementares, e com ele desaparece todo o mistério, todo o risco, e, com eles, a paixão.
 
Esse tesão é nosso impulso fundamental de conquistar o inconquistável. É nosso impulso vital fundamental. Uma economia mental, que vira moeda, que está nos países, nas fronteiras, mas também nos corações, e na alquimia fantasmagórica, quase mística, entre um homem e uma mulher.
 
 
 

foto: robert doisneau


 
 

Mas o encanto, o fascínio da atitude feminina, encontra seu ponto fulcral no fato de ser, em última instância, inconquistável. Existe um templo, dentro de si, cuja paixão, mesmo o último, o mais sincero e terno dos escolhidos, não possui a chave. Há sempre algo, no fundo de uma mulher, que lhe permanece exclusivo, próprio, intangível; que é tão seu que nem ela própria detém ou compreende.

 

“Parece, de fato, ser experiência geral do sentir masculino que a mulher – e justamente a mais profunda, a mais devotada, a mais inesgotável no seu encanto – preserva, nos mais apaixonados abandonos e ofertas, certo enigma último indecifrável, inconquistável”

 
A mulher supera, transcende ela mesma. Algo nela não se entende ou se controla. Esse algo inconquistável é ao mesmo tempo o que se busca, da parte masculina. É o seu encanto, donde, ao mesmo tempo, provém seu risco.
 

“Não surpreende, pois, que neste [o homem] surja a sensação de que algo se lhe mantém oculto, que interprete o sentimento de o não possuir, como se não lhe tivesse sido dado. Este fenômeno de uma reserva – seja qual for a sua origem – apresenta-se como uma misteriosa compenetração do sim e do não, do dar e do negar, na qual a coqueteria se encontra, de certo modo, preformada. Esta ‘semiocultação’ da mulher, que expressa a sua mais profunda relação com o homem, é acolhida com plena consciência pela coqueteria”

 
Daí o fascínio do olhar insinuante, por trás do véu perfilado. Como se a ligação com ela passasse por pequenos orifícios, não obstante numerosos, transmitindo com a luz inúmeros pacotes de oferta, de paixão, de “sim”, permeados ao mesmo tempo por inúmeros pequenos obstáculos.
 

É evidente, é claro, algo que é só não posse, somente recusa, somente “não”, não produz amor; ele finda, chega ao término, assim não sustenta a relação. O amor também é entrega, “sim”, afirmação. Tudo reside no equilíbrio, embora fugidio, entre a oferta e a recusa, entre o sim e o não.

 

“o coquetismo cessa em cada decisão definitiva; e a soberana mestria da sua arte revela-se na cercania de uma resolução última, a que ele se expõe, mas para a deixar, no entanto, oscilar a cada momento, em virtude do seu contrário”

 
 
 

foto: mark hanauer


 
 

E, por fim, o fato de a coqueteria, como o amor, não ter fim. É um fim em si mesmo; é o fascínio pelo percurso, pelo meio, pela troca em si. Um interesse desinteressado.

 

“a coquete comporta-se exatamente como se apenas se interessasse pelo seu parceiro, como se os seus atos tivessem de desembocar sempre na plenitude de um abandono. Mas este sentido finalista e, por assim dizer, lógico do seu agir não é, todavia, o que ela tem em mente, porque deixa flutuar no ar os seus atos, sem deles extrair qualquer consequência, e dá-lhes um fim de todo diferente: agradar, subjugar, ser desejada -, sem deixar, porém, que se tome a sério a sua palavra. Ela comporta-se de um modo plenamente ‘finalista’; mas rejeita o ‘fim’ a que essa conduta deveria conduzir na realidade, leva-o a eclipsar no prazer puramente subjetivo do jogo”

 
É assim, afinal, que o próprio homem pode libertar-se das maiores tensões do jogo do amor: agir sem finalidade.
 

“As consequências da conduta do coquetismo – à firmeza interior da coquete correspondia a incerteza e o desenraizamento do homem e, muitas vezes, um abandono desesperado a um talvez – convertem-se aqui inteiramente no seu contrário. Quando o homem já nada deseja além deste estádio, a convicção de que a coquete não toma as coisas a sério dá-lhe, perante ela, uma certa segurança. Não desejando o sim e sem recear o não, considerando indignas de atenção as eventuais recusas ao seu anseio, o homem pode entregar-se mais amplamente ao encanto desse jogo de que quando deseja, ou porventura também receia, que o caminho empreendido leve alguma vez ao seu termo”

 
Um fim sem fim. Uma finalidade em que o objetivo é não atingir o ponto final. Entendendo isso – o que a mulher, por si mesma, já sabe, mesmo sem o saber – o homem pode não apenas libertar-se das armadilhas desta interação lúdica, ao prender-se ao fim da conquista final, mas gozá-lo ao máximo, e, assim, multiplicar sua paixão e seu amor por seu objeto de desejo. O jogo do amor passa então a ser um jogo em que não importa seu termo, não importa ganhar ou perder, mas desfrutar, participar, viver e compartilhar.
 
O amor é, pois, lúdico, ele é cultura pura, puro anelo, coisa psíquica, propriamente humana, que há dentro, em cada e entre as pessoas. Simmel nos ajuda não apenas a compreendê-lo, mas a vivenciá-lo.
 

“E se um elemento tão trágico da vida pode revestir esta forma lúdica, oscilante e que a nada compromete, a forma, em suma, que chamamos namoriscar com as coisas – compreendemos bem que esta forma obtém o seu mais típico e mais puro cumprimento justamente na relação dos sexos, nessa relação que encobre já em si o vínculo talvez mais obscuro e trágico da vida sob a forma da sua máxima embriaguez e do mais fulgurante encanto”

 
 
 

arte: gustav klimt


 
 

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