ao himalaia, segundo wislawa

 
 
Publicado na Folha de S. Paulo deste 5 de fevereiro.

 
 

DE UMA EXPEDIÇÃO NÃO REALIZADA AO HIMALAIA
 
Ah, então este é o Himalaia.
 
Montanhas correndo para a Lua.
 
O instante da largada fixado
 
no rasgar súbito do céu.
 
Deserto de nuvens perfurado.
 
Um golpe no nada.
 
Eco -uma branca mudez.
 
Silêncio.
 
Yeti, lá embaixo é quarta-feira
 
tem abecedário, pão
 
dois e dois são quatro
 
e a neve derrete.
 
Tem rosa amarela,
 
tão formosa, tão bela.
 
Yeti, nem só crimes
 
acontecem entre nós.
 
Yeti, nem todas as palavras
 
condenam à morte.
 
Herdamos a esperança –
 
o dom de esquecer.
 
Você vai ver como damos
 
à luz em meio a ruínas.
 
Yeti, temos Shakespeare lá,
 
Yeti, e violinos para tocar.
 
Yeti, ao cair da noite
 
acendemos a luz.
 
Aqui -nem lua nem terra
 
e a lágrima congela.
 
Ó Yeti meiolunar
 
pense, volte!
 
Entre as quatro paredes da avalanche
 
assim eu chamava pelo Yeti
 
batendo os pés para me aquecer
 
na neve
 
na eterna.

 
 
Disponível em “Poemas”, de Wislawa Szymborska, publicado pela Cia. das Letras.
 
 

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