A sobrevivente e outras anotações

 
 
Faz tempo que eu queria postar algumas coisas, mas as forças malignas no meu interior (propriedades externas à definição da minha pessoa e personalidade, por óbvio) não permitiram. Não gosto – alguém gosta? – de colchas de retalhos – sim, alguém gosta; alguém sempre gosta – mas não posso não dizer o que eu queria dizer. Embora insignificante, ou quase.
 
(Sim, eu tenho autoestima; reconheço que digo coisas significativas. Mas é a obsessão. Se almejas 100, mas fazes 10, pode ser socialmente bom fazer 5, mas ainda assim estarás insatisfeito. D E F A S A G E M. Lembremo-nos sempre disto: um trabalhador mediano pode ser mais feliz que René Descartes e toda a gangue dos gigantes de todos os tempos, juntos. T R A G É D I A. Lembremo-nos disso. A defasagem é acompanhada da tragédia, entre elas havendo tudo aquilo, da insatisfação à frustração, de colorações mistas. E disto: (não, isto eu não vou dizer. Ainda.)
 
Deve fazer uns dois meses. (Por alguma razão, tudo aquilo que me esqueço e a que me refiro mais tarde, ou que lembro cedo ou tarde, como neste instante, faz “dois ou três meses”. Deve ser o prazo de validade da minha memória de curto prazo, eu especulo.) Voltemos. Dois meses. Bem, espere. É possível determinar a origem do evento a que me refiro, o momento do fato que agora me lembro, quero dizer, da foto da flor. Vinte de agosto de 2011. Sete semanas e três dias atrás. Nossa, são realmente quase dois meses. Não sei se acertei assim das outras vezes – é mesmo verdadeiro eu me lembrar de coisas de “dois ou três meses atrás”. Pode ser algo na minha memória que destaque a importância das memórias com dois ou três meses. Sim, eu sei, leitor, não precisa me lembrar. Algum maluco de Harvard já descobriu que este é o tempo necessário para que o cérebro selecione as memórias mais importantes e as transfira para as regiões adequadas do lobo temporal medial. Eu especulo. E também sei que algum grande escritor já descobriu o significado por trás disso. Mas eu simplesmente não sei, daí resignando-me com a curiosidade pungente da coincidência.
 
Uma amiga me deu flores. Variavam em tons de vermelho, bordô e grená. Eu as armazenei em um vaso floral, herança da vovó. Não me lembro exatamente quantas, mas eram por volta de meia-dúzia. Era a mesma água e o mesmo vaso; todas ocupavam o mesmo local no mundo, submetidas às mesmas condições, as mesmas forças atuantes. A mesma luz, o mesmo ar. A mesma espécie. Mas em pouco tempo todas – exceto uma – morreram. Pouco tempo são uns três ou quatro dias. Retirei-as do vaso e vi que o caule estava intumescido, deliquescendo, envolvido por uma espécie de musgo, que subia até depois de sua metade. Mas aquela, não. Havia apenas pequenos sinais do fim, na extremidade do caule, mas a saúde geral era ótima. Parecia exatamente como a havia recebido. Eu mantive essa flor, que passou a sobreviver sozinha no vaso. Tirei essa foto duas semanas depois, isto é, no vinte de agosto de 2011. Duas, duas semanas! Algumas pétalas murchas, sim, e alguma assimetria na copa denunciam os sinais de cansaço. Mas lá estava, relativamente saudável, três vezes mais duradoura que as irmãs.
 
 

 
Por um lado, o mundo é injusto. Uma só poderia ter morrido precoce. Ou pelo menos sobrado outra, para afastar a solidão. Por outro, o mundo é fascinante, porque algo ou alguém sempre perdura, não importando as condições.
 
Ela sobreviveu mais uma semana, e enfim se foi. Não tirei mais fotos, não apenas por preguiça, mas porque quis louvá-la por seus esforços e singularidade, mostrando-a ainda em seu relativo esplendor.
 
Bonita, não?
 
Eu iria escrever sobre algumas outras coisas agora, em especial uma imagem, uma lembrança, daquelas queimadas, mas que lampejam e se repetem esporadicamente, acontecendo novamente, atualizando-se no cotidiano, lembrando-te de meditar sobre elas, tanto mais quanto mais te esforças para esquecê-las ou não se importar com elas. Estou com preguiça agora. Mas escreverei, all right, eu vou.
 
See ya.
 
F.
 
 

Um comentário sobre “A sobrevivente e outras anotações

  1. Estas flores lindas chama-se gérberas, tanto Dona Erica quanto Erily as cultivavam em frente à casa, ao lado da rua na subida do morro, chegando na garagem.
    Sempre amei estas flores abertas, cada qual de uma cor diferente das demais.
    Uma casa com flores tem vida. Admirar, permitir, entender, cuidar e receber a beleza da flor em troca, é amar.
    Uma flor acompanhou você por mais tempo, ela teve esta ventura, você teve este privilégio…
    bjx
    Mamita

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