nanos gigantium humeris incidentes, ou, por que precisamos de gigantes

 
 

 
Talvez já tenhas ouvido essa expressão em algum lugar. É uma daquelas ideias que transcorrem os séculos. Fazem-no porque tocam e exprimem um gradiente extenso de nossa vida mental. Pode-se vertê-la por “apoiando-se sobre os ombros dos gigantes”. Não soa familiar? Talvez já a tenhas visto por aí, no entorno; numa inscrição casual em um caderno escolar; numa epígrafe; um componente em uma letra musical; o título de um disco de rock; títulos e subtítulos eruditos… Talvez ela soe familiar mesmo sem teres travado contato com ela. As ideias universais, ou as ideias de amplo alcance, são assim: elas retumbam em sentido porque parte significativa de nós, nossa carne e nosso Eu nelas ecoa, assumindo a forma de palavras, de uma imagem ou de uma melodia.
 

Standing on the shoulders of giants. Des nains sur des épaules de géants. Zwerge auf den Schultern von Riesen.

 
Eu e tu, nós, somos medíocres. Calma, meu objetivo não é a calúnia, a humilhação. É que nossa glória só é autêntica quando derivada da superação de alguma miséria subjacente. Porque o estado normal é inconveniente à humanidade, à mente, a mim e a ti. Não viemos prontos ao mundo. Mas nossa glória, porém, vai além de amarrar os sapatos, caminhar, pronunciar palavras; na verdade, nossa tragédia, nossa miséria, consiste em que nossa glória encontra-se além das nossas possibilidades. As experiências fluem no decorrer dos dias, dos anos, das décadas, e continuamos incompletos. É por partirmos do nefasto, do inconveniente, da incompletude, que a glória só é verdadeira se alçada sobre uma base inconveniente. Não há glória sem esculpir miséria; e daí acreditarmos mais firmemente nos triunfos quando se triunfa sobre uma tragédia. Nada mais parece tão autêntico quanto a grandeza oriunda da falta; o mais, do menos. A glória parece falsa se do início ao fim parecer feita de cristal. O final feliz não faz sentido se destituído de drama. É por isso que as comédias parecem mais artificiais que os dramas; e ocupam um lugar inferior na hierarquia das expressões artísticas. Embora a evitemos, somos fascinados pela tragédia. A felicidade só parece autêntica quando produzida a partir do fastio e da dor.
 
Trata-se da distância entre o que somos e o que queremos ser. Entre o que somos hoje e o que desejamos ser amanhã. Existe algo no hoje que, senão insatisfatório, poderia ser melhor. Atente ao futuro do pretérito. Atente ao “ia”. O “ia” é o que nos move adiante; porém, é a causa de toda a nossa lamúria. Desejas ser alguém que não és; desejas algo que não tens. Ao teu Ego, e ao teu Ser, algo falta.
 
A alguém falta uma tatuagem; a alguém falta um corte de cabelo; a alguém falta um vestido; a alguém falta uma luminária, um carro, uma carteira, um iate, um avião, uma casa; a alguém falta uma ideia; a alguém falta um lar; a alguém falta um cumprimento; a alguém falta um amor; a alguém falta passar de fase; a alguém falta jogar melhor o jogo; a alguém falta derrotar alguém; a alguém falta conquistar algo; a alguém falta saltar obstáculos; a alguém falta ser compreendido; a alguém falta compreender. E a todos nós, falta amor, e nos falta cumplicidade, e nos falta compreensão.
 
 

 
A um infante, falta-lhe um seio; então um chocalho; então uma pele sadia; então novos anticorpos; e então saúde; e então as palavras; e às vezes comida. A um velho, falta-lhe a vida. A este mesmo velho faltam expectativas, porque no futuro lhe espreita a morte. Ele não tem mais o futuro, e sem o futuro suas expectativas, seu dever-ser, resta ameaçado. Ele então se volta ao passado e agarra-se a ele. Suas expectativas impossíveis emprenham-se em sua vontade irracional de rejuvenescer, em reaver os amigos finados, os familiares que se foram, as gírias perdidas, os recintos, as praças, os locais que lhe eram caros. A ele falta o futuro, então suas expectativas voltam-se ao passado, perdido. Persistem, portanto, irrealizadas. A outro velho, também encarando o alvorecer eterno da vida, resta-lhe apenas um futuro posterior à morte. Resignado, volta-se a um além-vida. Suas expectativas estão fora do mundo. Persistem, contudo, impossíveis.
 
