“Amarcord”, Fellini, 1973. A Insanidade Da Massa, Peixes No Aquário E Os Dançantes Solitários

 
 
Estou terminando a lista de filmes fellinianos que me propus. Adicionarei mais uns três que exploram o experiência feminina, “Mulheres e luzes”, “L’amore in città” e “Cidade das mulheres”. Para um trabalho meu numa disciplina de gênero. (Me interesso por tudo; é o fim. Estarei fazendo sociologia metaquântica dos cupins, em tempo, em tempo…) Depois acho que verei “A voz da lua”. Meu mestre e orientador me indicou este, quando tomamos um café. O título me atrai por si só; pois é Lua, e a Lua é o observador caridoso, tal como eu, que desce ao mundo e esforça-se por compreendê-lo e apreciá-lo, a conhecer seus trejeitos, a amalgamar-me com seus códigos e aprender as suas satisfações; mas sabendo que seu destino é a contemplação distanciada, resignada em certa medida, como o destino inexorável dos elfos ou dos semideuses nórdicos, viventes terrestres e transeuntes que adquirem a experiência da vida, para no final afastar-se definitivamente, alguns estafados, outros satisfeitos. Aqueles que em vida podem enobrecer-se e expandir os espíritos daqueles que os rodeiam; podem em sua solidariedade arrancar sorrisos perpetuamente e sublimar sua aflição existencial para ampliar mentes e corações alheios, porém sabem, ainda que de relance, pulsando, que seu futuro é o caminhar para o longe, para enfim de lá espiar o mundo e deixá-lo seguir seu percurso, como um ancião destacado a que só resta o inumano, as estrelas e o pó. Meu orientador disse que é um filme belo, o mais belo de Fellini. Vem a calhar, não? “A voz da lua” foi seu último filme. Como a biografia transcendental e a unção que os grandes realizam momentos antes do seu fim. Já tendo superado seu escárnio; como um filósofo militante que pode finalmente descansar. Coisa apropriada após debater-se com gravidades. A paz é afinal o que afigura-se no fim. No fim, até um desencantado felliniano buscou a serenidade do “sublime” e banhar-se de alguma luz – embora de um fulgor lunar, apropriado ao espírito colérico cansado que se volta ao mundo natural, como que antecipando, ainda em forma de contemplação cultural, o seu retorno definitivo a ele. (Identificação. Idem, este que vos fala é um enluarado.)
 
Vamos a “Amarcord”, uma sátira de Fellini à cultura italiana, ao fascismo, aos estereótipos das gentes, aos intelectuais, aos patriarcas, à política, às moças deslumbrantes; uma sátira das grandezas, dos baluartes e das estátuas que ostentam uma humanidade que só existe assim, no mármore dos monumentos, nas letras exaltadas das obras eruditas e nos discursos inflamados.
 
 

* * *

 
 
 

 
 
07:36. “quero, posso e mando”.
 
queimando a “bruxa” (um boneco) na fogueira.
 
um evento cultural; frisson coletivo. a brutalidade e o escárnio coletivos – mas, por ser coletivo, ninguém os percebe enquanto tais. todos rindo cultivando uma brutalidade – a morte de outrem – e satisfeitos com isso (prazer sádico). o egoísmo coletivo os impede de refletirem sobre si próprios e de questionarem a própria ação. pois “eu” sou bom; meu virtuosismo e minha qualidade humana é inquestionável. se todos suportam e confirmam minha atitude, se este egoísmo é generalizado, a cegueira ganha o suporte decisivo.
 
é como se o ponto de vista de cada um, seu “cone”, seu “horizonte” de visão, estivesse contido e limitado dentro de um conjunto fechado, de um aquário, e as fronteiras deste aquário são as fronteiras do seu egoísmo, sendo impossível enxergar-se de fora, assim, sendo impossível enxergar o seu egoísmo e assim a questioná-lo, isto é, questionar-se. dentro do aquário tudo encontra-se justificado, tudo assume um valor necessariamente positivo. a massa de água são os elementos do próprio Ego, e assim tudo o que o indivíduo vê são as confirmações de si. não há ruído. só se enxerga de dentro pra fora, e todos os vícios estão do lado de fora do aquário. os indivíduos então reconhecem os fastios, os crimes, os absurdos, sempre no mundo externo, e nos outros, e nos outros grupos, e nas outras civilizações – mas nunca em si mesmos.
 
assim, a massa pode cometer os piores atos, os crimes mais hediondos, mas seu caráter coletivo, o acordo entre todas as consciências presentes, confere legitimidade aos seus atos – uma operação inconsciente, cada indivíduo singular encontra-se justificado pelo respaldo coletivo, que atua sobre o inconsciente (aqui há um princípio importante: a dependência do inconsciente em relação ao reconhecimento/suporte da coletividade).
 
então, se violento e mato, mas todos ao meu redor vangloriam-me do absurdo – isso deixa de ser absurdo para mim e a todos, e transforma-se, aos olhos de todos, em virtude. e todos riem, e, pelo conluio, tudo é aprovado.
 
mas caso os mesmos atos fossem cometidos por outrem, seriam vistos como os piores crimes.
 
se o outro, um crime, um absurdo. se nós, justiça.
 
