notas. “oito e meio”, fellini, 1963. água e cristais; metalinguagem; dominação; narcisismo. etc.

 
 
Prosseguindo com o projeto de postar minhas notas cinematográficas feitas in loco. Daí o conteúdo e desenvolvimento caóticos. Como uma nuvem de ideias, sem maquiagem. Fellini novamente, e um bastante forte. (É um horror ver esses filmes; são muito exigentes e acertam em cheio certas questões importantes. Espero voltar logo aos meus desenhos japa.)
 

* * *

 
Por volta de 8 min.: visão sobre a função e natureza do cinema. Ponte com Tarkovski. Cinema, arte e aristocracismo; arte e filosofia; cinema e filosofia; arte, cinema e objetos intelectuais.
 
12 min. A autodenúncia. Metalinguagem burlesca. O filme faz troça de si mesmo. Ele próprio refere-se negativamente a cenas que ele próprio mostra. É uma tática típica de autojustificação, de autenticar um conteúdo de outro modo reprovável, sem no entanto modificá-lo substantivamente. Seu significado transforma-se, contudo, ao ser adicionado o elemento de autocrítica. Ele purifica-se e adquire outra forma ao ser submetido à autocrítica – assim deixando de ser ingênuo. A consciência demonstrada pelo autor da ingenuidade de seu próprio produto significa que a ingenuidade foi um objetivo conscientemente buscado, que assim anula a ingenuidade (são oposições lógicas, um não existe com o outro); pois um erro deliberado não é um erro inconsciente ou acidental e portanto não representa as propriedades e faculdades subjetivas e mentais do autor. O filme transforma-se em algo inteligente, adquire propriedades sagradas ao campo artístico e intelectual, assim tornando-se louvável. (E num belo signo distintivo, pois gostar dele e tornar público esse gosto comunica à coletividade que o proprio individuo compartilha das propriedades do filme. Isto é, perspicácia, sagacidade, inteligência, ironia, senso de humor etc. Mostrar o gosto é como mostrar a assimilação dos atributos do objeto de que se gosta. É a cumplicidade entre o ego e os objetos dos quais ele se apropria, inclusive os simbólicos. O Eu que exprime o objeto incorporando-o.)
 
40 min. a arquitetura mediterrânea. as paredes, as escadas. as escadas. os contornos arredondados. a visão que derreia, ladeia pelas extremidades sem esbarrar em quinas. um ambiente sem becos, sem cantos pontiagudos, sem ângulos retos. é como se o tempo ricocheteasse nas arestas, fluísse sutilmente pelo espaço livre de ruídos e de privações. rochas avançando mar adentro, incrustado entre águas cristalinas. a imagem da luz cristalina sobre as rochas e pedras, adquirindo um tom azul-esverdeado. o amplo céu azul e o calor de um sol enternecido. sombras delineadas sobre a areia clara. sensações reconfortantes.
 
 

 
idem. a ausencia da figura do pai. a ausência da ameaça, da agressividade, da lei, da violência, da ameaça. somente a jovialidade infante e o afeto da calorosa maternidade latina. a amistosidade da mãe.
 
1h7min o oculos cult, retro, rayban. o voltar-se ao passado é um elemento importante entre o instrumental distintivo da juventude “rebelde”: o próprio presente constitui uma ordem, uma norma; vive-se nele e é-se portanto limitado por ele; volta-se ao passado para recusar o presente – e a recusa é uma finalidade em si mesma, pois exprime a rebelião, a negação, isto é, o grito de liberdade; a busca pelo fugidio, o indizível, o indeterminado, o fantástico – e o fantástico e a negação vêm acompanhados de destruição, realizam-se pela destruição, embora estética, estilística. a forma específica desse voltar-se ao passado, por sua vez, depende da negação de instituições presentemente importantes associadas à imagem da ordem: ciência e tecnologia. o passado possui menos desses elementos, tornando-se portanto mais sagrado aos olhos do iconoclasta contemporâneo. o retrö realiza ao mesmo tempo a necessidade de distinção, a realização da rebeldia juvenil, a expressão e canalização da aflição (vazio) moderno e a negação artística da ciência e do mundo moderno (e com eles todas as suas principais características, como o progresso e sofisticação tecnológica).
 
1h40m dominação masculina. definição dominação: a vontade de x feita vontade de y. a sedução feminina pela agressividade e assertividade masculina.
 
1h55m, aprox. o medo da felicidade. “desviar-se do caminho certo”, por medo. pouco adiante: medo do amor. o narcisista medroso. o narcisismo como escape de um ego incompleto e frustrado, atormentado pelo medo da traição. fecha-se sobre si, mas conserva os ruídos e feridas da incompletude em seu íntimo, lampejando. há uma analogia possível com a cultura individualista contemporânea; o exército de narcisistas medrosos, perdidos e incompletos que se usam mutuamente, sem nunca envolver-se de verdade – por medo e por embrutecimento à traição. e, desse distanciamento, uma solidão e um vazio profundos, que não se resolvem com o hedonismo individualista – pelo contrário, este os agrava.
 

“Será que há algo tão claro e justo no mundo que mereça viver? Estamos sufocados por palavras, por imagens e por sons que não têm nenhuma razão de ser, que saem do nada e se dirigem para o nada. Que monstruosa presunção achar que seria útil para alguém o esquálido catálogo dos seus erros… E de que lhe adiantaria unir os farrapos de sua vida, suas vagas lembranças e os rostos daqueles que nunca soube amar?”
 

 

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