notas da experiência social e simbólica II : passado

 
 
Eu havia escrito alguma coisa sobre o motorista do ônibus do meu último retorno a Curitiba (que daqui em diante chamarei de Trendheim), partindo do Vale do Itajaí (doravante Asmat). Ele cantarolava alguma canção com aquele tom sertanejo melancólico, referindo-se, é claro, ao passado, e entre as frases tonificadas, quando o motor e o resto do meio não se intrometiam, se esclareciam, os amores perdidos. Eu havia descrito e estava legal; ele cantarolava e eu registrava, e duas véias que sentaram na primeira fileira protestavam e interrompiam o motorista, aumentando em uns 300% a probabilidade de entrarmos para as estatísticas. “Fernando Baptista Leite. Carioca. Estudante de sociologia”, no dia seguinte, no canto inferior direito da página de óbitos do Diário Catarinense. Um punhado de letrinhas insignificantes no jornal e um monte de carbono oxidado na mesa do IML, e tudo culpa das vovós tagarelas.
 
Mas eu escrevi sobre o motorista e gostei um pouco, mas eu mandei o computador desligar sem querer e ele sem querer fechou meu TXT que eu sem querer não tinha salvo após sem querer pensar que deveria salvar pois sem querer não salvar implicaria um risco sem querer eminente e eu sem querer decidi brincar com o destino e o destino sem querer correspondeu sem querer fazendo o Windows sem querer fechar meu TXT sem querer me avisar se eu queria sem querer salvá-lo antes de sem querer desligar. E eu sem querer imitar o James Joyce que foi sem querer imitado pelo Saramago, acho, como tudo já foi sem querer imitado e as ideias rerequentadas, embora sem querer nunca tenha lido três frases dos autores op. cit.
 
Donde esta e única primeira nota, minha reclamação de mim mesmo. Mas chega, precisamos de algum altruísmo. Já que o leitor não pode ser vítima de um idiossincrático frustrado, pois, insisto no fundamental, o tom melancólico, o saudosismo, o passado, amores perdidos. Flamejando pela canção.
 
É uma irmandade. São como morfemas dum mesmo bloco monolítico de significado ou monômios da mesma equação : o passado nunca é algo bom, embora seja louvado na própria melancolia. Mas essa purpurina é como nossa atração tácita pela tristeza, da mesma forma que as grandes catástrofes nos fascinam e desprezamos as histórias plenamente felizes. O prazer que acompanha o choro ou o grito de raiva; como aliás é sabido, nada disso é novidade. Mas persiste que todo esse prazer sádico não esconde seu caráter negativo – e percebido como tal pela consciência – embora esta adore ludibriar-se aplicando seu ímpeto hedonista a qualquer coisa passível de reconhecimento, aliás, até mesmo alguns hábitos necrófilos cabreiros de que não tratarei nesta oportunidade.
 
Se foi glorioso, se foi glória, não interessa, está no passado e não é mais, e assim se entristece; se foi ruim, se foi traumático, então ainda assim está lá, retumbando, no passado, o passado que marca, porque se deposita na memória e, através dela, no mais profundo de si; no passado está a juventude passada e os impulsos intensos de energia e vida que a acompanhavam; em uma palavra, no passado nada é plenamente satisfatório, positivo, regozijo; as alegrias e as felicidades tornam-se saudosismo e coloram-se de melancolia, porque passaram, e o bom já foi, e só seu espectro ficou, e isso é mau; e eu aceno para o meu passado – oh! – que se foi, tal glória; ou, se o passado é em todo negativo, persiste na consciência, porque o passado negro nunca cicatriza por completo.
 
E daí, “amores perdidos”. Porque amores perdidos sintetizam o saudosismo com o passado e a melancolia do tempo. Eles marcam mais; não tanto quando existiam, é claro, porque o amor perdido é um conto de fadas sempre maior que qualquer amor real – e eis que se esclarece, o ponto, mais cristalino do que nunca : o passado reside na imaginação, e a mente adora a imaginação mais do que qualquer outra coisa – mais do que qualquer coisa real, porque a mente é egoísta, e prefere apegar-se a um produto de si mesma, a um constructo, só seu, particular e irredutivelmente seu, a renunciar ao seu rejubilo egoísta e abraçar o real e louvá-lo como tal. E assim prefere-se a melancolia dos passados perdidos, desde que avivados e eternamente petrificados na memória.
 
Z.
 
P.S.: Eu só ia me desculpar em um parágrafo e a seguir colocar umas três notas citadinas bem mais leves, mas me deixei levar prometendo postá-las nas “notas da experiência social e simbólica III”, the revenge of da fallen, e tenho dit.
 
 

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