filipo, tu que és gato e felino, me digas, me digas, filipo!

Filipo não é mais. Lá estava a sua foto, pregada no vidro do balcão da padaria que me vende pão. Filipo e sua pelugem listrada em matiz de cinza e anil, que eu chamo de Félix, apesar de Félix ser preto e não ter nada a ver com Filipo, que é cinza malhado. Sente a sua falta alguém exasperado próximo à Simão Bolívar; doces lembranças à cama, quando Filipo os lambia a testa e ronronava sentado ao colo, na quinta à noite, acalentando os fantasmas da dona querida. A candura e a dor sincera do anúncio me permitiram deduzir o sexo da dona. Calígula desconhece a candura.

Escrever à revelia e deixar fluir o fluxo de si. Os modernistas, acho, faziam isso; acho, porque eu não sou modernista e não li um modernista sequer; mas porei Moby Dick finalmente a termo.

Eu escreveria este post mesmo se não tivesse a linha telefônica caçada e a internet marcada pelo apocalipse em… 23h17min. É o fim dos tempos. E tu ainda achas que felicidade anda junto de liberdade ? Feliz é o autômato, parceiro, minha amiga. O Oitavo Passageiro é o bicho mais feliz do Universo. Apegar-se é restringir a margem absoluta de liberdade aberta em princípio a qualquer um. O apego à vida é a primeira grande limitação dessa margem. O amor a si é outra. O amor ao próximo, outra. O amor ao amigo, outra. O amor ao amado e à amada, outra. Amor é limitação, é dependência. Mas antes que se entoem os estandartes do individualismo radical, assim o é qualquer valor. Perceba-se, não somos felizes livres. Os mais livres de todos são os déspotas. Mas nada resta àquele que só tem a conservação da própria vida, como o escravo. O segredo está em como a liberdade é abdicada. É preciso apegar-se ao que nos complementa e limitar nossa liberdade somente com aquilo que converterá a quantidade de liberdade concedida em felicidade dez vezes maior. Isto é: é preciso ser livre para conceder liberdade por aquilo que te fizer feliz. E é preciso fazer isso juntos.

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Se misturas molho italiano com azeite e parmesão até que o macarrão de gravatinhas não oprime o bucho. O segredo é sempre o queijo. Taca queijo que fica bom.

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Ah, sim. Me lembrei. Me lembrei! Eu tinha um gato cinza malhado que se chamava Félix. Entre a minha coleção de gatos, quando piá, na singela e campestre Minas Gerais. Félix era o meu predileto… eu o presenteei com esse nome porque os nomes romanos me inspiravam temor e admiração. Meu gato seria Félix, um centurião; um príncipe entre os demais. Eu havia me esquecido dele e me lembrei agora, depois de todos esses anos. O motivo de eu sempre ver os malhados e pensar no nome “Félix”. Félix, Félix. Uma lembrança reconfortante. Mas não me lembro do seu fim. Para onde foi Félix? – agora um desconforto emergiu. Escrevo ao sentir e pensar, sem parar, sem voltar; isso flui, cá está. Eu fui embora de Minas aos 7 anos de vida e talvez tenha deixado Félix pra trás; e de todo modo não me lembro do seu fim, se é que ele findou antes do meu exílio. É um abandono de um jeito ou de outro; qual abandono é pior, o esquecimento da morte de um ente querido ou deixá-lo vivo para trás ? Era isso; daí eu ter prestado tanta atenção a Filipo ao ver sua foto no balcão da padaria. Era Félix que eu abandonara. Parte do meu Eu perdido no tempo; ao mesmo tempo caro e dolorido. Escreva e te descubras.

