as travessuras de mônada, dois. a névoa plúmbea, a conspiração e o torvelinho de reminiscências

 
 
Mônada não presta. Eu já havia protestado contra sua tirania 18 meses atrás, em “A chuva e o mônada”. É preciso reforçar o caso, pois caso a monadologia e os astros estejam corretos e sejamos realmente derivações materiais de mônadas ectoplasmáticos, sempre existe a possibilidade d’Ele sentir um beliscão no pé. Certo, Mônada não tem sexo, ao contrário de Deus, que é Pai, mas que as moças perdoem-me e protestem com os lusitanos por não terem acrescido um gênero neutro ao vocabulário. Tipo um “das”. OK, entendo; esse ricochetear nas vossas inconsciências diz tudo e me compadeço com elas; está ali na parede, escrito em letras garrafais, “deves diminuir a entropia no mundo”. E portanto nos inconscientes. Aplicarei uma desinência neutra ao referir-me æ Mônada. Sempre apreciei a letra Æ. Soa feérica, coisa do cosmos. ÆONS. ÉON. ÍON. Repare como as coisas jupiterianas, das escalas mais macrocósmicas, às mais infinitesimalmente enredadas, das Supernovæ ao comprimento de Planck, têm essa tendência aos ditongos nasais. O movimento sonoro, desde a sua concepção na vibração das cordas vocais à reverberação das ondas por onde houver ar, suscita a voz do cosmos. Tipo o Ôm. A composição uníssona de um composto vogal; o som é como um fluxo eufônico sem pausa ecoando como ondulações balsâmicas na superfície do mar Mediterrâneo. Sem sulcos, percalços, arestas, timbres pontiagudos; como se a fita de Möbius se tornasse som – e que fantasmagórica seria uma sinfonia möbiana! Se æ benditæ Mônada ectoplasmáticæ existir, se æl não se reduzir às ficções escolásticas que atormentam os filósofos desde tempos filisteus, então a manifestação material dessa substância transcendental é um uníssono vogal ressoando pela polifonia do universo. Æ, portanto.
 
Mas chega de literatura kitsch. O lance é que Mônada não presta. Æl apronta; apronta com todos, é certo; mas sempre receei aprontar mais comigo. Eu sou especial, isto é, especialmente mal-afortunado. Meu orgulho consiste em divulgar minha má aventurança e colher alguns lucros simbólicos com ela. “Oh, ele é tão azarado!” Sim! E há uma purpurina meritocrática no azar. Pois quer dizer que contigo as coisas serão sempre mais difíceis, e, portanto, teus feitos serão investidos de acréscimo de valor. Pois o valor é a tradução psíquica do risco, da raridade, da dificuldade da vida. As coisas raras valem mais; o mais difícil enche de regalo os sentidos e as sensações. Assim, como um perneta ao escalar diligentemente três sequências de escadas íngrimes, mesmo se fores ordinário e fizeres coisas ordinárias, sendo azarado tudo se passa como se teus feitos tivessem algo de especial.
 
Bem, eu novamente deixei-me ir. O post tinha só três parágrafos e vinte e cinco linhas quando o elaborei, caminhando pelas ruas no decorrer dos eventos que descreverei a seguir – sinteticamente, eu prometo. Sim, eu sou avoado. Sim, eu sou o gajeiro absorto melvilliano, que se esquece das baleias, dos navios, dos mares e das escuridões, quinze minutos após subir no mastaréu. Mas eu não preciso de mastaréus, velas ou o horizonte dos mares. (Embora o Mediterrâneo… o Mediterrâneo…) Pra mim, na realidade, basta estar vivo para esvair-me em algum lugar perdido nesta ou na próxima dimensão. Seguramente, não vivo no mundo. Mas chega de confissões.
 
É simples. Eu tinha de ir aos Correios. Rua Holanda, Bacacheri. Um latejo enxaquecoso trepida na minha cabeça ao ouvir essas duas palavras. Significa que uma de minhas encomendas foi (1) taxada pela Receita e (2) realocada para ser retirada longe daqui. Da toca. Significa duas horas de vida perdidas e um trajeto deplorável – não gosto do caminho – até a A-C-F Bacacheri. [Consultar o rastreio e ver “EMISSÃO NTS. ENCAMINHADO PARA ACF BACACHERI, CURITIBA. AGUARDANDO RETIRADA” é um pulo no abismo.] OK. Fui-me. Chovia. Eu não tenho guarda-chuva. Eu não tenho carro. Nessas horas cogito trocar meus livros por um carro. Acho que daria um bom Ecosport – ou talvez mais, um CITROËN, !CREATIF TECHNOLOGIE!, com voz sexy de francesinha parisiense! Uáu! Bem, foda-se a carroça mecânica, eu fico com a minha toca, meus irmãos encadernados e suas consequências chuvosas.
 
