“persona”, ingmar bergman, 1966. os vários níveis de si. antecipação e sincronia. a loucur…buah : )

 
 
Este é difícil. Antes de proceder às notas in loco, farei um comentário, sintetizando o sentido da película do ponto de vista de sua relação com seu fundamento, a psicanálise.
 
Enfim resolvi encarar o experimento psicológico do senhor Bergman, que em suas mãos tomou forma de um clássico cinematográfico. Mas não se engane, não se trata de cinema “puro”, como linguagem ou forma de arte autônoma. Em “Persona”, como aliás esclarece o próprio título, Bergman usa a linguagem cinematográfica e os instrumentos expressivos que lhe cabem para realizar um estudo e uma experimentação psicanalítica. A estética aqui envolvida é, ou busca ser, a estética do inconsciente. Tal é o princípio : estética do inconsciente. Não saberia dizer se Bergman avança em relação a Freud, em matéria de conhecimento da psique – mais especificamente, da obscuridade da psique. (Como se verá, Bergman foca o “lado obscuro” e inscreve-se na tradição artística baseada no pathos, que pouco mais tarde desaguaria no niilismo artístico-filosófico, hegemônico no século XX.) Ainda é cedo, mas arrisco dizer que não há avanço teórico substantivo. Pelo menos em matéria de Psicologia. (Bergman tenta extrapolações mais distantes, envolvendo ontologia, mas elas já me parecem presentes em Freud, indiretamente vinculadas ao seu esquema psicanalítico.) Mas não tenho dúvidas de que “Persona” é uma descrição fantástica dos fenômenos sintetizados pela teoria psicanalítica. Se não avança em teoria, avança em seu teste e demonstração. Bergman foi capaz de arrancar das sombras ocultas do inconsciente, dos espectros interiores, invisíveis e fugidios, e atribuí-los forma visível, tangível pelos sentidos, através do filme. O inconsciente freudiano tornou-se enredo, cenário e atuação. Nesse sentido, trata-se de psicanálise em estado puro, tangível pelos sentidos, destiladas de abstrações racionais. Bergman traduziu a lógica racional freudiana em uma linguagem estética que nos permite sentir as faces obscuras do inconsciente, além de entendê-los. O que é mais chocante, aliás, é sentir externamente, a partir de fora, algo que existe dentro de nós. E aqui reside um dos trunfos do cinema : ele exterioriza coisas dentro de nós que, vistas de fora, tornam-se mais claras, esclarecendo o que fica recôndito por trás dos olhos. O cinema assim atinge um ponto arquimédio entre sensações difusas e obscuras do interior, que muitas vezes nos cegam, e o conhecimento lógico-racional, que por vezes nos confunde. É nossa subjetividade vista de fora e, assim, tangível, e, finalmente, apreensível.
 
“Persona”, pois, é a demonstração figurativa do inconsciente.
 
“Persona” me irritou e me irrita, porque antecipa, meio século antes de mim, uma série de ideias intuitivas a respeito do “espírito”. Tudo bem, já está tudo escrito nos vedas. O cinismo de Bergman me irrita, mas talvez por ser parte de mim fora de mim – só que antes de mim, assim me negando a própria originalidade do meu Eu. Sou eu, mas não me pertence, e isso me irrita. Tudo bem. Me irrita, mas tudo bem. Tudo bem, mas me irrita. Sabe por quê, mistá Berg? Porque é só uma questão cronológica. O senhor nasceu antes de mim. Certo, o senhor nasceu mais talentoso, talvez mais inteligente, e nasceu num país mais adequado e talvez com condições mais propícias. Mas meu trunfo, senhor Berg, é que não precisei saber quem você é, ou teu rosto, ou tua história de vida; não li uma linha sequer e não ouvi uma sentença saídas do teu cérebro, boca ou mãos. Vi “O nome da rosa” – que não era teu, pois é uma adaptação. Quer dizer, em pouco mais de uma hora do teu cérebro conversando comigo, através dos meios que lhe cabem, isto é, o cinema, fiz uma radiografia do teu espírito. Tudo bem, pode ficar irritado, embora morto. Está tudo bem, pois é uma recorrência das mesmas frações do teu ser, no meu. (OK, reitero e esclareço que o senhor bem que poderia ter transmitido um pouco do teu talento, em vez de somente a sensibilidade. Egoísta dos diabos. Aposto que tu acariciavas o próprio… [Meu deus, acabei de sugerir identificação entre nós, portanto, o leitor facilmente poderia deduzir que, se A é B e B é C, então A também é C. Ufa! Quaaase confesso em público o inconfessável]).
 
