1 jun 2014. a morte na separação

Eu estava lendo a autobiografia do Bergman, no sofá, neste final de domingo; estava inquieto e fiquei triste, em particular após ler um trecho em que o autor separa-se de um amor infantil. Bergman diz “Voltei pelos trilhos para Varoms e pensei que se viesse algum trem naquele momento ele bem que poderia passar por cima de mim” e identifico a frequente relação entre o fim do amor e a sensação de morte, da presença da morte. (Ao eliminar-se o amor, o outro projetado e refletido como parte de si, morre-se também essa parte de si.) Me lembro então de minhas despedidas de M., ao levá-la pra casa. É um relâmpago pungente de solidão que suscita um vazio fúnebre que espreita de relance. Mas um pouquinho depois trocamos e-mails, às vezes imediatamente depois, ao enviar ou receber uma mensagem pelo celular. E no mesmo instante esse vazio sepulcral é dissipado e me sobrevém um alívio caloroso e reconfortante.

Acometido por esses pensamentos sobre a despedida, imiscuídos pela ideia da morte, parto da minha lembrança concreta e imagino uma consequência fúnebre. Não posso mais enviar mensagens e não as receberei, não é mais possível atenuar a solidão e essa impossibilidade a exalta. Ela morreu e parte de mim também. Vou olhar para as mensagens gravadas no celular, para os e-mails, que não mais se multiplicarão, não serão mais atualizados, não há mais novos instantes, não há mais respostas, não há mais reações e restam só as emoções da ausência; tudo foi paralisado e enturvecido por esse desfecho fúnebre e não há mais futuro que se projeta ou um presente que se desenrola.

O fragmento de morte vivido na separação provisória, o espectro da morte na separação definitiva e o tormento da morte na separação forçada pela morte propriamente dita.

Eu então me lembro do caixão fechado do Ayrton Senna, da cabeça estraçalhada, e do imaginário caixão fechado do pai de P., do tórax costurado, e do caixão fechado de Alex, isto é, dos fragmentos de Alex; cada morte e seus órfãos e abandonados, parcialmente mortos – mortos-vivos, com o fardo de aturar no coração a morte que o corpo do morto não sente.

Um comentário sobre “1 jun 2014. a morte na separação

  1. Triste e lindo, humana consciência. Nosso amor e a iminência da perda. Nossa perda a iminência do amor. O corpo doendo. A luz do dia nos resgatando. Eu te amo muito, e sempre farás parte de mim. Isto é real e maravilhoso, com dor, ou com brincadeiras e sorrisos iluminados.

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