notas aleatórias. “la strada”, federico fellini, 1954

 
Já faz algum tempo desde que me afastei do leitor e substituí a primeira pessoa, destarte a ligação direta com o “outro” assim proporcionada, por um tom impessoal. A ciência exige o afastamento. LIBIDOSCIENDI, contudo, é o projeto impossível em que a arte e a ciência estão unificadas; quando não há mais fronteiras entre o subjetivo e o objetivo; o Eu e o Outro; o humano e o natural. O destino da megalomania é o caixão, assim como são as cinzas que esperam qualquer projeto, inclusive os grandes. Especialmente os grandes. No final, não importa; embora também por isso não faça sentido algum não tentar.
 
Pois bem, ao ver filmes tendo a fazer anotações diversas e sem ordem, em geral notas com reflexões pontuais. Tenho a esperança de incorporá-las aos fichários um dia. De todo modo, interpreto partes do conteúdo argumentativo do filme, estabeleço conexões e faço algumas extrapolações – embora nunca ou raramente toque em questões estéticas.
 
Vou compartilhar algumas dessas notas, da forma como as elaboro no bloco de notas. Recebi essa sugestão de um amigo no curso de asterixês. Já devia ter começado há dois meses. Nunca é tarde. Postarei as notas. Não as maquiarei, vou reproduzi-las como as produzi durante o ato; e espero não tomar mais precauções agora que tomei essa decisão. Nunca se sabe o que o inconsciente pode decidir; mas de uma coisa estamos certos, será no sentido oposto à verdade.
 
Começo com o que vi hoje, “La Strada”, de Federico Fellini. Parte de mim já vivia em Fellini; daí haver certa identificação. Ele desenvolve ideias que fervilham na minha mente. Apoiar-me-ei, portanto, sobre os seus ombros. (Não me comparo; esta parte em comum é somente um milésimo de toda a minha totalidade, enquanto lá, no lado da excelência, ela constitua um ou dois décimos. Ainda assim não muito mais do que isso, e mesmo nos melhores cérebros e nos espíritos mais nobres, porque somos todos afinal humanos.)
 

* * *

 
19 min. + 43 min. o macho viril; o déspota. agressividade; ego desreprimido. o patriarca; a dominação física.
 
elementos principais:
 
– comando (dá e não segue ordens; recorre à força física quando confrontado, isto é, quando sofre qualquer constrangimento externo, ainda que na forma da mais terna sugestão)
– impõe-se com a agressividade física: voz grave e intimidadora, sugerindo a ameaça física. o espectro da ameaça então atua sobre o inconsciente alheio, especialmente das mulheres, e os intimida. busca se impor assim. como quando as nações recorrem a demonstrações pontuais de poderio bélico, quando as discussões diplomáticas são infrutíferas. no fundo está o primata e sua balaclava. o homem é um animal. só a cultura o distingue. mas ela é refém da obscuridade instintiva.
– a intimidação afeta “positivamente” a mulher machista, que se atrai pela mesma força que a fere (reconhecimento positivo de um oposto dominante).
 
31m20s. Zampano deseja algo que a mulher tem. Ele não pode espoliá-la porque está no meio dela, entre seus empregadores. Ela é da casa. Ele é um forasteiro. Ela acaba na posição privilegiada, de comando. A voz dele se transforma: perde a virilidade, a agressividade de costume; o tom masculino de mando; e torna-se mais dócil, quase submisso. A conduta do corpo, a hexis, muda de acordo. Ele assume características de um vassalo, um submisso. Isto é: do ego que se reprime ante o exterior, que se ajusta às consequências em vez de se impor sobre elas.
 
Ele constrange sua masculinidade, ainda que provisoriamente, para conseguir algo (um bem material) que a mulher tem.
 
 
(o argumento segue a metáfora do título. “a estrada”. ela é um conector para uma representação geral do sentido da vida. a “estrada” sintetiza o sentido geral da vida. há muito. giullieta é o indivíduo impossível, a criatura dócil, o espírito imaculado, impossivelmente inocente, insocializado, o bom selvagem, a matéria prima brilhante mas bruta, e perfeita precisamente por não ter sido esculpida pela humanidade – nem por sua bruteza, nem por sua nobreza, ambas mesquinhas. ela em tudo representa uma pureza humanamente impossível. ela será engolida pela vida. esse papel reaparecerá em “cabiria” – mas lá ela já terá se insulado em uma couraça, separando o Eu puro de uma persona brutalizada, para proteger-se. (e assim resiste e evita o amor, da mesma forma com que se teme a felicidade.) a giullieta de “la strada”, contudo, revive no sonho da cabíria idealizada, que se manifesta na cena do palco, em que ela é hipnotizada. neste momento de “cabiria” voltamos a “la strada”. é o mesmo personagem, o mesmo ser. e mesmo brutalizada, cabíria cede no final. mesmo brutalizado, o ser puro é traído pela vida, pelo mundo real. isso significa que não resta refúgio à sinceridade, à pureza ou ao amor, entendido como cumplicidade. é o mesmo em “la strada”. o melhor fim para cabíria seria a queda livre no penhasco. já a giulietta de “la strada”, contudo, não resiste e morre, insana. ela começara a morrer no instante em que passara a lidar e a ter de incorporar a obscuridade da vida humana. o mundo não merece os sinceros. mas em “cabiria”, ela escolhe viver. a ideia é fundamentalmente esta. é o drama de fellini. sua obsessão. ele está rondando o mesmo ponto, tentando entendê-lo e tentando exprimi-lo. giulietta o consegue. // os elementos narrativos confluem e vão adicionando elementos complementares que conduzem a essa síntese. seria interessante identificá-los. há mais, há mais. há elementos envolvendo o cristianismo, a fé, a devoção e as estruturas familiares e de gênero tradicionais. há uma relação entre a agressividade, a devoção e o pecado. há mais. é preciso retornar a estes pontos)
 
o componente religioso é importante. ele é uma metáfora que nos indica a oposição entre forças antitéticas. o “bem e o mal”. evidentemente fellini não é assim ingênuo; ele não tem contas a acertar com a origem burguesa. trata-se do conflito entre tendências opostas. há um naturalismo tácito. há uma visão geral da natureza e a humanidade está nela.
 
 
…A luta entre o bem e o mal. O amor e o ódio; a felicidade e o sofrimento. As forças que impelem à vida e que impelem à morte; eros, thanatos. a obscuridade que prevalece. a entropia que aumenta. a luz se apaga. o destino são as trevas.
 
Zampano lhe dá o trompete. Mas deixa-a para trás.
 
Ctba, 22 de maio de 2012.
 
 

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