alguns contos selecionados + comentários

 
 
Garimpei os seguintes contos na última edição da Folha. São do Maurício Paroni de Castro, um dramaturgo nacionalmente famoso. Muito legais. A seguir teço alguns comentários possivelmente interessantes. (Certo, eu acho que são interessantes.)
 
 

A LINHA DO PROSCÊNIO
 
No final da apresentação de abertura do Festival Internacional de Microdramaturgia, a cortina desceu depois de dois minutos. Um ator ficou “preso” no proscênio.
Silêncio.
Sem saber o que fazer diante do vexame, disse o que lhe veio à cabeça.
-Fim da tortura.
Gargalhada seguida de aplauso. Encabulado, o ator se escondeu atrás da cortina fechada. Todos os outros perguntavam o que havia dito para receber o aplauso.
 
Pausa.
-Disse a verdade onde se mente.
Pausa.
-Atrás da cortina há sempre um ator. Mesmo sendo o público.
Silêncio.
 
AMOR FONÉTICO
 
O marido a cercava de sussurros e presentes. Brincava horas e horas com os filhos. Quebrava o tédio ao embarcar para qualquer cidade europeia em que havia uma loja Ikea. Perambulava, obsessiva, pelas mercadorias expostas batizadas com aqueles nomes: bicicleta Leif; panela Lisbet; cortina Gunnhild; abajur Jørgen; sofá Magnus; cama Svenson; travesseiro Bjørn. Grisalha, atraente, fazia-se acompanhar -e oferecer- iguarias suecas do restaurante da loja.
Encenava, com compulsividade ritual, a lacrimosa confissão de ter destruído a reputação do marido: cometera um crime de falsidade ideológica para salvá-lo da ruína econômica. Era uma Nora de Moema que curava ressaca emocional na caça de afinidades eletivas. A armadilha era pedir ao acompanhante a pronúncia de seu nome. Uma vez identificado um suposto anel escandinavo -å- na sua grafia, estava eleito o amante ocasional.
-Einar.
Pausa.
-Leif.
Pausa.
Håvard.
-Would you be so kind to spell it for me?
Pausa.
-H-å-v-a-r-d
Silêncio.
 
A BALADA DE ELECTRA
 
O sessentão se divertia numa casa de swing. No labirinto, penetrava misteriosas fendas de parede com as mãos. Suava. Tocava corpos desconhecidos do lado oposto. Eletrizado, ouviu suspiros mais consistentes.
Pausa.
Voz familiar.
Pausa.
Buscou coragem para olhar atrás da treliça. Viu a sua filha.
Silêncio.
 
VÍTIMAS DE GUERRA
 
A maître de balé trabalhava no programa de dança para deficientes físicos da União Europeia. Bélgica, Théâtre Royal de la Monnaie. Entusiasmada, era severa com a delicadeza dos braços. Acreditava atenuar o sofrimento moral das bailarinas mutiladas no bombardeio de um teatro, ocorrido alguns anos antes na ex-Iugoslávia.
-Mais sutileza! Vamos!
Pausa.
-É um adágio! Sintam a música! Você, no fundo Dobrar a mão, jamais! Não vejo a tua mão!
Silêncio.
 
CASANOVA NEGRO
 
Entretinha turistas perto da antiga prisão de Praga. Encapuçado, brandia um manchil de açougueiro com o corte cego. Explorava a sensação do jazer indefeso com a cabeça no tronco diante daquela figura, atenuada pelo fato de que o rapaz era negro e não usava luvas. Na Praga do século 17 não havia carrascos negros. A garoa rala banhava a cidade. Uma russa se apaixonou pela cena. Convidou o carrasco para beber cerveja.
Pausa.
Tropeçavam risonhos pelo calçamento. Apoiaram-se a um muro. Houve sexo intenso e fugaz perto das lápides amontoadas do cemitério judaico.
Silêncio.
 
O MESTRE
 
Tadeusz Kantor estava muito aborrecido. Nada funcionava naquela criação. Aos berros, expulsou da sala de ensaio todos os presentes. Queria solidão.
Pausa.
O esqueleto de cena não se mexia. Insultou-o longamente.
Pausa.
Diante da insolência, agrediu-o até que se reduzisse a um monte de ossos.
Silêncio.
 
ENTREVISTA
 
-Mr. Pinter, poderia elucidar de uma vez por todas a maior questão de sua obra: o que diferencia a pausa do silêncio?
Pausa.
-Nada. Deve-se contar até três quando for pausa. No silêncio, conte até cinco.
Silêncio.

 
 
A descrição da paixonite súbita da moça encantada com coisas nórdicas, em “Amor Fonético” é psicologicamente genial. É um átomo das forças e tendências que geram vínculos afetivos a partir de idiossincrasias arbitrárias, cuja variação absoluta deve ser infinita. Provavelmente limitada apenas pelos limites do que pode ser imaginado. Está claro a mim que qualquer coisa pode virar objeto de valor e apreciação. E, portanto, um guia para a prática e a conduta da vida. Milhões de bilhões de paixões e desgostos, contidos em milhões de bilhões de visões e formas de vida; não obstante feitos de matérias-primas comuns. Sendo o espectro de possibilidades assim tão amplo, é certo que são proporcionalmente amplos os motivos para desencadear a paixão e o amor, assim como seus inversos, e assim como também provavelmente outros sentimentos e formas de intersubjetividade.
 
Eu imagino alguém, um colecionador de selos postais, que se apaixone pela autora de uma carta cujo selo é aquela raridade especial. Ou um homem que se atraia por aquela mulher, precisamente ela, pela linha vertical separando seu lábio inferior em dois pólos protuberantes; coisa que outra meia-dúzia veria como um defeito e outros milhões sequer perceberiam. Preciosismos e idiossincrasias sutis, que retumbam aos olhos daquele predisposto para reconhecê-los – e assim, ao fazê-lo, efetivamente fazendo a peculiaridade, o fato simbólico, mental e afetivo, existir.
 
E assim cria-se o valor, não é mesmo. Uma infinita miríade de possibilidades se interpenetrando, de olhares cruzados, suspiros, frustrações e satisfações intensas, entrecortadas por fugacidades. É isso, precisamente, a humanidade.
 
Os contos são realmente preciosos para descrever todo esse mecanismo sutil, porém denso, que há nas e entre as pessoas. É psico e sociologia básica, aplicada, vislumbrável, palpável e, especialmente, apaixonante.
 
Até.
 
F.
 

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