dez razões para escrever, segundo o mano Barthes; e algumas palmadas no bumbum

 
 
Estou com uma preguiça descomunal de escrever ultimamente. Tanto que comi a vírgula necessária para evitar a ambiguidade de 1) ter preguiça de escrever a palavra “ultimamente” ou 2) ter preguiça de, ultimamente, escrever. Por isso, trombei com uns escritos (de rodapé, de testículo de internete, leitura rápida, bem entendido) do Roland Barthes, um filósofo francês que escreveu bastante sobre semiologia e coisas análogas. Tendo escrito bastante, o senhor Barthes tem uma propriedade particular para puxar as orelhas de preguiçosos de plantão, como este que voz fala.
 
(Tudo bem, ao contrário dos franceses, especialmente dos escritores franceses, eu posso dizer que não sou nem francês, nem escritor, e assim poderia justificar em alguns milésimos a minha preguiça literária. É só sociografia envergonhada. Tudo bem. Mas para justificar a preguiça com um mínimo de rigor aceitável – pois apenas com rigor aceitável justifica-se o pecado – só mesmo sofisticada neurociência harvardiana, para a qual seriam necessárias doses tolstoianas de sudorese e horas de labuta hebreia, isto é, para justificar a preguiça seria necessário não ser preguiçoso; assim, não resta outra saída além de deixar a preguiça de lado. Eu mancho a honra do protestantismo alemão.)
 
Pois é isso o que o senhor Barthes fez, em um desses testículos de internete – embora faça parte de uma obra interessantíssima, mas cujo estatuto de obra interessantíssima implica evidentemente algumas centenas de páginas reunidas em devida brochura. Barthes proferiu os dez mandamentos do escritor, por assim dizer, e se Moisés deixar, isto é, e que Moisés me perdoe. São mandamentos que todo pretenso profissional das ideias deveria cravar em pedra e colocar do lado da escrivaninha. (Se tu és um aristocrata rebelde podes suprimir o “profissional” e chamar-te somente de “escritor” ou “poeta” – ou melhor ainda, apenas de Ti, de Tu, inclassificável, irredutível, anímico, anistórico, e reificar para sempre a tua infância eterna – mas não te esqueça e atente aos juros das tuas rendas com zelo judeu, já que papai e mamãe, ao contrário de Ti, são feitos de carne e osso e assim terão fim).
 
Eis:
 

DEZ RAZÕES PARA ESCREVER

 

1. por necessidade de prazer que, como se sabe, não deixa de ter alguma relação com o encantamento erótico;
 
2. porque a escrita descentra a fala, o indivíduo, a pessoa, realiza um trabalho cuja origem é indiscernível;
 
3. para pôr em prática um “dom”, satisfazer uma atividade instintiva, marcar uma diferença;
 
4. para ser reconhecido, gratificado, amado, contestado, constatado;
 
5. para cumprir tarefas ideológicas ou contra-ideológicas;
 
6. para obedecer às injunções de uma tipologia secreta, de uma distribuição guerreira, de uma avaliação permanente;
 
7. para satisfazer amigos, irritar inimigos;
 
8. para contribuir para fissurar o sistema simbólico de nossa sociedade;
 
9. para produzir sentidos novos, ou seja, forças novas, apoderar-me das coisas de um modo novo, abalar e modificar a subjugação dos sentidos;
 
10. finalmente, como resultado da multiplicidade e da contradição deliberadas dessas razões, para burlar a ideia, o ídolo, o fetiche da Determinação Única, da Causa (causalidade e “boa causa”) e credenciar assim o valor superior de uma atividade pluralista, sem causalidade, finalidade nem generalidade, como o é o próprio texto.

 
Extraído de: Roland Barthes, Inéditos. V. 1, “Teoria”. São Paulo: Martins Fontes, 2004, p. 101-102.
 
É chibata no loooooombo, cumpádi!
 
Agora com licença, preciso endividar-me com uns livros (caros) do senhor Barthes. (Espero lê-los.) (Não se tem, é claro, preguiça para comprar coisas.) [Espero que os filhos do senhor Barthes estejam aproveitando bem as altas cifras do trabalho do pai – lá em Montmartre, recitando P-O-E-S-I-A, cercados de vinho, orgia, letras e ócio. Ah, o que riqueza não compra! – até a negação narcisística e aristocrática dela mesma!] [Assim como espero que ele próprio tenha gozado, pois sabe-se bem como todo parisiense rico até certo ponto se considera o verdadeiro Criador do Universo. É tudo uma questão de ponto de vista, isto é, do meu ponto de vista.]
 
Lembrem-se dos mandamentos do Pai e honrem as suas eventuais chibatadas. Doooooooooze no lombo, já!
 
Até mais.
 
F.
 
 

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