fragmentos I

 
 
acabei postando aqui também. caso contrário se perde, e já se perde demais.
 
25.dez.2011
 
algumas observações pré e pós natalinas. por algum motivo eu não postei em “homo sapiens” [o meu blog]. talvez alguém “curta”, especialmente o terceiro tópico, obviamente o mais longo. embora a probabilidade de aborrecer seja nove vezes maior.
 
i) quando fecho os olhos às vezes vejo uma espécie de fenda, como uma galáxia espiral vista de lado tombada na horizontal, que se expande como um cogumelo nuclear.
 
ii) como impressões sensoriais e sensações difusas podem ser qualquer coisa, alguém poderia alegar fundos e colorações eróticas em “fendas” que explodem em “cogumelos nucleares”; outros veriam sinais astrológicos; outros apenas ócio demasiado, etc. etc.
 
iii) durante compras protocolares dos alimentos da ceia avistei uma loja com aquários expostos, de peixes cuja função em vida é embelezar as nossas habitações, em vez de povoar os nossos estômagos. (são pequenos e belos.) mas eles não sabem disso. eu me aproximei de um aquário com peixinhos minúsculos e esguios como fragmentos de capim. eles eram azuis e tinham uma linha vermelha cortando-os da cabeça à cauda. brilhavam e o contraste entre o vermelho e o azul de suas escamas me atraiu os pensamentos e o olhar. o fundo do aquário era negro e borbulhavam aquelas esferas de ar. então, por algum motivo, eu me aproximei e travei o olhar com o nariz colado no vidro, o que fez o campo de visão praticamente restringir-se ao aquário. os peixes eram às centenas e pareciam nuvens de cometas anis carmesins cortando o espaço sideral. eu reparei que o pequeno cardume então movimentava-se dentro de um padrão, seguindo a microcorrenteza no interior do aquário. moviam-se em um circuito de “8” tombado, como o símbolo do infinito, em sentido horário. cada indivíduo então deslizava sobre o próprio eixo, movimentando-se para manter-se no ritmo, naquela pequena dança cósmico-aquática. mas a física não interessa agora. era simplesmente hipnotizante, belo e aterrador. por algum outro motivo, isto é, por pena, talvez por identificação, reparei em um “outlier”, um mutilado, um excluído. havia um peixinho excluído da dança, posicionado acima no aquário, quase boiando, a poucos dedos da superfície. pendia absolutamente só. então reparei que ele não tinha barbatana alguma na cauda. destituído de cauda. isto é, de força, e de algum movimento. então, afinal, vislumbrei certo horror (isto é, insignificância) no pequeno universo celestial. ele flutuava separado (1) porque não tinha forças para submergir mais profundamente; (2) seus comparsas provavelmente o comeriam. ou ambos. é comum o grupo de piscianos canibalizar os desafortunados. a falta de barbatana fazia-o “saber” que deveria manter-se às margens. como uma estrela anã sem o combustível necessário para brilhar como as demais e encher o céu de glória. ele nasceu para morrer. a sua função é devanescer. não obstante, ele é vida. e assim foi. foi uma visão impressionante. deveria ser reproduzida. (está tudo bem se algum artista roubar a ideia. contento-me com os créditos do coração.) saí dali pelos corredores dos quiosques e das vendas, e tudo pareceu o mesmo circuito, num outro cosmos. ampliado, enésimas vezes maior, mas essencialmente o mesmo. isso tudo, essa capacidade toda de sentir e expressar pode seduzir peixes no aquário; eles podem achar que são algo mais, algo demais. o processo inteiro começou a ficar perigoso, e lá dentro apertei o botão de “desliga”. digo, fiquemos somente com a visão etérea, o vermelho e o azul, o fundo negro, os cometas deslizantes, pois, entre outros motivos, é natal. apesar dos ruídos. é natal.
 
Até.
 
F.
 
 

2 comentários sobre “fragmentos I

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