os insignificantes

 
 
Estou caminhando pela Marechal Deodoro, atravessando a Floriano Peixoto. Há muitas pessoas, é a região mais movimentada da cidade. Penso que tudo parece uma massa de formigas humanas adensadas, toda ela, como num formigueiro, buscando objetivos comuns, segundo métodos comuns. O caráter humano da massa adicionaria um elemento relativístico, e diríamos mais ou menos comuns – embora, ainda assim, comuns. Então me assalta um pensamento aristocrático, preconceituoso até, de que aquela massa, composta pela plebe, é, toda ela, igual, uniforme e amorfa. Isto é, subjacente, ordinária; e, mais subjacente, mas ainda real, descartável. Percebo isso pela maior carga de violência presente na atmosfera das partículas mentais, dos vetores simbólicos e das ondas sociais correntes no espaço geográfico. Não somente pela pobreza dispersa, as faces cansadas e os empregos brutalizadores – o operariado sofre, e seu sofrimento é tão subjetivo quanto real, e tão objetivamente perceptível, apesar do teor aristocrático do discurso que aqui veiculo. Agora estou no Guadalupe e então sigo pela André de Barros. Os carros se conduzem de forma mais ameaçadora. Eles avançam mais, buzinam mais e, lá e cá, as pessoas quase são atropeladas. Há mais gritos e xingamentos no trânsito; e eles são mais indiferentes – em relação ao grupo dos transeuntes, composta, em relação aos carros, de mais membros da classe operária, enquanto, nos carros, há mais gente das classes altas. Mas os carros mais nobres evitam essas quadras e, além disso, aqui há mais viaturas policiais. Aqui o sol torra mais forte e a fuligem é mais intensa, e lembro-me que as classes inferiores sofrem mais em ambos extremos, embora, por isso, sejam mais resistentes a eles. As lojas de roupas vendem a pior malha da cidade; as taxas de juros são mais altas; as filas dos bancos são maiores; os serviços públicos funcionam mal e porcamente; os pastéis vendidos são mais rançosos e oxidados; a carne moída das esfihas é mais gordurosa; os cafés mais aguados; os sucos mais artificiais; os banheiros mais imundos; os acentos mais sebosos; as cozinhas mais infestadas; as sobrelojas mais decadentes; as marquises mais carbonizadas; o ar mais fuliginoso; as calçadas mais sujas; os ônibus mais lotados; os pombos mais decompostos. É mais difícil encontrar um bebedouro ou uma pia para lavar as mãos. A disponibilidade de banheiros é assustadoramente menor do que nas áreas comerciais mais valorizadas. Os serviços evitam oferecer-se ao corpo do transeunte. A sociedade aqui se trata com repugnância, como se fosse uma espécie de chaga com a qual é necessário lidar da maneira mais econômica possível. A imundice da coletividade é tacitamente reconhecida – e, assim, a imundice é sobre ela imposta, é agravada, como se os imundos fossem culpados por sua imundice e a pena por serem imundos é serem imundos ao quadrado. Nos shoppings populares os banheiros são mais escassos e mais escondidos, e é preciso marchar até a sua periferia para encontrá-los e, lá, até os serventes são mais batidos e cansados. Deve haver uma hierarquia dos serventes; os aventais dos do Crystal são mais brancos que os do Shopping Itália e há mais química investida nas privadas; embora talvez isso não se converta em salários maiores. E aqui se percebe que há uma hierarquia do ar, das marquises, das fuligens, das avenidas, das calçadas, dos slogans, dos outdoors, das portarias, das buzinas, das peles, das retinas, dos trejeitos, das palavras, dos corpos, das mentes e de tudo o mais. O espaço geográfico está imbuído de uma massa de humanidade fragmentada, agonística, autofágica, em uma imensa articulação social e psíquica, que ao mesmo tempo molda a matéria do espaço físico e o valoriza segundo determinadas categorias hierárquicas, de variações e complexidades quânticas que são, não obstante, reconhecidas por todos.
 
Eu reelaboro toda a experiência e adiciono as deduções e corolários agora, no conforto do lar, digo, conforto do lar; mas, voltando à esquina dos marechais, quando ali me veio, como um relâmpago, a sensação-ideia da hierarquia, que virou pensamento, e lá, nesse pensamento, eu me lembrei do Aran Ralston, daquele filme do Danny Boyle, o 127 Hours. Aran que é um ser humano real; aquele que passou quatro dias preso em uma greta no deserto e que serrou o próprio braço para sobreviver. Aquele cujo feito virou um filme.
 
O feito de sobreviver o transformou em uma celebridade. A superação do seu sofrimento e da sua morte particulares como que tornam os expectadores um pouquinho mais vivos – e eles o aplaudem por isso; ele emociona e todos entram em um conluio apoteótico da vida humana, condensada em um representante apenas. E ele tornou-se mais especial, mais distinto, como se fosse um ser humano mais excelente por isso. Aran, um sacerdote da vida.
 
Quer dizer, nós, a gente, tão, tão desesperada por afirmação; nós, capazes e sedentos de atribuir + e – a qualquer coisa que pode atingir a visão, o olfato, o tato, o paladar e a audição; de estabelecer um acima e um abaixo também às sensações, pensamentos e percepções; e a tudo o que provém deles; nós precisamos valorizar alguém e alçá-lo a uma posição superior na imensa hierarquia das mentes e dos corpos, por ter sobrevivido. O sofrimento de um, e portanto o seu corpo, e portanto o seu “ser”, vale mais do que o de milhões, e os milhões são descartáveis, enquanto ele não – tal é nossa culpa. Por ter sobrevivido! Está acima de toda aquela massa humana puída, subvalorizada em todos os sentidos possíveis, cujo até o próprio sofrimento é marcado pela insignificância e pela vulgaridade, e é aturado silenciosamente, preso nas glândulas e disperso pelo sangue derramado; um sofrimento que não vale nada, não importando o quão implacável, e assim não se cristaliza, como se não existisse. A morte e o sofrimento são mais prováveis ali, naquelas esquinas, porque o valor humano insignificante da massa humana insignificante é transferido até as entranhas insignificantes, e assim ela se torna descartável. Então, torna-se claro, afinal, que a maior parcela da humanidade é amaldiçoada pela própria humanidade – que ela, aliás, constitui; e como a humanidade odeia tanto, tanto a si mesma; destinada ao nada, ao nada somente.
 
F.
 
 

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