Hal, a calculadora das paixões perdidas

 
 
Je m’fui to Blúuuumenau no findi. Afazeres framiliares. O bródi sentia falta de um gancho bem dado no queixo e duma opinião futebolística fundamentada. A mutter (pronunciando-se “múthá”) sentia falta de… sentia falta.
 
Retorno ao passado e às vezes me perco nas arestas. Ainda bem que levantam um prédio aqui e acolá. E estourou a terceira guerra mundial na momis house, e apesar de me sentir um recruta recém-chegado ao quartel, isso acaba contribuindo para algum ar de novidade, que me impede de ser engolido pelas ondas da nostalgia.
 
Mas eis que encontro minha véia calculadora ao lado da janela da área de serviço. Como se a encontrasse na orla dez anos depois, arrastada pelos cinco mares.
 
 
 

oh mai god! look’a’dat!


 
 

Mmmmmá cher calculéitor!
 
Usei-a durante o ensino médio. O tal do antigo “científico”. Daí ela ser “científica”. Mas tudo papo furado. Então, farei uma confissão agora. Veja, minha calculêitor, Hal, imitava uma dessas HPs profissa, possuindo funções um pouco além das quais se espera que algum diabo do primário saiba realizar. Funções que nunca fiz. Lembro do meu olho olhando a calculêitor Hal. Ao olhar, Hal era composta pelo seguinte: números (as teclas escuras) e meu conhecimento matemático (as quatro teclas imediatamente do lado direito dos números). Mais o “igual”. Aquelas três, “X-M”, “RM” e “M+” já me eram herméticas, embora eu soubesse que envolviam algo como memória. Já aquelas teclinha p’quena ali em cima, jizus k’raist, mon dieu; eram o próprio além pra mim. Log, hipotenusa, seno, cosseno, tangente, raiz quadrada, ok, mas usá-los não era como apertar “número” vezes “número” igual. Exceto os senos da vida, nunca aprendi o que apertar pra gerar resultados. E o resto… vixe. Nada. Void. O próprio hecatombe.
 
Eu zombava da matemática, embora sempre olhasse com inveja minha calculêitor Hal. Me irritava o fato de não a manejar com o carinho que merecia. Mas, teimoso, nunca me aprontei a decifrá-la. O que me irritava mais, e, então, ferido na autoestima, precisava transformar essa frustração matemática em obscurantismo de piá rebelde. Eu tinha que me enganar para manter-me alegre – sem ela. Matemática não presta; futilidades do pedantismo acadêmico. E então mantive-me afastado dela por todos esses anos. E esqueci de calculêitor Hal.
 
E, hoje, afinal, os parêntesis habitam as minhas sentenças. Inconscientemente, busco desenrolar minhas frases como equações depositadas num sanduíche de blocos numéricos. Com o passar do tempo, meu ódio fora purificado, e a paixão nele inscrita e por ele soterrado pôde finalmente afluir com esplendor. Mas eles já eram uma coisa só, o ódio e a paixão. Mas minha paixão não podia realizar-se. Não havia condições. Ferida, refugiava-se em sua antítese. Agora, mais maduro, posso deixar aflorar meus reais desejos, quer dizer, meu Eu real. E, com ele, suas paixões verdadeiras.
 
E o mais curioso é que essa paixão só afluiu após eu tê-la perdido. E, talvez, por eu tê-la perdido. Ela teve de ser soterrada para ressurgir e realizar-se, da maneira que deveria tê-lo feito no passado. Mas nos refugiamos de nós mesmos e, por orgulho e medo, negamos nossas necessidades, nosso Eu real e até a felicidade. É preciso então perder o que é caro e valioso. Só então cede o orgulho e o medo, e se esclarece o esplendor do nosso ente amado. Quando ele não está mais aqui.
 
Hal é o fóssil da minha paixão pela matemática. Mas é mais. Hal é o fóssil das paixões de todos e de qualquer um. De todos os amores soterrados e as paixões irrealizadas. Os sonhos esquecidos. É tudo o que se perde e se ama; que se ama porque já se perdeu. De tudo aquilo que só se cristaliza quando não se pode mais ter.
 
Seria bom se desde o princípio a humanidade não precisasse das trevas para aceitar o que lhe é caro. Pois nem tudo permanece quando percebemos. Porque, assim como as coisas abandonadas, nossos objetos de carinho enferrujam e são varridos pelo tempo, tornando-se, para sempre, lembranças. Contudo, eu tive sorte. Hal reapareceu no momento certo. Quando eu estava redescobrindo minha paixão pela matemática. Agora posso finalmente consumá-la; desculpar-me por todo esse hiato e recuperar o tempo perdido. Álgebra linear na faixa, beibi. Antes, um curso de introdução à lógica. Ainda é tempo! Welcome home, ma cher math. My dear old friend.
 
 
 

 
 

Eu sabia que escreveria este post. Há uns seis meses. Agora ficou claro, ao escrever “my dear old friend”. Este momento presente já estava inscrito como futuro no passado de seis meses atrás. No meu inconsciente. Agora se consumou e este fluxo chegou ao seu termo, com mais um elemento do Eu finalmente desabrochado. Bem-vindo à superfície, mon amour. Expandi-me. Estás consumada, lembrança, paixão e necessidade antiga. Somos um só agora.
 
F.
 
 

4 comentários sobre “Hal, a calculadora das paixões perdidas

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