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Ainda sobre a padaria. Gosto de catar bugigangas apresentadas a mim pelo destino, seja quem ele for. Algumas são absolutamente geniais, como este negócio a seguir:

Mama mia!!! Eis se não são os Mário Brúdas; encanadores assassinos de tartaruguinhas cogumelizadas. Sáaaaaaca só a sutileza do cidadão : primeira linha, isto é, o foco, o cume, la raison d’être : “CONSERTOS. ELÉTRICA E HIDRÁULICA”. Tudo bem! Nosso homem de atendimento rápido e eficaz é multitarefa, enquanto os Mário bróders são especialistas em seu ofício. Seguramente, é a marca do grau de desenvolvimento das forças produtivas. Mesmo em tempos de país do futuro um brazuca não põe pão à mesa negociando só uma parcela de sua própria carne no mercado. O Pai disse também que as coisas do intelecto são entidades afeminadas, portanto coisas a se evitar; mas a força dos braços, não importa o quão vasta, não é convertida em valor da mesma grandeza. O universo masculino é boçal em ambos os espectros; mas a força das palavras viris supera a dos braços viris. Os dois, claro, formam um par perfeito, pois tanto melhor se o campeão arromba sua fêmea e seus inimigos se a ocasião pedir. Mas, se divorciado da violência sublimada, da política, da agressividade pela palavra e pelos gestos, a força braçal tem pouco valor. O masculino plebeu nada pode diante do masculino burguês. Portanto, necas de ensino técnico aos encanadeletricistonhoneiros que aprenderam o ofício tomando choque e perdendo o dedão do pé.

Há mais. É 2012. 2012! Digo! Os tempos de Nintendinho 8 bits e Super Nes, os tempos áureos de Mario Bros., estes são tempos de vinte e dois anos atrás! Quer dizer! Um moleque que matava aula pra catar as benditas cento e duas estrelinhas agora é um macho crescido prostituído no mercado de trabalho. Mas mesmo ele guarda caras as suas lembranças de infância. Vejas como o panfleto é sofrível – exceto os irmãos Mário. Nosso encanador, aliás, fez questão de pedir esmero ao desenhista, que incluiu sombras e introduziu degradê nos modelos dos heróis de infância, apesar dos maiores custos de produção. Nosso homem multitarefa então olhou seus ícones queridos e suspirou, antes de sair pela cidade divulgando seus esforços. Talvez ele até se identifique com eles. O sentido e o sentimento queimados no fundo dessa lembrança fugaz resplandecem claramente na expressão dos Mario Bros. Um sorriso ingênuo e amistoso. Te convida para jogar a dois e é impossível recusar sem um aperto no peito. Quer dizer. Mesmo na crueldade do mundo do trabalho, na arena por excelência da luta de todos contra todos; na balbúrdia em torno da acumulação desesperada dos recursos materiais assimetricamente distribuídos; nas fortalezas egoístas e homicidas do masculino brutalizado; em todas essas trevas, lá está, cintilando no fundo negro, uma fugaz lembrança infantil. Daí ele seguir em frente, and here’s Mario!

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Sim, os Beatles são realmente fantásticos. Sim, minhas próprias lembranças empacotadas conectam-se a eles; é o White Album; há tanto no White Album! Do longínquo “treasure this few words till we’re together…” ao pássaro negro. Há tanto ali…

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Mente e Sociedade. Mente e Sociedade. MENTE E SOCIEDADE !

Eu caminho pela cidade à noite… atravesso avenidas largas conduzindo-me àquela praça, por entre as esquinas povoadas; as placas, anúncios, difusões, as luzes e as vozes salpicadas no turbilhão cosmológico em curso. Gosto de ir contra a manada de carros que aguardam no sinal vermelho, no meio da rua, como se me jogasse nos penhascos e me afundasse no espaço; eu escuto música no processo; e é pela música que assim me comporto. Stay the NightLead in the Light. Recognize. Tudo faz tanto sentido !

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Eles choram agora. Filipo se foi.