Bem, prossigamos. As notas a seguir são carregadas de redundância. Simples: houve uma identificação tão forte com os motivos desenrolando-se na tela e, através deles, entre eu e o Sr. Bergman, autor, que entramos em parafuso e, em minhas descrições, eu comecei a antecipar o que aconteceria em seguida. Então, quando a antecipação acontecia, eu ficava extasiado e descrevia o sentido da antecipação e, a seguir, desenvolvia uma nova descrição, a partir dos eventos presentes – descrição que era novamente comprovada pelo filme, nas cenas seguintes, constituindo uma nova antecipação, e assim sucessivamente. As ideias que eu desenvolvia nas notas acabavam ulteriormente tomando forma no filme.
 
A maior manifestação dessas antecipações, isto é, de minha fusão com o filme, são as inúmeras entradas em que escrevo “próximo do final do filme…” – quando o filme não tinha chegado sequer à metade. Porque eu antevia o final antes da metade e antevia o que viria a seguir; eu sabia, isto é, pressentia, ansiosamente, aonde o filme chegaria. E, se o fiz, foi porque o arranjo – as ideias, conceitos e sensações – que produziram “Persona” já estavam depositados em mim. Lembre-se que publico as notas em estado bruto – e que eu as vou redigindo à medida que vou vendo o filme, e não depois. Elas não são organizadas, não são uma descrição e um raciocínio acabados – e é este o propósito, mostrar o processo, em vez da coisa acabada. Material adequado, aliás, até para me psicanalizarem.
 
Enfim, acabou que comecei a escrever o argumento do filme a partir de pistas que o filme me dava. Foi como se eu tivesse me diluído nele. Confesso que isso nunca aconteceu antes – embora eu prefira outros filmes a “Persona” (como disse, ele me irrita), mas nesses casos se trata de uma paixão valorativa, de gosto, de preferência estilística, em vez de identificação existencial propriamente dita. (Talvez isso queira dizer que eu não me aturo, por não gostar de lidar com algo assim tão parecido comigo. Eu e o sr. Bergman não nos daríamos bem e provavelmente acertaria alguns socos no seu olho direito. Essa dualidade.) [UM LOUCO ENTENDE OUTRO LOUCO. FATO.]
 
Chega, bora lá.
 
 
 

 
 
12 min. estética. o rosto se apagando. cena fantástica. [em “desenvolvimento”, em cinema. elementos estético-sensíveis]
 
todo o filme. multiplos eus e contradições internas. ambiguidade e fragmentação da mente.
 
35min30s. estética. a cena de voegler surgindo por trás da cortina entreaberta. feérico, belo, fantasmagórico, fantástico e assustador. como aliás o próprio Eu interior.
 
o medo da identificação. a enfermeira [ALMA] já pressentia a identificação com voegler [ELIZABETH VOEGLER, a “paciente”] – medo de cumplicidade, medo de refletir-se em alguém. e antevia nela o seu próprio futuro; sendo este futuro uma situação de aparente sofrimento, de enclausuramento, insulamento. ela temia por si mesma. mas acabou se abrindo, porque o indivíduo tende à complementação, à cumplicidade; está inclinado a ela. embora a tema.
 