E eles não sabem. Não precisam saber; contudo, sentem. O inconsciente, o Eu profundo dentro de si treme, perturba, lampeja, enfurece, fraqueja, produz abalos sísmicos que afligem o corpo e a mente. Acomete especialmente o olhar e o semblante da face. No olhar perdido, no olhar extasiado, em uma ruga, em um sorriso reticente, em um coçar sutil nos cabelos, em um toque inconsciente num dos lóbulos das orelhas, ao inclinar o rosto, ao bufar, ao fechar os olhos, ao escorrer das lágrimas. O Eu retumba. Falta algo a si. Eis a miséria; a origem das insatisfações, das frustrações, da melancolia; eis, o sintoma direto da incompletude, de nossas limitações – em suma, da distância entre o que somos, entre nossa imagem de nós, e o que queremos ser, consciente ou inconscientemente, num amanhã mais ou menos intangível. E não importa o quão grande, o quão bela, o quão inteligente, o quão sagaz, o quão bondoso, o quão viril, o quão excelente; quanto mais distante, fugidio, improvável, impossível o teu amanhã, mais miserável serás – e mais a vida parecerá um purgatório terreno em teu curso.
 
Então, entram em cena os tais gigantes. Em tua mente aprecias algum gigante, não? Em alguma área da vida, seja qual for; teu modelo, teu guia; pelo menos, tua referência para acalmar-te os ânimos ou tornar a vida mais alegre, mais cômoda, mais significativa. Ele é um ator, ele é um escritor, um músico, um filósofo, um esportista, um diretor, um educador, um religioso, um professor, um amigo, uma mãe, um pai, um trabalhador; ele desenha coisas; ele é um apresentador; ele aparece nas revistas; ele te toca o coração; ele te estimula o cérebro; ele é a razão das tuas preces. Ele é provavelmente grande; vários além de ti o contemplam, o admiram, e mesmo o seguem. Ele inspirou alguma religião, algum movimento artístico, alguma corrente teórica, algum estilo de vida; produziu alguma técnica; fundou uma nova disciplina. Num mundo dominado por homens, ele é também mulher; a grande mulher que se reconstrói e que assim serve de exemplo para todas as outras. De uma forma ou de outra, o fundamental é que, pelo menos aos teus olhos, ele é teu dever-ser realizado. Parte de ti está nele; parte de teus valores, gostos, ideais, necessidades, aspirações, expectativas, estão nele e nela, só que realizadas.
 
E sabes aquela pessoa, algum amigo, algum conhecido distante, algum ídolo, que te parece tão distante, altivo, capaz, virtuoso, perfeito. Aquele que parece ter tudo; a quem parece faltar dúvidas, quem parece até mesmo sobre-humano. Ele é bem-sucedido; ele sorri; ele move-se com desenvoltura no espaço; ele comunica-se com precisão; ele economiza os atos; ele é preciso; ele faz justamente o necessário; ele é forte; ele é esbelto; é culto; é agressivo; é poderoso; é perspicaz; ele te excede em todas as tuas expectativas. Podes conhecê-lo; ele pode ser figura dos livros, das telas, das fotografias; pode ser uma miragem distante, tão imaculada ou colossal como se o teu mero toque o fizesse desaparecer da face da terra. Vocês parecem pertencer a dimensões distintas, e enquanto a tua tem três dimensões, a dele não tem limites.
 
Mas saibas que a mediocridade o aflige, também. Os olhares externos podem não perceber a mediocridade nos excelentes. Eles parecem “ter tudo”, mas dentro de suas mentes multiplicam-se expectativas, objetivos e aspirações fora da nossa imaginação. Também neles os fantasmas espreitam; também eles projetam no futuro, no amanhã, uma imagem de si melhor do que seu Eu atual. E também eles apoiam-se sobre ombros alheios – e também eles invejam estes ombros, e os enxergam de baixo para cima.
 