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Os canos de Mario levam-nos às estrutura de classe e a condição masculina na face da Terra assim humanizada. (Aspeie “humanizar”, se preferir; pra mim é pérfido.) Já os arabescos esmaltados e toda essa “organização” das coisas do lar e das que vestem os corpos e os domicílios; pois isso nos leva ao âmago da feminilidade assim construída, isto é, destituída de suas potencialidades criadoras. Os músculos da mente; o corpo da alma; o objetivo do subjetivo; a razão da emoção; o direito do esquerdo; o céu da terra; o indivíduo da coletividade; o menos do mais – quando foi que esse Monstro nos fragmentou dessa forma e colocou-nos uns contra os outros ? Quem é esse que nos mata ? O que é isso que te obriga a mentir e a dissimular e a separar a tua vida externa do teu Eu interior ? Por que precisas ser dois – e vários – para colocar-se e sobreviveres no mundo – mesmo que o nosso mundo, “humanizado”, expurgado das ameaças naturais que outrora arrancavam o nosso sangue ? E por que precisas ser outro e outra para si próprio e si própria; e precisas esconder-se de ti mesmo e ti mesma; e por que tens medo ?

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Faz meses que eu havia comprado um HD novo pro micro. Pro meu mainframe. (Meu orgulho faz parte do Monstro.) Veio com defeito e – malditas sejam as forças produtivas – o método de compra implicava a inexistência de garantia real. Minha muambeira, uma mulher sofrida obrigada pelas maravilhas da civilização a viajar à fronteira paraguaia toda sexta-feira; isto é, enquanto alguns brindam; para trazer contrabando pra mim. Bem, perdi meu HD. Bem, quatro meses depois ela me liga dizendo que havia trazido outro HD. Não, não há qualquer humanidade entre nós. Ela o fizera porque sou um bom cliente, isto é, um bom pagador. Quer dizer : há toda a humanidade entre nós. A humanidade do Monstro.

Josely, minha muambeira, mora no Novo Mundo e na “viagem” até lá havia uma moça no ônibus que eventualmente me olhou; ela próxima ao motorista e eu no acento do fundo. Os olhares simplesmente cruzaram e sustentaram-se durante a mesma extensão de tempo em que somos sinceros, isto é, 700 centésimos depois ela virou a face para baixo, e então para frente, e então jogou os cabelos pro meu lado e virou-se pro outro. Não houve flerte, não houve nada mais que um único olhar. Nesse instante percebi a mudança no semblante dela. Uma pequena onda de medo tomou conta dela. E de mim. Medo do olhar. Do olhar. DO OLHAR!

DONDE VEM TANTO MEDO ?

Diga-me, Filipo, quem é o responsável. Diga ao leitor, Filipo, vá lá, diga; desembucha e chega de olhar-nos com esse desprezo felino contemplativo. Sim, nós sabemos que somos desprezíveis; nós sabemos que nos ludibriamos com todos esses sistemas de signos, luzes e rituais sofisticados da nobre ficção humana. É tudo mentira, felino; mas diga, Filipo, diga, afinal, qual é o grande problema. Isso eu, nós, homo sapiens de todos os tempos, não entendemos.

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As empresas colocam homens nos setores de atendimento responsáveis pelas negociações e cancelamentos de serviços e mulheres nos setores de vendas e de suporte. Isso é a face da catástrofe; da estrutura da nossa alma incompleta e deste mundo social assim construído. Mas a questão é: eles são treinados para responder com vigor, para engrossarem a voz nas réplicas e entoarem ameaças nos blefes. Já elas são treinadas para serem dóceis e submeterem-se aos gritos irracionais de um cliente ultrajado. Ao Pai, ao Alfa, ao Demônio incorporado. Elas acalentam as feridas, eles as produzem. Elæs precisam fazê-lo para botarem o pão e entoarem o “humano” que nos é exigido ser; para a nossa própria justificação em vida. A mente fragmentada então fornece o seu leito confortável ao deus social que nos oprime. A profecia então se realiza e se retroalimenta indefinidamente.

FILIPO! ME ESCUTAS, FILIPO?! ME ESCUTAS?!? FILIPO!

F.

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