Dirigi-me à Estação Tubo. Estou economizando para uma viagem, na verdade duas, e também quero emoldurar uns quadros – só Mônada sabe como molduras são caras; e um sapato a mais nunca é demais; e sei que a Cosac fará uma promoção de 50% mais cedo ou mais tarde – e eu ficarei sabendo dela; e sei que mais cedo ou mais tarde não vou mais aturar esta maldita tecla shift quebrada e arrematarei um Microsoft Arc ou um Logitech K800 no eBay. Hell yea, áu go. Ora, eu disse tudo isso para dizer que não peguei táxi. Embora a palavra “táxi” tenha ecoado quinhentas e trinta e quatro vezes na minha cabeça, em um único percurso até o Tubo. Mas então a minha sorte é o seguinte. Já atrasado, lembrei-me que o tubo mais próximo foi ceifado da face da terra – estão fazendo umas obras, estão alargando a via do biarticulado e, é claro, resolveram começar com o meu tubo. Orgulhei-me da minha memória, mesmo assim. Peguei o buzo no tubo adiante. Treze graus e chuva fina. Calculei errado o montante de roupas vestidas. Não deveria ter colocado o pulôver por baixo de um casacão mod que me faz parecer uma bailarina rebelde num show do Iggy Pop. Acabei suando no frio – a pior combinação possível. Tudo bem até aqui. Aproximo-me do destino, isto é, o tubo da Rua Holanda, e avisto uns pedregulhos no caminho. Mal sinal. O ônibus desvia da via central e desliza para a via dos carros. Mal sinal. Está perto demais do meu destino. Mal sinal. Saí no limite dos meus minutos disponíveis. Mal sinal. Sim. Passo do ponto. A Prefeitura de Curitiba, ou melhor, M-Ô-N-A-D-A, através dela, resolveu demolir precisamente os seguintes tubos: o da minha partida e o da minha chegada. A garoa virou chuva fina e a chuva fina virou quase-chuva. Um quilômetro em 12 minutos. O tubo seguinte, é claro, foi posicionado na base da escarpa do Bacacheri; o percurso portanto era uma subida. Tudo bem. Eu fui cantarolando, pra desperdiçar energia artisticamente, em vez de resmungar. Embora minhas oitavas arranhadas denunciassem resmungos. Chego aos Correios. Está cheio. Há uma senhora na minha frente. Como toda senhora, ela e qualquer mecanismo eletrônico são incompatíveis incomunicáveis. Ela demora 48 segundos pra retirar a senha. Eu aguardo. Retiro minha senha. 345. Considero o número fácil. Irritado, ou quase, sinto a necessidade de me considerar inteligente. Deslizo pela matilha de gentes em pé e vou até o lixo do outro lado da sala, e isso logo ao entrar no recinto, e jogo fora a senha. Esqueço-a antes mesmo de sentar no assento ao lado. Uma entrada triunfal. Calma, tudo bem, eu me lembro. Not. Certo, eu não tenho pudor; sou louco; então tenho licença para o absurdo. Deixo minha mala no acento e retorno ao lixo. Cato a senha: 345. Devolvo-a às catacumbas. Retorno ao acento. Há um aviso num dos caixas notificando que “o sistema caiu”. Sessenta e cinco por cento das vezes que vou aos Correios, “o sistema caiu”. Tento meditar um pouco e, antes mesmo de lembrar da letra do Ôm, esqueço da senha. Inconcebível! Eu sou cento e alguma coisa no WAIS-III; não pode ser, não pode seeeeeeer! (Vozes do Vegeta no meu coração.) Especulo: 354. Ahá, só pode ser 354. Estou certo que é 354. Bato o pé. Apoio o cotovelo esquerdo no acento ao lado (as pessoas, por alguma razão, não sentam ao meu lado). Contudo, considerando o prejuízo que me afligiria caso minha hipótese se mostrasse fraudulenta – eu perderia a minha vez, os Correios fechariam e eu iria embora amaldiçoando até o último alemão chucrute da história da Baviera – resolvo autenticar minha memória furada. A aura de sabichão déspota se desfaz antes de um segundo e eu já tremo antes mesmo de voltar ao lixo. As pessoas já me olham algo entre surpresas e perdidas. Eu chamo atenção da coletividade só ao existir no espaço público; é difícil me classificar e o fantasma que a cegonha colocou dentro de mim não derivou dos mesmos coacervados; eu me visto relativamente bem, embora estranho, dada a mixórdia de estilos incompatíveis; eu me desloco de um modo estranho, ao mesmo tempo com economia e precisão, dada a influência yoguiana, ao mesmo tempo com desengonço, dada a influência de noitadas de GURPS regadas a Super Smash Bros com miojo e coxinha frita. Eu pareço aristocrático, pareço esquiar sobre as nuvens, e então vou catar coisas no lixo. Simplesmente demais.
 