Pois esta é a função dos grandes: eles são os grandes paliativos da nossa mediocridade. Nós vivemos por causa deles e, às vezes, por eles. Estão sempre lá para nos resgatarem da lama e acalantarem a nossa miséria; para nos salvarem nos momentos ímpios. Estão lá como que para nos dizer, sempre que necessário, que a humanidade não é rasa; são provas da excelência, e assim da possibilidade da graça, da salvação, da felicidade. Sua função é salvar-nos provisoriamente do fantasma de nossa incompletude. Eles fornecem o sentido de vida que na maior parte do tempo nos falta. Eles mostram, num breve instante, que a humanidade vale a pena – que somos maiores, que somos capazes, que não somos rasos, que somos algo além de animais mesquinhos lutando uns contra os outros por pedaços de carne, moeda, poder; animais sofisticados, brincando com a apropriação dos sentimentos de alguém vulnerável e de um coração alheio e solitário.
 
Mas, em geral, nos apropriamos dos gigantes, de seus feitos, de suas obras, de suas pessoas, precisamente para permanecermos medíocres. O cristão que se volta a Deus quando é conveniente; o oblata que só é asceta quando surgem suas dúvidas; o descolado que se move ao rock para afastar o fantasma da falta de um sentido à vida; o viciado que conjura os deuses da rebeldia para justificar seus refúgios; um grande autor que é deturpado e apropriado para suprir as necessidades mesquinhas de um intelectual frustrado. Nós usamos os grandes ao nosso bel-prazer. Eles são como portos-seguros a que nos voltamos quando cai o véu que oculta a nossa mediocridade e temos dúvidas. São a luz a que recorremos quando tudo obscurece. Mas acalmada a consciência egoísta, voltamos então ao normal; à situação perpétua de nossas insatisfações e expectativas irresolutas, e ao nosso egoísmo conformista e resignado – porém perturbado consigo mesmo. Sem os grandes, nossas consciências rasas, nossa leviandade, nossa incompletude, nosso dever-ser inacabado estourariam aos nossos olhos e não teríamos para onde fugir. Tudo isso retumbaria claramente e só nos restaria o nada.
 
Mas tudo isso é uma glória falsa. É um paliativo, é analgésico, é refúgio que só perpetua o problema. Falta-nos a consciência de nós mesmos. É preciso dizer:
 
1) Os grandes também têm e tinham as suas mediocridades; lançavam olhares de desalento e apalpavam a testa desolados; também lhes atormentavam os seus demônios a combater e suas incapacidades – e também buscavam a salvação apoiando-se nos outros; outros que, aos seus olhos, constituíam seus próprios referenciais de excelência e salvação…
 
2) É preciso escalar os maiores ombros e olhar além deles. E assim retornamos ao provérbio que deu origem a tudo isso.
 

* * *


Nietzsche dizia que a humanidade é fatalmente rasa e que não há anões sobre ombros de gigantes, mas gigantes escassos, arredios e isolados, conversando uns com os outros, fazendo dos mortos frequentemente seus amigos verdadeiros; gigantes por ventura descobrindo e apontando caminhos e soluções para o mundo, mas estando fadados a serem incompreendidos pelos menores e, cedo ou tarde, reduzidos e ajustados para suprir as necessidades mesquinhas dos menos afortunados. Os anões estariam fadados a diminuir e ajustar os gigantes ao seu próprio tamanho diminuto – e assim a glória lhes escaparia, e tudo não passaria de obscurecimento, mentira e auto-enganação.
 
Mas a humanidade precisa superar sua incompletude, sua mediocridade; este imenso vazio no interior de cada um de nós; ela precisa superar a si própria, e por isso sofremos, e buscamos, e lutamos. É preciso escalar os ombros dos gigantes e ir além; e é preciso, no limite, fundir-se com eles, e entre nós todos, e conosco, em uma entidade maior, capaz não somente de enxergar além mas de produzir o próprio horizonte distante. Em qualquer uma de suas formas infinitas, em quaisquer das possibilidades, o impossível é, afinal, o nosso destino.
 
F.
 
 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s