um fim de noite alegre ao livresco bitolado

 
 
Uma rápida observação. Poucas vezes me senti tão justificado como há pouco. Um de meus inquilinos saiu do seu quarto, veio até a porta de correr da sala, pediu licença e me perguntou candidamente se eu não tinha um livro para lhe emprestar. Foi como se o menino fernando em seus seis anos ressuscitasse e emergisse de dentro de mim. (Eu era efusivo e colérico; pulava pelos rebentos de Minas e estourava bombinhas aos quatro cantos.) Fiquei um misto exultante de entusiasmo, alegria e orgulho. Finalmente esses entulhos de letras, palavras, memórias e sublimidades, e essa minha existência, serviram pra alguma coisa! Fui-me até a estante de literatura como um oráculo dirigindo-se aos pergaminhos sagrados. (Sabe-se como os oráculos são, na verdade, eternas crianças orgulhosas e entusiasmadas!) Meu inquilino é uma pessoa alegre, jovial, aventureira, e por isso, logo intuí, não precisa ser coberto por brumas e abismos (e sabe-se como os literatos, como todo intelectual, são cobertos por trevas). Claro, também não faz sentido indicar-lhe historinhas banais, daquele otimismo ingênuo, do tipo Pangloss, que já abundam nas capas das livrarias de fasthoughts. (Isso eu não pensei; é uma impressão já assimilada às entranhas mais profundas das minhas ramificações neurais.) Então, “Bartleby”, do grande Melville! Acabara de ler um pouco do “Moby Dick”, mas isso não influenciou a escolha; é porque “Bartleby” é uma das pouquíssimas obras em que um pensamento de longo alcance e ideias intrincadas associaram-se a uma sensibilidade de sutileza anímica acompanhada de uma humanidade intensa. Aquelas obras raras cuja grandiosidade deriva da mais pura simplicidade. Ah, “Bartleby”! Foi-me emprestado por meu orientador, no já longínquo 2008; e foi ele o responsável por minha aproximação com os romances e a literatura. Talvez ali tenha-se semeado um dos germes decisivos do meu interesse subjetivo pelo mundo afetivo e sutil da experiência humana. Bartleby; o louco puro, de uma irracionalidade impossível, de sinceridade cristalina, e por isso inviável. (Essa imagem atormenta os sãos.) Pois então, “Bartleby”. Estou certo que contribuí em uns dez centímetros ao enriquecimento espiritual alheio e, por este motivo, finalmente senti meus esforços produzirem algo significativo, e me senti justificado, como se a vida valesse a pena. Isso deveria ser uma profissão; espalhar Bartlebys gratuitamente por aí.
 
See ya.
 
F.
 

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