Bem, retorno ao lixo ignorando os olhares da coletividade. Entendem que sou alguma espécie de novidade entre a moda mendiga, e está bem assim. Eis: 345. FIADAPUTA, saca. Eu sou muito bom, o melhor, saca. Não só esqueço duas vezes seguidas um número de três dígitos sequenciais, mas o faço invertendo dois de seus caracteres. Meu inconsciente (paráfrase chique de burrice) só pode fazer de propósito.
 
Humilhado, retiro minha encomenda. Mas logo esqueço dos meus dois esquecimentos prévios. (Só me lembrei agora.) É uma câmera com bluetooth. Vou usá-la pros meus fichamentos. Em vez de transcrever os trechos dos textos, o que consome muito tempo, já que tento transcrever os pergaminhos de todo o universo, vou fotografá-los e acessar diretamente do notebook, usando um programa de reconhecimento óptico, e vou jogar o texto direto nas minhas planilhas em um quinto do tempo normal! Buahá! É o fichamento definitivo! Descartes não faria melhor! Bem, tenho ainda outras ambições, para variar, pois, afinal, eu não posso, não posso me permitir ser feliz. O ideal seria algum software, algum logaritmo de análise de conteúdo, que analisasse automaticamente o texto fotografado e alocasse os trechos automaticamente nas fichas adequadas. Isto é: *clic*, pá, tchá, tchátusk, tchutápin! Isso sim, seria hardcore. Mas não é pra mim.
 
A câmera obviamente não vem com cartão de memória. Eu já o temera; trata-se de uma câmera usada, embora nova. É claro que o vendedor conservaria a utilidade do cartão de memória ao descartar a câmera. Mas está tudo bem. Conheço uma loja de informática ali perto – aliás, no caminho para o tubo errado, o distante, no qual eu fora obrigado a saltar. Justificado, portanto, meu destino obscuro. Ela obviamente não vende mais cartões de memória. Portanto, a justificação se foi, o nada surgiu e só tive de andar mais ainda. Eis, o real. Môoooonada?!?
 
Raciocino. Os cartões de memória democratizaram-se populando as cestas plebeias das filas continentais das Americanas. Não são mais coisas a se trazer do exterior. Não são mais distintivos apropriados aos pais abastados e às moças sofisticadas. Raciocino: há um Walmart ali perto, e em frente dele, uma estação tubo. Útil + Agradável = Pueruféct. Não há nada mais popular que um Walmart, certamente, lá haverá cartões de memória. Pois não há. Nem guarda-chuvas. Faltam 28 minutos pro meu Yôga. Voo pro buzo. Está tudo bem, comprarei o cartão no Mercadorama, ao sair do Yôga, afinal, preciso comprar mamão. (E Springles, pá ver filme. Eu estou vendo Fellini agora. Estou chique. Me sofistiquei. Virei intelectual. Quem diria, de Cardcaptor Sakura para a nobreza de toga da artistocracia europena!) Volto a me considerar inteligente. Mas a chuva engrossa.
 
A temperatura caiu um grau e meio. (Sou um termômetro ambulante.) Ainda estou suado, mas motorizado. Há até lugar pra sentar. Estou satisfeito. Dará tudo certo. O veículo corre e gotículas pousam e riscam a janela; mas eu não escuto música. Não há nada como luz vista através da água. Me aproximo do meu tubo de destino. Bom sinal. O ônibus desvia da via principal e segue para a secundária. Mal sinal. Uns pedregulhos passam pela janela à direita. Mal sinal. Meu tubo é o próximo. Mal sinal. O tubo próximo do Yôga é o mesmo tubo da minha casa. Môooooooooooooooooooonadaaaaaaaaaaaaaaaaaaa…!!! Matou dois gajos com uma cachumbada só. Fiadaputa, saca. Susse. Tenho vinte minutos. Vou pro seguinte, sem problemas, meu pulôver não seca mas ainda sou gente.
 

