espiralado estirado no sofá, azedo como o mais ressentido dos forasteiros

 
 
Eu estava estirado no sofá, lendo O apanhador dum… no campo de centeio, do Salinger. É um livro conhecido pra chuchu, um desses que até o jornaleiro pode conhecer. Ele não é como Nietzsche, Poe ou Clarice Lispector, mas faz parte do enxoval de cultura obrigatória do pessoal cult. Em especial o pessoal meio sub, que zomba dos cults, isto é, os cults. Claro, depois que eles percebem que todo mundo que acha a Veja um porre conhece o Nietzsche, a Clarice Lispector ou o Salinger, eles deixam de gostar do Nietzsche, da Clarice Lispector e do Salinger. É daí que eles passam pro segundo grau. É o rito de passagem, da Amélie Poulin ou do 500 Days of Summer pro Wes Anderson ou do Pulp Fiction pro Laranja Mecânica. O Nietzsche vira Foucault e o Velvet começa a virar Nick Drake e samba de raiz. E daí o sujeito entra pro terceiro grau e veste a faixa preta, para então flertar com o Scheller, Sokurov, Guillemin… Ou seja, é o pessoal jovem e bacana. Alguns começam logo cedo, bem cedo, tipo no Ensino Médio, e quanto mais cedo mais cedo eles vão detestar as coisas cults e, assim, tornar-se cada vez mais cults. Até um dia irem plantar batata em Antonina e tirar foto ao lado do José da quitanda, sentados numa bicicleta enferrujada em frente dum murinho de tinta branca descascada. Como uma pintura. Eles vão parecer como numa pintura em movimento, colorida pelos pinceis do ‘povo’, com eles como atores principais. E é então que o Charmander vira Charizard.
 
Mas eu estava falando do Apanhador pra falar que eu sei muito pouco de literatura. Tanto que foi uma amiga a me emprestar o livro – bem recentemente – e eu o recebi como se fosse alguma coisa tipo um René Clement ou um Shane Carruth da literatura. Mas não era. É um cara desses bem conhecidos, pop mesmo, que até a Scarlett Johanson deve ter na cestinha ao lado da privada. E o fato de até a Scarlett Johanson ler o Salinger não torna Salinger um bostinha qualquer. É que simplesmente algumas tribos não se contentam com bijuteria e daí precisam usar escritores pra desfilar. E eu falei isso pra dizer que eu não faço parte do meio. Nem do cara que escreve, nem dos que consomem, nem dos que comentam, nem dos que ostentam, nem dos que aparecem e tampouco dos que se escondem. Demoro bastante pra ler alguma coisa. E às vezes as letrinhas se embaralham e fica tudo parecendo integrais de Riemann ou coisa que o valha. É pior do que tentar falar japonês para a professora de francês. Vá lá, eu até consigo entrar na mente do autor. Mas eu sou sempre um intruso que respingou pra fora da trajetória. Sabe quando o espectograma dá aquele salto e todo mundo acha que a vovó morreu, quando na real foi só o Joãozinho que puxou o plugue da tomada, ou quando um elétron escapa da caixa, e fica perdidinho zunindo pela câmara de ar, trombando com os quarks e incorporando cargas estranhas, até não ser mais elétron e não poder mais voltar para a caixinha de gato. Pois é, esse sou eu. Eu só não sou um completo lugar comum porque eu também não consigo ser só um lugar comum. Isso seria difícil demais, ser um lugar comum. Então às vezes eu penso coisas e às vezes eu escrevo coisas com esses traços de elétron errante, como um lugar comum meio perdido pelos cursos do imaginário popular, escorregando por algumas pousadas eruditas. Todos esses bacanas sabem bem se esconder, e hoje os eruditos se fingem sempre de popular. De todo modo, eu também não consigo ser isso aí. Eu sou muito prolixo e megalomaníaco, e nesse sentido sou bem antiquado, infantil mesmo. Tipo o jovem marinheiro altivo do Pequod, sentado no topo do mastro principal, ‘pesado com todo o Aristóteles na cabeça’. Eu não tenho todo o Aristóteles na cabeça, mas o principal é que o navio já afundou, nesse mundo em que só se fala em quitandinhas e tudo é uma ironia pequenininha feita pra gente rir, gozar, zombar e tornar todo o mundo ridículo. Amém. Mas eu também não entrei nessa. E nesse sentido ainda estou no século XIX. Eu ainda estou lá em cima, no topo do mastro, mas lá no fundo, bem no fundo do mar.
 
