sobre a maldade, um

 
 
falaremos sobre a maldade. de vez em quando, mas sistematicamente. primeiro: definição. o dicionário diz o seguinte:
 

n substantivo feminino
1 qualidade do que é mau; perversidade, malignidade, crueldade
Ex.: a m. era inerente à sua natureza
2 o que prejudica ou ofende; atitude má, perversa; crueldade, desumanidade
Ex.: fazer m. com animais
3 intenção maliciosa, que tende a denegrir; mordacidade
Ex.: comentou com m. o desempenho da atriz
4 Uso: informal.
gênio travesso; travessura, traquinice
Ex.: o guri derrubou a jarra por pura m.
5 Regionalismo: Rio Grande do Sul.
pus, esp. o que provém de ferida

 
a primeira definição é suficientemente abstrata para que não se entenda nada. a quarta, “informal”, é onde reside a verdade, e na verdade, o terror. a quarta, “informal”, simultaneamente multiplica e refina a maldade tornando-a atraente: a troça, a risadela, o gracejo, a galhofa, a chacota, o tapinha, a piada, a malícia, a trama, a provocação, o desvio, o controle, o samba, o jogo. perceba-se: a maldade supera e transcende a “qualidade de mau”. nossos lábios têm seu sabor e nossas entranhas a sua matéria. uma imensidão incomensurável; a maldade que é mais intensa quanto mais sutil. veneno na medida e os componentes certos é perfume. só nós, os bichos sofisticados, somos capazes de tanta peripécia: nós enfeitamos a maldade para justificar nossa irresistível atração por ela.
 
a primeira peripécia é que a maldade sempre nega a sua existência. e ela se nega em todo lugar, e ao negar-se, permite ser geral. é fácil, não é preciso fazer força; ela faz o serviço sozinha, com o mínimo de esforço mental. você vai negá-la, vai negá-la agora. a maldade está sempre no outro e é culpa do outro. e assim em todos está.
 
aqui reside uma tese antropológica geral: a cultura é um imenso enfeite para tornar tolerável o culto à maldade. isto é: a humanidade é o produto da dissimulação de nossa irresistível atração pelo mal. devemos apenas escolher o eufemismo apropriado. a maldade vem de brinde. não é preciso fazer esforço algum para perpetuá-la. não é preciso querer. a energia necessária é o mínimo denominador comum da ação. para perpetuar a maldade, basta agir. enquanto seres humano, tua ação terá como princípio a maldade.
 
mas a definição não presta, tampouco esta descrição sumária. a melhor descrição é aquela que arranca do inconsciente o significado objetivo das coisas. o que está efetivamente depositado nas mentes. é aí onde reside a verdade. ela existe na prática. portanto, partiremos numa longa e fascinante odisseia até o íntimo absoluto da maldade, começando com uma breve e prosaica definição visual.
 
 

 

 

 

 

 

 

 

[…]

 
mas no animal, tu ainda, eu ainda, nós ainda vemos a maldade fora, e assim espertamente nos excluímos dela. estará restrita aos responsáveis pela violência. o próximo passo é descobrir a maldade dentro de nós, até o ponto em que não houver mais para onde fugir.
 
até lá.
 
F.
 
 

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