* * *

 
Além de termômetro, sou também uma espécie de mapa humano, embora minhas funções geográficas sejam menos precisas que as termométricas. Penso no caminho mais curto, singrando entre as quadras triangulares, e tenho êxito. Mas isso não importa.
 
Eu passo por uma escola. É uma escola estadual, como todas as escolas estaduais, equivalente a todas as escolas públicas brasileiras, isto é, uma masmorra. Encrustada no meio de uma quadra decadente, com paredes decadentes, repleta de professores esquálidos decadentes, e cérebros decadentes, e espíritos intumescidos. Eu a conheço, um pouco mais do que qualquer outra escola decadente, porque fiz um trabalho ali na já longínqua graduação. A lembrança de uma vidraça quebrada e dos cacos pontiagudos restantes, como navalhas vítreas, persiste queimada no livro de memórias da minha mente. O cinza, o pátio central vazio de tons penitenciários, e estes cacos.
 
Eu não penso claramente nisso, na hora, mas sinto, e pressinto. As sensações tomam a forma de palavras, agora, reconstruídas em sequência lógica, para que tu, para que eu, possamos ler.
 
Eu me lembro rapidamente da minha infância; de uma sensação que sintetiza toda ela. Está escurecendo e garoando; tudo está úmido, tudo está intumescido; as luzes são filtradas pela névoa nívea que funciona como um filtro que a tudo refrata e alaga. Isso sou eu. Me lembro dessa situação na minha infância; a névoa plúmbea, e eu absorto nela. Eu olho para as crianças e me lembro, e me sinto afogado; já tantos anos; e eu sabia! Eu sabia que seriam tantos anos! Pois eu já queria ser grande. Eu sou louco, completamente louco, e já o era, desde cedo. Eu já queria ser adulto, e quando criança eu pensava e investigava a vida adulta; como seria ter 15 anos, e 18, e 25, e 30? Não era o suficiente; era inaceitável. O tempo zombava de mim. Por mais que tentasse, não conseguia tocá-lo, tangê-lo, apressá-lo, fazê-lo conduzir-me ao Fernando adulto. E isso me afogava. E, então, eu tentava pensar como eu pensaria no futuro. O futuro me fascinava. Eu queria a liberdade da vida adulta; ser criança me afogava, me prendia; eu vivia preso, preso pela escola, pela rotina, por meu corpo minúsculo, por minha ignorância, por minha burrice, por ter de dormir cedo, e acordar cedo; por ser, em uma palavra, criança, isto é, limitado. Meu horror, meu nêmesis, minha morte absoluta; a limitação, a incompletude, a separação, o incomunicável, a defasagem; a carta que não chega ao destino; a mensagem que se perde; o potencial que se exaure; o prodígio que desiste; o herói que tomba; a dignidade que se entorpe; a promessa que finda; a vida que degringola, lentamente, miseravelmente, insistindo debilmente, esfarelando-se; a maldade. Era o tempo. Era o início.
 
Eu me lembro, e me sinto livre, de alguma forma, porque cresci, porque me transformei no futuro – um futuro incompleto, pelo ser incompleto que sou, embora menos limitado, e por isso me reconforto. Mas ali, ao ver as crianças, eu me vejo, e me vi; e, ao vê-las, algo em mim projetou sobre elas a minha própria consciência infantil, meu próprio ser anterior, e então eu me vi, de ambos os lados, como se minha vida se fracionasse em duas; o Fernando de 27 observando os Fernandos de 7 e de 13; e eles, também, observando o de 27; e minha consciência, num ponto intermediário, recebendo as informações dos olhares de todos. E eles baixaram suas cabeças, entristecidos, por todo o percurso que ainda teriam de calcar para chegar até mim, o Fernando do futuro, o Fernando atual. E eu senti suas tristezas, como se fossem as minhas; por serem, afinal, as minhas. Todos eles, dentro de mim. Naquele instante, eu fui a vida adulta e infante numa só; e assim ressuscitou, por um instante fugaz, num relâmpago retrospectivo, o infante ansioso e incompleto dentro de mim.
 
O ser incompleto que, aliás, eu ainda sou.
 

*

 
Houve três fragmentos reconfortantes. As tardes geladas jogando Warcraft 2. Os sábados à noite vendo “Além do Ano 2000”. As tardes de domingo vendo “África, a Indomável”.
 