mais tarde, próximo do fim: o afastamento posterior à descoberta de estar sendo estudada. a sensação de desnudamento – de violentação psíquica, de descarte, de desvalorização; a aversão à objetificação, ao ser transformado em objeto; como se isso significasse uma limitação, como se sugerisse que se é limitado. é uma submissão. e, nesta submissão, percebe-se aquele que compreende como alguém que está a usando, como falso, não se envolvendo verdadeiramente. sendo o vínculo falso. a parte compreendida sente-se traída, pois vinculada, pela parte que compreende, que não se vincula. a cumplicidade então não existe – ou é assim compreendida como inexistente pelo compreendido. o compreendido sente dominado, usado pelo dominador para cumprir com seus interesses mesquinhos – um interesse egoísta de compreender outra pessoa e de reduzir sua integridade, seus sentimentos e exasperações, a um prazer de conhecimento. o usado, o compreendido, como que se sente e se torna um mero objeto para o prazer intelectual do analista, daquele que compreende. (e isso ocorre efetivamente, não sendo um equívoco do compreendido, caso de fato o compreensivo não seja cúmplice do compreendido). tudo isso decorre de uma abertura sincera por parte do compreendido a alguém desinteressado em si como indivíduo e que o considera um objeto – estando portanto separado e desvinculado, não anexando e fundindo seus próprios sentimentos ao compreendido – e assim não havendo vínculo, sendo ele unilateral, não havendo cumplicidade.
ele então se fecha e mesmo retalia a outra parte, como se reagisse a uma enganação. decorre o afastamento e o conflito. a obscuridade humana prevalece. (a sequencia do horror por volta de 40 min é uma representação perfeita disso: a solidão, a reação à deturpação, à violação de si. é a própria morte, o horror humano de ser limitado, a expressão de sua própria falta de unidade e de sua natureza contraditória. isso é escancarado pela traição. nós encaramos e somos atormentados pela própria obscuridade da natureza humana quando somos traídos, usados ou deturpados. é o fim. é o fim. prova: 57 min. o ódio; a criança rendida, ameaçada e subjugada por metralhadoras nazistas. veja-se o GRAU da analogia: com a II Guerra, com o nazismo, o holocausto subjacente! Uma analogia do conflito entre as duas mulheres, enfermeira e paciente, Alma e Voeglert, e o conflito, a maldade geral da humanidade. O close no rosto do menino é particularmente chocante. A ideia da morte se reforça. É a tendência à morte e à destruição no ser humano – imposta sobretudo ao outro. A violencia só se diferencia em grau e em conteúdo. Da violência psíquica, à simbólica, até a violência física devastadora e, no limite, o fim de toda a humanidade. tudo isto, presente num olhar fugaz.)
 
41 min. estética. a cena do reflexo sobre o lago. [estética + mente e sociedade] os níveis de si. pouco antes: contradição entre atos e valores conscientes.
 
47 min. evidencia. a enfermeira [Alma] passa a exigir cumplicidade: passa a exigir que voegler se abra, exprima-se. isto é: que abra seu interior, compensando sua própria abertura, para que haja reciprocidade, e assim ela se valorize, tenha seu valor humano reconhecido. novamente: a necessidade de cumplicidade com um Eu exterior.
 
(e ela passa a usar óculos escuros. porque os olhos são a janela da alma. ela sente-se tão desnudada que se fecha até fisicamente, cobrindo o principal veículo de contato com outra subjetividade – os olhos.)
 
 
 

 
 
(hahaha, antecipei a parada! “você me usou. agora que não precisa mais de mim, me joga fora”; “falso”; “me descarta”)
 
49 min. a recorrência à agressão física. no limite, quer-se agora matar o outro, por tê-lo usado. novamente: a violação psíquica é a morte.
 
(caralho. outra antecipação. Alma diz claramente: “por um segundo vc estava realmente com medo, não? – Um verdadeiro medo da morte, não?” Acho que eu próprio estou entrando na mente de Bergman. O raciocínio é claro; eu próprio entrei em sintonia e cumplicidade com ele.)
 
Alma, exasperada e destruída: “te darei algo que não vai esquecer”. quer combater e reverter a dominação. e ela temia isso desde o início – seu inconsciente já sabia. ele sempre sabe. ela queria ser importante para Voegler. o ser humano anseia por valor e o valor se gera no reconhecimento e, no reconhecimento, a cumplicidade.
 
