o temível insight entre os sapatos de Hanzo e os gigantes de Nietzsche

 
 
Houve uma intensa articulação de eventos do sábado para o domingo atual que me desencadearam um estado de hiperestímulo mental. Mal consegui dormir e sinto ou temo que cheguei ao que buscava desde que passei a pensar seriamente, o que em meu tempo de vida atual já constitui um período de extensão considerável. Eu diria entre seis a oito anos; regredindo a partir dos 26 anos atuais. (Embora talvez fosse matematicamente mais exato arrendondar para 27. Meu deus. Vinte e sete.) Elaborei alguns esboços, ciente das advertências de Nietzsche, de que apenas um punhado de gigantes produzem ideias realmente importantes, bastando ao resto da plebe a reprodução mimética – e na melhor das hipóteses; quando não a articulação de um imenso novelo de ideias incompatíveis, expressões dúbias e objetos inexistentes, até que outro iluminado recoloque alguma ordem no caos. Escrevo menos em homo sapiens por esse motivo. Eu sou um membro da plebe que por ventura (mônada?!?) trombou com uma lupa cuja lente me denuncia o que é plebeu e o que é realeza na maior parte da produção douta, a despeito da especialidade do profissional do intelecto em questão, do literato que confia em sua intuição perspicaz ao maior dos centuriões do positivismo lógico. Essa espécie de lente é uma sensação, muito difícil de descrever, mas próximo daquilo que o senso comum chama de “intuição”, as mulheres de “intuição feminina” e os místicos de “sexto sentido”. É um incômodo, uma leve porém aguda sensação de sufocamento, articulada a uma leve porém aguda pressão no peito. Também fico um pouco ansioso. Minha sina, e talvez a principal sina da humanidade, nós já sabemos, é a de ter os olhos e as lentes capazes de enxergar o horizonte distante, mas não a madeira, o metal, a perícia e o insight necessários para conduzir-nos até lá. (A incapacidade de descrever adequadamente essa sensação de impotência é ironicamente elemento e prova da própria impotência. Simplesmente demais.)
 
Apesar de tudo isso, há caos no campo, no mundo e nas coisas; e se pinçarmos vozes brilhantes aqui e acolá e as difundirmos em um conjunto coerente de grandes ideias – ainda que não as nossas – já estaremos diminuindo o quantum de entropia no Universo e, com ela, o sofrimento. Está ótimo. Fiz os esboços, portanto. Precisarei correr atrás das referências apropriadas, para que isso se torne um pensamento de substância espessa. Talvez eu o desenvolva inicialmente em homo sapiens.
 
Mas o tema deste post não é nada do que precede. (Minhas reviravoltas e indecisões devem ser os principais culpados por meu número reduzido de leitores; embora ame toda a meia-dúzia deles.) É na realidade algo bem simples. Eu vi um filme tosco hoje, o “Predators”. É uma espécie de releitura do primeiro e cráaassico “Predator”, de 1987, com o Rei Arnold. Mas ainda assim tosco, como o próprio cinema hollywoodiano depois da queda do Muro. Mas ele vale apenas por uma cena, cena esta que vale entrada em algum fichamento de filosofia, oriundo daí o motivo de valer por todo o filme. 
 
 

meet hanzo


 

Um dos membros do grupo de caçados pelos predadores é um japa, membro da Yakuza (óbvio). Ele segue todos os arquétipos do japa disciplinado, como um verdadeiro samurai. Logo em suas primeiras aparições, ele é jogado de súbito no meio de uma selva. Ele veste traje social de elegância sutil e refinamento aristocrático. Ele tenta então caminhar, quando pisa numa espécie de lama grudenta. A câmera dá um close nos seus sapatos prateados, provável espécime Prada. Hanzo, o Yakuza, então calmamente encara o sapato e com uma calma maior ainda desenlaça suavemente os cadarços e apoia seus pés nus sobre a lama imunda, pronto para caminhar incólume sobre o solo brutalizado da mata. Ele demora dois segundos para tomar a decisão. Ele pensa, ele faz. Não há ruídos. A realidade constrange, Hanzo se ajusta. E isto não é mau. Simplesmente é. É essa clareza de pensar e sentir, essa clara resolução e essa confiança indiscutível que chamam a atenção. O ajustar-se aos fatos, como correnteza colidindo com suavidade nas rochas e desviando-as com graça e destreza – até mesmo o obstáculo do fim derradeiro. Hanzo não teme a morte; se é assim, assim deve ser.
 
 

kisama! lama nos prada de hanzo


 

pés descalços


 

hanzo, ready to go


 

Clap clap clap, palmas pro Hanzo. É essa clareza que faz o pensamento do gigante. Hanzo, pés descalços. Pés na imundice da terra, a cabeça nos céus. Quem não nasce Hanzo, precisa apoiar-se sobre os seus ombros, e assim enxergar tão ou mais longe.
 
Até mais.
 
F.
 
P.S.: “Hanzo” é o nome de um personagem clássico do clássico jogo de luta “Samurai Shodown”, lançado originalmente no Neo Geo, além dos arcades, em meados da década de noventa (tempos áureos…). Não duvido que haja uma referência oculta.
 
 

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