Mr. Shoes, Botines e os prodígios e vertigens da analogia

 
 
Este post inicia reclamando da realidade e daquilo ou daquele (ou daquela) por ela responsável. Entendo que deveria me envergonhar dos motivos dos meus protestos; mas o déspota dentro de mim (nós) faz as expectativas ajustarem-se às possibilidades, mantendo-se eternamente insatisfeito, querendo sempre mais até achar defeitos em todos os sete céus.
 
Eu já disse que tenho uma habilidade, da qual não me orgulho, de nos dias chuvosos pisar nos exatos quadrados onde as circunstâncias materiais fazem a água suja esguichar sobre meus sapatos e parte inferior das calças. Essa tendência agravou-se nos últimos tempos, provavelmente há dois ou três meses (são sempre “dois ou três meses”; que diabos…). Dois pares de sapatos pretos, especialmente. Sempre com eles. A correlação entre usá-los e chover é algo entre alta e altíssima (segundo o “Q” de Yule), estou certo. Hoje não foi diferente.
 
Tive dois compromissos. Depois do primeiro, retornando à toca, pisei em um paralelepípedo cujas ondulações fizeram arrastar areia molhada na ponta de um desses meus sapatos. Isso me irritou um pouco; cheguei a elaborar um grunhido, mas que saiu uma pontual gargalhada. (É socialmente melhor assim; e contribui para a fama de louco.) Quando sujo os sapatos, esses dois pares, que são o objeto deste post, levo-os até a área de serviço (“lavação”, segundo o dialeto do nordeste catarinense) e deixo-os em baixo do armário. Ficam lá esperando que eu reúna a disposição necessária para limpá-los e poli-los, o que normalmente demora algum tempo – e assim acabo usando menos esses sapatos. Pois bem, os acomodei em seu recinto de praxe; esperando que sejam algo felizes ali. Sendo um dia chuvoso, calcei o outro par; o outro que sempre uso em dias de chuva; mas não porque chove, pois decido antecipadamente que os usaria antes de chover. Logo saí novamente de casa, rumo ao outro compromisso. (O dia não foi muito produtivo hoje, em virtude desses compromissos. Poderia haver dois Fernandos no mundo [ou um só, verdadeiramente ascético]). Voltando dele, eis que piso numa pedra solta (as calçadas curitibanas são em geral constituídas por pedras quadradas com mais ou menos 15 por 15 centímetros, todas devidamente mal polidas e irregulares). E ela não estava apenas solta, como havia acumulado um punhado de água em sua base, separando-a da terra. Uma espécie de boia rochosa fingindo ser calçada. Eu adoro outliers – sem querer – e claro, escrito assim nas estrelas, iria pisar nela. Quando o fiz, a água represada, reagindo à pressão externa, jorrou através das arestas da pedra e lambuzaram meu outro par de sapatos, os que também são sempre molhados e estão sempre na lavação, fazendo companhia ao primeiro. (Adoro quando as leis da física operam contra mim; a gente só se lembra das leis do real quando elas conspiram contra nós; daí os intelectuais tanto detestarem-nas.) (Estou com preguiça de dar um nome a eles. Se eu usasse nomes, simplificaria o texto e tudo ficaria bem mais claro; o leitor economizaria energia de valor inestimável, que certamente fará falta algum dia à frente. Certo. Então, diabos, que seja no final do post. Um poderia ser Mr. Shoes e o outro Botines; mas é preciso meditar mais sobre o assunto.)
 
A única grande revolução é que minha raiva me fez limpar logo ambos; embora não tenha sido suficiente para retirá-los da lavação.
 
Isso tudo me instigou algumas ideias. Fiz uma associação entre essas tendências imanentes zombeteiras e os rótulos dos meus azeites; e entre eles e a miséria do mundo. Não somente a material. E entre isto e as incertezas e o caos, as de Heisenberg, mas não apenas. Analogias de fazer arrepiar até os pentelhos de mano Deleuze e companhia. Mas acabei por me prolongar demais falando dos sapatos. Falarei sobre isso amanhã, ou depois; em breve, eu prometo.
 
Até mais.
 
F.
 
P.S.: postei alguma coisa, buahahahaha.
 
 

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