[é o que desenvolvi em “sobre a compreensão”.]
 
no fim, deu. os papéis se invertem no final e elizabeth é submetida à análise de Alma e é desnudada. Mas não há cumplicidade entre ambas – uma apenas tornou-se objeto da outra. Elizabeth escondera sua obscuridade, seu trauma. A profundidade do trauma não a permitiu abrir-se e assim não a permitiu estabeleccer cumplicidade com Alma. A relação das duas, assim, não pode ser de amor, e lhes somente restou uma compreensão distanciada e objetificada, tornada uma veículo de ofensa. Isso fica particularmente claro na repetição da análise-contra-ataque de Alma, mas focando agora o seu rosto, em vez do rosto de Elizabeth. Há certo prazer, certa satisfação sádica nele. Alma, a enfermeira, satisfaz-se ao explicitar as misérias e os traumas de Elizabeth. Assim ela combate a traição com maldade – e a ciência, a análise, o conhecimento do outro, é a arma: o fato de ter de ser explicitado ao outro, comunicado, comprova sua natureza bélica, sua transformação em uma arma. A análise comunicada ofende; e a insistência em comunicar o inconveniente denuncia a intenção de ferir. O sadismo de Alma, por sua vez, é uma reação ao insulamento de Elizabeth. Ele transformou a compreensão de Alma em um contra-ataque e assim a compreensão dentre ambas baseia-se em fastio, em menos, em conflito, e não gera amor. O sofrimento não se resolve e a frustração persiste. Isto é: somente a verdade não basta. Não basta somente o conhecimento. É preciso o valor, é preciso a união valorativa entre os indivíduos compreendidos. Ansiamos e precisamos do valor; o ser e o valor.
 
[relação entre cumplicidade e amor]
 
e essa identificação transforma-se em um vinculo ontológico – e amor. e vai adquirindo colorações sexuais. elas vão tornando-se lésbicas. isto é: o componente sexual da cumplicidade, a fusão e atração dos corpos. o componente animal da interação da mente. alma abrira-se para elizabeth e, então, precisava que elizabeth fizesse o mesmo. quando isto não ocorreu, alma sentiu sua humanidade destruída por elizabeth e procedeu querendo destruí-la, primeiro fisicamente, depois, enfim, psiquicamente. o impulso em direção ao amor, se não realizado, vira ódio.
 
53 min. “fiquei feliz por uma grande atriz como vocë me ouvir”. o “grande atriz”. a relação entre capital e o valor do reconhecimento – assim, do grau de afirmação individual da cumplicidade estabelecida com este alguém de valor. como se ser reconhecido por alguém de valor ampliasse o próprio ser, a própria percepção do valor de si mesmo.
 
 
 

 
 
 
as paisagens em que as cenas se desenvolvem referem-se ao conceito geral desenvolvido no filme. é uma representação da mente. a sobreposição de rochas, seixos; a textura intrincada. analogia com o corte inicial das ramificações nervosas. assim, aqui há uma filosofia, uma espécie de cosmologia, uma visão integrando antropologia (e, dentro dela, a psique) a uma visão naturalista geral da realidade: a complexidade do real e os novelos de ramificações e vetores. o encontro e o choque; a união e a separação.
 
 
 
 

 
 
1h 11m. outra antecipação. Fica-se claro o receio de Alma por uma identificação com um fastio, com um trauma, com um menos, com uma obscuridade. “Não sou como vc… eu amo…”. E a cena fantástica da face das duas sobrepostas.
 
Portanto: para haver amor, para haver salvação e enriquecimento de si, é preciso que a identificação entre ambos seja baseada em algo positivo. Não em traumas. É preciso que um contribua para a superação do outro, não reflita e agrave seus problemas. Por isso, relacionamentos baseados em identificação de frustrações – em pena do outro baseada em pena de si – são refúgios e devem agravar os traumas e frustrações. É um amor vicioso; uma cumplicidade viciosa.
 
final. o filho bastardo. os dois bastões de ferro fundido separando-se em explosões de faíscas. é a visão de bergman da humanidade: chama, choque, conflito e separação. aqui, os sujeitos são incapazes de ascender à cumplicidade na aproximação de seus Eus. algo de obscuro opera e eles degeneram e decaem em ódio e conflito. a vitória da entropia sobre a vida. espero que ele esteja errado.
 
 
 

 
 

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