Nós, aqui

 
 

 
A imagem acima é um fragmento do cérebro. Ela mostra 30 milhões de conexões entre 10 mil neurônios. O cérebro humano tem aproximadamente 100 bilhões de neurônios e seu número de conexões ainda não foi calculado. Ainda assim, somos irredutíveis ao número de conexões. As sinapses não equivalem ao número de conexões. Elas fluem dentro de combinações variáveis entre as conexões disponíveis. Por exemplo. Se temos três neurônios ou “nodos” conectados, A, B e C, temos três conexões: A-B, B-C e A-C. Contudo, são nove formas de percorrer essas três conexões. Uma sinapse pode seguir de A a B, A-B-C, A-C, B-A, B-A-C, B-C, C-A, C-B-A e C-B. As sinapses também combinam-se entre os vários percursos, ou seja, podem percorrer o caminho 1, 3 e 6 ou 8, 9 e 7 ou 5 e 7, para depois voltar a 1, 3 e 6 e depois seguir a 8, 1 e 2, e assim sucessivamente.
 
Isto é, há 900 trilhões de percursos possíveis em nosso fragmento de 10 mil neurônios. Há 100 bilhões deles. E o cérebro faz e desfaz conexões; modifica sensivelmente seu “comportamento” ao longo do tempo. Sua estrutura é dinâmica e adaptável.
 
[OK. Bufe e exclame um bom palavrão – o melhor que tiveres em mãos.]
 
Trata-se do pedaço de matéria entre as estruturas mais complexas conhecidas – a ciência compara a complexidade estrutural do cérebro à complexidade da singularidade, isto é, a forças físicas operantes em buracos negros ou no Big Bang.
 
Com base nesse grau de complexidade, é lícito assumir:
 
1) Toda a complexidade necessária para atribuir todo o sentido necessário à nossa própria consciência, tomada em toda sua totalidade; de nossos pensamentos, impressões, sensações, intuições, emoções; dos fenômenos psíquicos mais densos aos mais sutis; está tudo no cérebro. Não é preciso recorrer a qualquer mistificação, qualquer “espírito”, qualquer entidade exterior, qualquer plano extraterreno, qualquer “ordem autônoma”, qualquer entidade mental mais “elevada”.
 
A oposição entre mente e cérebro é falsa. Não existe plano das ideias. Não existe plano do Eu. Não existe o plano da cultura. A mente, as ideias, o Eu, a cultura vivida; está tudo aqui dentro, nesta caixa, nesta maravilha, neste horror, nesta coisa. O espírito é matéria. A sutileza está no real, não fora dele. Todas as forças necessárias para produzir a totalidade de nossa existência estão em nós – fisicamente.
 
2) Toda a grandeza do cosmos está na própria matéria e não há sentido científico em atribuir maior valor às “coisas do espírito” do que às “coisas do mundo”, porque tudo é mundo, tudo é matéria.
 
3) É a nossa consciência que é incapaz de apreender a complexidade do próprio cérebro, porque ela está no próprio cérebro e representa uma fração limitada deste. Ou seja, é como se 1% da entidade tentasse apreender os 100%, usando a capacidade cognitiva de 1% para lidar com complexidade cognitiva cem vezes maior. A consciência não pode observar o cérebro porque ela está no próprio cérebro. Ela usa uma fração das faculdades para apreender todas as faculdades. Como usar fragmentos de lupa para observar as partículas subatômicas de si mesma. Teríamos de sair de dentro dela – da consciência – e ainda nos faltariam as lentes que não dispomos. A totalidade do Eu, de nós, nos transcende, vai muito, muito além da nossa consciência e de qualquer pensamento ou sensação consciente, qualquer intenção, qualquer vontade. E é mais complexa.
 
Incapazes de nos entendermos e de atingir a unidade de consciência, precisamos recorrer a exaltações. A fração consciente do cérebro refugia-se em projeções ideais. É irônico. Como se parte do cérebro estivesse em desacordo com as demais, como um organismo incompleto em busca de um equilíbrio incapaz de atingir. Como se algumas sinapses decorressem porque algumas – as corretas, as adequadas, as necessárias – não pulsam! E, ao decorrerem, tornassem estas, as necessárias, mais improváveis.
 
Todo o valor, a beleza, a paixão, o horror, o poder, a mesquinhez, a elevação e a miséria de nossa humanidade estão na própria matéria; aí dentro, por trás dos olhos e disperso no sistema nervoso que nomeamos e classificamos com rótulos egoicos. Essa cápsula facilita-nos a vida e nos cega de toda a grandeza. Paradoxalmente, incompletos e incapazes, precisamos deles, e com eles permanecemos incompletos e incapazes. A ideia simplifica o real e acalenta os ruídos da “mente” trêmula, para permanecer perturbada.
 
Fulano, és a síntese de uma das coisas mais complexas presentes neste Universo. És algo muito além de tua consciência de si – e este algo muito além não está fora de ti e não é qualquer entidade imaterial que te transcende. Quem te transcende és tu mesmo. Tens aí toda a tua grandeza e toda a tua miséria; todo o teu horror e tua beleza, tu carregas dentro de ti.
 
Beep-beep!
 
F.
 
 

Um comentário sobre “Nós, aqui

  1. Interessante. Mas a sua conclusão materialista parece arbitrária.
    A complexidade do cérebro não é fator suficiente para comprovar que não existe nada além dele.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s