fragmentos II. manchas escuras nos mares contemplativos

 
 
Fui-me coberto de ócio a um retiro familiar no litoral norte de São Paulo passar alguns dias com a companhia do mar na transição de 2011 para 2012. Não registrei estes fragmentos em homo sapiens por lá não ter acesso à rede; apesar das mazelas algo em si mesmo bastante proveitoso. Registrei-os tarde demais, já fora do espírito vacante do período de festas de fim de ano. A sociedade morre e renasce em poucos dias, embora para continuar essencialmente a mesma. Eu também tive meus votos de revolução que se revelaram só mais uma artimanha dos elementos conservadores dentro de mim. A gente não muda quando quer. Mas o ócio das férias de verão semeia algumas possibilidades de momentos perenes de contemplação, quando abaixam as armaduras e as lanças afiadas que compõem a maior parte de nós quando estamos sãos e conscientes e o indivíduo permite-se observar seu universo, e nestes poucos instantes amalgamar-se com ele.
 
O mar é composto de água e a água é o elemento da meditação e do esclarecimento; suas propriedades se parecem aos olhos alguma coisa de nobre e intangível; nos quatro cantos do mundo imagina-se o “espírito” como puro, assim o aspecto imaculado da água aproxima-a dos maiores ideais. Ao mesmo tempo, o olhar que se perde no infinito e o mistério desse mundo alternativo que é o oceano seduz muitos seres humanos. Uma moradora do conjunto habitacional onde fiquei teve seu momento de intimidade com essas coisas marinas e eu tive a sorte de presenciar o momento. Ela parou ao lado da mureta do condomínio e colocou-se a observar a perspectiva do mar. Ela paralisou-se de calma e paz como se a vastidão da paisagem preenchesse todos os vazios dentro de si. Neste instante eu lia as aventuras do capitão Ahab; a paralisia contemplativa que a paisagem provocara na mulher pareceu para mim a materialização das palavras no livro. Eu tinha uma realidade literária nas mãos que era a mesma da realidade material ao alcance da vista. O que se vê, o que se lê e o que se pensa; tudo isso é uma coisa só; por mais abstrata que seja uma imagem mental ou uma frase, ela ainda assim faz parte da natureza; a natureza está nela; o olhar do observador já está no objeto. O mar em si; o mar para a mulher; o mar nos escritos; e eu vendo todos eles, assim vendo o meu mar.
 
 

 
No momento eu só a olhei como ela olhava o mar; e a paralisia me fez lembrar de registrar visualmente o momento tarde demais. Eu teria de sair daquele estado para lembrar de fotografá-la; mas eu dependida dela da mesma forma que meu olhar sobre ela dependia do olhar dela sobre o mar; e assim só pude lembrar-me de registrá-la já tarde demais. Ela me viu ao fotografá-la com minha câmera improvisada de celular. É absurda a diferença entre um olhar vigiado e um olhar despido em plena comunhão com seu mundo exterior. Eu sou a sociedade para ela; ante mim ela precisa apresentar-se do modo socialmente aceito, seja como for. Ante mim ela não é ela, mas alguma persona produzida pela relação entre si e seu entorno social. Seus sucessos e seus fracassos; os acenos e as censuras; os sins e os nãos; as vitórias e as derrotas. Ela diante de mim é ela coberta de camadas e camadas de mantos e teias difusoras. Ela foi ela somente naqueles instantes em que estava ela, a brisa, o mar e o horizonte sem fim. Talvez ela seja ela também com as suas filhas, ou com o marido ou amante. Mas é ainda assim curioso. Como se a humanidade não fosse ela própria perante a própria humanidade; como se não o pudesse, por medo de si mesma. O olhar implacável do outro é mais ameaçador que as forças da natureza; para que a mulher seja ela mesma ela precisa assimilar-se, tornar-se uma só com quem a observa ou com o que ela interage; caso contrário seu ego erguerá uma muralha em torno de si e se armará contra as investidas externas, ainda que elas não existam. Nesta hora eu imagino um casal de amantes abraçados entre os escombros da antiga Pompeia, carbonizados pela lava do Vesúvio, como fósseis do amor derivado da eterna luta contra a natureza e o mais próximo. O calor que lhes torrou até os ossos, a tragédia absoluta da vida, a morte, o fim eterno, que extrai de dentro dessas almas atormentadas, as pessoas, o bicho homem, o amor que não conseguimos demonstrar de outro modo. Eu imagino meia-dúzia de crianças indígenas em círculo, trocando conchas em sentido horário, recitando canções no ritmo da troca. Eu imagino cartas de redenção escritas e nunca entregues; imagino acasos sem sentido que salvam vidas sem destino, como uma mensagem virtual por acidente enviada à pessoa errada, futura paixão para o resto da vida.
 