e esse reconhecimento negativo do mesmo ato, se atribuído a outrem, denuncia que o próprio grupo reconhece tacitamente seu caráter negativo, sua brutalidade, mas cega-se do fato ou inverte seu valor quando trata-se de si mesmo – como vimos, em virtude de obter suporte e reconhecimento de todos os lados, por todos constituírem, afinal, uma única consciência inebriada e insana. esse reconhecimento tácito, inconsciente, de estar fazendo algo deplorável, é enfim resolvido com uma agressividade extra : as energias do ressentimento são liberadas, e o peso da hipocrisia dissipado.
 
como quando detestamos um ente amado : o fato de no fundo o amarmos produz um certo choque, que se resolve com uma agressão especificamente intensa sobre ele. é o mesmo princípio. há uma congruência tácita entre os dois atos – positivo se meu, negativo sobre o outro – e essa contradição é resolvida dispersando-se o acúmulo de energia interna, relativa ao temor, de estar-se perpetuando o terrível. nada que umas pauladas a mais na bruxa não resolvam.
 
novamente: “quero, posso e mando”. déspotismo. tirania. o sonho da vontade humana em estado bruto.
 
~20 min. sequencia do almoço familiar. a civilização imperfeita, trôpega, alquebrada. a civilização à beira do colapso.
 
1h31min. estética. linda cena dos garotos dançando a sós, ávidos por amor. são seis ou oito, em frente a um casarão, no escuro, perto de uma ponte em frente ao pátio do casarão (ou ambos). há uma densa névoa que os cobre. a imagem é fantasmagórica e ao mesmo tempo poética, como um conto de edgar alan poe; mas há uma tragédia em toda essa beleza obscura singular; os indivíduos se perdem no escuro úmido. é um grupo de solitários, platônicos, distantes de seus objetos ideais. eles vivem com fantasmas. o amor está dentro de si. sem terem encontrado um receptor externo de suas potencialidades afetivas, só lhes resta a ilusão, que está dentro de si, e assim eles abraçam os próprios corpos e dançam consigo mesmos, como se estivessem a sós. na falta do amor externo, eles tentam de alguma forma amar um amor platônico e difuso dentro de si. seus amigos próximos desaparecem e num instante cada um refugia-se em si mesmo. e assim dançam solitários, e cantarolam; há emoções densas em seus gestos, mas elas são tão imaginárias quanto intensas… e talvez intensas por serem imaginárias. e há um abismo entre eles, embora só os separe alguns poucos metros, e embora todos sofram pelo mesmo e queiram o mesmo e projetem o mesmo – mas entre eles não é possível a cumplicidade, e assim persistem solitários, embora amigos, embora iguais. que diabos, meninos dançantes sob névoa plúmbea no inverno mediterrâneo.
 
 
 

juntos a sós


 
 

* * *

 
 
 

Lembro-me do diálogo entre o sargento Welsh e o soldado Witt, em “Além da Linha Vermelha”, quando Witt ladeia a varanda esférica, lenta e contemplativamente, numa ampla cabana elevada de feições indígenas, usada pelos japoneses como provável centro de comando antes da invasão ianque que os dizimaria. A cabana é toda de madeira calcinada e o teto é perfilado de orifícios que lembra a chuva de chumbo que ali caíra. Mas por através deles agora incidem feixes de luz que formam uma espécie de obra de arte, à medida que a câmera rodeia e permite que os feixes ofusquem a visão. Acompanha ao fundo uma sinfonia aprazível e amistosa. Witt percebe essa visão. (Ele é avoado e mantinha-se estranhamente distante e caridoso, em meio à carnificina. Jim Caviezel está fantástico no papel.) Welsh, o também fantástico Sean Penn, senta-se e apoia os pés sobre uma das mesas, insólito, observando o perambular sereno de Witt. Pergunta a ele, ao mesmo tempo cínico e admirado: “Como consegues. Como fazes isso? Tu és um mágico pra mim”. “Você não é durão como parece ser…”, responde Witt, interpelando-o. “Por que te escondes nessa muralha? Às vezes falamos como melhores amigos, noutros não nos conhecemos…”, emendando:
 

“- Don’t you feel lonely?”

“- Only around people“.

“- I still see a spark in you“.
 

Witt sacrifica-se no fim. A vida enfim o estafara. Ironicamente, é o momento em que Welsh cede e eflui do interior, sobre o ataúde de areia e o rifle do amigo fincado na orla de um riacho, servindo de lápide. “Where is your spark now?” É irônico. A dele, que já cintilava fugaz, eflui somente no momento em que o brilho do amigo se havia ido, para então ela própria apagar-se em definitivo. E, vivo, mas iluminado pelos espectros dentro de si, Welsh volta-se e marcha em direção ao futuro, no qual as fagulhas expiram difusas como o observador avoado. “There’s only one thing a man can do. To build an island for himself“.
 
Como o pelotão avançando sobre as colinas íngremes de Guadalcanal, sobre os bunkers e sob a chuva de chumbo, todos perdidos, a multidão caminha afinal solitária, cada qual dançando consigo mesmo. É o dilema felliniano, mas no campo de batalha da vida cotidiana.
 
F.
 
 

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