Dito isso, digo que o Salinger é um cara legal. Eu vou passar o resto da minha vida descobrindo o básico, o introdutório, em tudo o que eu fizer. Como um especialista em introduções. Eu serei um grande especialista em introdução de qualquer coisa. Faço umas bruschetas sem vergonha e vou ficar parecendo o maior chef. Je suis étudiant. Vou citar alguma coisa do Dostoievski. Tem aquela árvore também, o bordo canadense, e as sequoias, que talvez sejam segóias ou seguóias, mas eu acho que daí já é algum bicho do reino animal. Aquele outro fulano falou de conectomas, e isso é o futuro da sociologia, pode crer. O Cohen queria comer a Nico. Tenho uma bandeira da Inglaterra e eu usava como capa no Ensino Médio (oh fuck). Os Beatles na verdade eram cinco (ou seis). Lá no Mercado Municipal tem uns peixinhos brilhantes. De fato, eu sou um remendo gigantesco de lugares comuns de várias áreas da vida. Mas isso talvez engane bem. Talvez cada fulano de uma área veja alguma coisa de interessante no remendo desmiolado, ao ver os lugares comuns de sicrano, que ele não consegue perceber como um lugar comum. Assim, jogando sicrano contra beltrano, talvez eu acabe me dando bem nesse mundo pós-moderno de detalhes espiralados pra todos os lados. Jogando futebol com bola de vôlei na quadra de tênis para a plateia de criquet, talvez vejam algo de brilhante em toda essa macaquice.
 
Dito isso, eu só queria dizer que eu estava estirado no sofá, lendo o Salinger, no meu reduto, a minha toca, quando olhei pra frente e vi o notebook em cima do pufe, aqui no meu lado, e o computador de mesa ali no canto, do outro lado da sala, com todos os periféricos piscando a mil, o roteador, as telas de LCD, o gabinente e os receptores de rádio bluetooth. Todas as luzes piscando. Ou seja: eu não deveria ser de Sociais… Na verdade, não deveria nunca ter colocado um pé sequer num edifício de Humanas. Mas eu adoro cada uma e todas elas, as minhas luzinhas. A minha vida pulsa naqueles pontinhos de LED e ao piscarem eu sei quem eu sou e que eu estou vivo – e para onde eu vou. O fato é que ela pisca e eu vejo, ela pisca e eu vejo, ela pisca e eu vejo, e eu fico inerte, vendo a luz piscar – e então eu sinto a grande perda de tempo, e que a cada piscar da luz do notebook – a que pisca esmaecendo, em intervalos maiores – eu tenho menos três segundos de vida, e de três em três eu me esqueci de alguma coisa ou de encontrar alguém, que poderia, talvez, mudar a minha vida; suprimir a carência, o abismo, pelo menos por um tempo. Quem sabe? Mas o fato é o seguinte: eu sei, sem querer, com a mesma naturalidade com que alguém respira ou conhece o nome da mãe, que minhas luzinhas representam a marcha para o apagão total de todos os quatro cantos do universo, e que a minha singularidade é ter a total consciência desse fato. Em todo momento.
 
Assim, os finais tem de ser sempre grandiloquentes e antiquados. Um imenso explodir espiralado, apoteótico, purpurinado e ridículo de lugares comuns.
 
Eis!
 
Boom.
 
F.
 
P.S: agradeço calorosamente aos leitores pelas correções ao meu analfabetismo. Na boa, valeu.
 

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