Mais tarde, vejo o filho e as duas filhas da mulher brincando de esconde-esconde na varanda do sobrado. A menina mais nova conta de olhos vendados apoiada numa das colunas de concreto e o menino não se esconde direito entre brinquedos jogados logo perto, debaixo de uma mesa, sendo facilmente descoberto. Ele perde antes mesmo do jogo começar e as meninas se orgulham do fato. Elas gritam de felicidade e o rosto do menino modifica-se por completo e perde toda a expressão. Ele claramente não tem mais controle de si e algo dentro dele assume o controle. É um impulso destrutivo; uma boca costurada, uma respiração ofegante e olhos homicidas. A expressão congela como a do predador e a caça. Ele agarra a menina pelo braço, a empurra e a joga ao chão com força já superior à dela. O ângulo da queda é grave o bastante para quebrá-la o tornozelo, mas por sorte ela se vira e cai de frente na grama, ferindo um dos ombros. A menina grita e, ferida e subjugada, não tem como revidar, exceto voltar-se a alguma instância superior. À ausência de Deus, e do Estado, a mãe. Após o ato de barbárie, o menino mantém a expressão de morte e animalidade desenhada na face até perceber que a irmã feriu-se por sua causa e que assim lhe paira a ameaça de possíveis represálias. O acordo tácito entre as consciências e os inconscientes já tem em si o futuro, inscrito nas tendências imanentes dos cérebros em concerto. A mãe é o passo seguinte na orquestração do poder e do caos. Retorna então certa humanidade ao rosto do menino; os olhos e a boca já adquirem algum movimento; a pele se contorce; ele agora parece atônito e surpreendido. Sua humanidade retorna para encobrir sua barbárie. Corre então à mãe para produzir a sua versão dos fatos. A outra irmã corre atrás para produzir a dela, enquanto a irmã menor esforça-se para colocar-se de pé e seguir os dois.
 
Essa é a formação da virilidade, a composição da agressividade, aqui especificamente masculina, ao mesmo tempo natural e culturalmente instigada – tanto mais quanto mais tirana a sua sociedade; agressividade que no futuro o menino irá cultivar sob novas formas e que a mesma menina que foi agora a sua vítima, será no futuro sua admiradora; agressividade que se expressará num olhar de força e numa postura implacável, que lhe renderão posições de privilégio em certa empresa ou organização. Esculpirá a sua personalidade conferindo-lhe os instrumentos para impor a sua vontade sobre a vontade alheia – e ser celebrado por isso. É com ela que ele acumulará seu prestígio, seduzirá mulheres e sobrepujará adversários. Ela se transformará em energia vital, em autoconfiança, em autoestima e em seu poder. E, em seu poder, a sua felicidade.
 
Como se a minha felicidade fosse a antítese da felicidade alheia. Como se fôssemos todos inversamente proporcionais.
 
No fim, o impulso para a morte e a destruição é o mesmo que lhe dará vida e do qual dependerá a sua afirmação pessoal e, com ela, a sua felicidade. E, eventualmente, o seu amor. Isto é, se a sua agressividade permitir-lhe amar; se ela for sublimada e processada o bastante para produzir os efeitos inversos; para gerar altruísmo no egoísmo; amor no ódio; vida no impulso para a morte.
 
Eu vejo essas cenas e imagino outras; e nelas se esclarece que há uma semelhança entre os momentos perenes de contemplação pura, com a natureza ou com o mais próximo: eles envolvem a supressão das fronteiras dentro do indivíduo; suprimem momentaneamente suas armas egoicas; ele torna-se um com o todo, e sem as divisões cede toda a luta, todo o conflito, toda a dor, e assim ele ama incondicionalmente. Entendo que entre nós, entre semelhantes, em vez de mares ou paisagens idílicas, esses são momentos controlados por tendências destrutivas; e que a vida só chegará a algum lugar se esses momentos deixarem de ser milésimos espalhados por entre as eras e tornarem-se o padrão da vida humana.
 
De alguma forma, a mulher precisa me olhar da mesma forma que olhou o horizonte airoso e aquático da massa oceânica à sua frente; eu devo parecer aos seus olhos tão confiável e imaculado quanto a água; e seus filhos devem trocar conchas e recitar canções quando perdem o jogo; e isso entre os empreendedores e os operários e entre o resto do mundo.
 
Paro de escrever os primeiros fragmentos da minha viagem. Houve ainda mais dois ou três eventos significativos dos quais falarei logo mais.
 
F.
 
 

3 comentários sobre “fragmentos II. manchas escuras nos mares contemplativos

  1. Alguns apenas olham, outros enxergam, outros registram, outros interpretam, outros compartilham. Todos te pertencem, querido filho. O respeito, a beleza, o companheirismo, o amor, a admiração, transcendem, transformam-te.

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