Ah, eu me lembro. “África, a Indomável”. As planícies do Massaimara. Rei Leão. Os arbustos corcovados; as folhas singelas. Pride Rock. Lembro-me de uma família de guepardos. Eram duas fêmeas, irmãs, e seus cinco filhotes. Eles eram os protagonistas, juntamente com uma leoa e suas irmãs e simbas e nalas, e uma hiena e três ou quatro juniores. As irmãs mamães-guepardo estavam em apuros; decorria uma das piores secas dos últimos tempos e a competição com os leões e as hienas era intensa, insustentável. Em certo episódio, as irmãs guepardo, enfraquecidas, descansavam sob uma árvore rodeada por um pequeno macegal, quando, numa infeliz coincidência, uma delas fora subitamente flanqueada pela mamãe leoa. O embate que se seguiu dissiparia qualquer dúvida meninesca a respeito de embates entre titãs, nos registros ingênuos do “quem venceria?!”. As divagações infantis, contudo, assim como a dos filósofos, não retêm as manchas de sangue.
 
De alguma forma, as duas escaparam, uma delas ferida, enquanto os filhotes se esconderam em uma toca ali perto. A irmã ferida, contudo, tivera parte do pescoço dilacerado, e a imagem seguinte é ela, no cume de um pequeno monte, deitando-se e apoiando a cabeça sobre as patas, e a irmã rodeando-a e lambendo-a a fronte, e o pescoço, como que tentando estancar o sangue e restituir a vida que lhe esvaia. As hienas se aproximam e a irmã maior vem e vai, enxotando-as, mordendo-as, lutando pela vida alheia. Poucos humanos fariam o mesmo. As ameaças aumentam, e a irmã arqueja com a boca aberta e o corpo inerte, exceto pelo estertor dos pulmões. A irmã maior afasta-se um pouco, então retrocede, como que envergonhada. Começa a escurecer e as hienas multiplicam-se, e a guardiã afasta-se em definitivo, sem no entanto deter-se em seu percurso e voltar alguns passos, hesitante, para então seguir por mais vinte, e então deter-se novamente e voltar a olhar para trás, canticando gritos agudos à irmã morta.
 

*

 
Enfim, eu penso na memória. E em como a minha, assim como meu ser, é ambivalente. Minha memória de curto prazo é catastrófica, como ficou-lhe claro no caso da senha dos Correios. Minhas dificuldades de aprendizado provêm daí, assim como parte de minhas dificuldades sociais. Minha memória consciente é atrofiada. Assim, meu aprendizado e minha atenção conscientes são de uma potência medíocre e excruciante. Mas no momento em que as experiências são depositadas no inconsciente, e passam aos cuidados do meu Eu mais interior, a memória agiganta-se e torna-se monstruosa, e então a curva de aprendizado subitamente dispara e passo a aprender numa velocidade estonteante, ao ponto de às vezes perder o fôlego e ficar à beira do colapso em função da atividade mental. Então, meu cérebro se aproxima do dos grandes. Mas é um cérebro cerceado por uma consciência atrofiada e uma memória pragmática quase inexistente. Como se a maior parte de mim fosse inconsciente e meu inconsciente hipertrofiado esmagasse o restante do meu ser – e, com ele, meus vínculos com o mundo. Eu não sou do mundo, e provavelmente a ele nunca pertencerei.
 
Æon, éos, íons.
 
F.
 
(P.S.: Mônada não se daria por satisfeitæ; é claro, e a chuva voltou a engrossar ao final do Yôga; não havia o bendito cartão de memória no Mercadorama; havia fila; a moça do caixa era novata e não sabia o código de nenhuma das frutas; não havia táxi; fiquei indo e vindo pelas calçadas com carrinho na mão procurando um táxi; achei-me muito inteligente ficando numa esquina, tentando dobrar a probabilidade de encontrar um dos laranjas, quando todos já tinham destinos definidos, portanto tendo sido melhor ficar docilmente à espera de um veículo no ponto; não aconcheguei os mamões com o devido cuidado e os escutei saltando no porta-malas a cada tranco; amassaram-se por completo, meus mamões!; e já o senti tão logo retirei as compras do carro; e a filha da inquilina fez o favor de apertar todos os botões do elevador, fazendo com que a porta ficasse fechando sobre mim enquanto tentava destrancar a porta do elevador para chegar em casa com 18 quilos de compras em um dos braços e contas a pagar trazidas à boca. Tu não presta, Mônada. Um dia, encontrarei um jeito de te estrebuchar. Pode crer. Pelo menos vou te beliscar o dedão do pé.)
 
 

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