Leibniz e Simmel: um esboço

 
 
Trabalho de final de curso apresentado à disciplina de “Teorias Sociológicas Contemporâneas”. Base para um artigo futuro, que explore o tema. Críticas, comentários e observações são muito bem-vindos.
 
 
Leite, F. “O Universal no particular: elementos da Monadologia leibniziana em Georg Simmel”. Set.2011
 
 
Eis a introdução:
 
 
I. INTRODUÇÃO
 
 
As antinomias marcam particularmente a Sociologia. Geralmente organizadas em pares, oposições como “indivíduo e sociedade”, “objetivismo e subjetivismo”, “macro e micro”, “estrutura e ação”, “sujeito e objeto” – a série parece estender-se ao infinito – parecem operar como princípios de organização da prática e campo sociológicos. Tomando os clássicos, Durkheim representaria um ponto extremo, o núcleo do pensamento sistêmico, objetivista, macro, positivista e Weber o outro, representante do historicismo, individualista e um quase hermeneuta; com o dialético Marx oscilando na escala, a depender da versão do marxismo, embora pendendo em cercanias durkheimianas. Não cabe aqui discorrer sobre a validade, proficuidade ou mesmo a verdade desses estereótipos – arquétipos, na melhor das hipóteses. Interessa-nos a posição de Simmel nessa escala das antinomias sociológicas. É comum vermos Simmel posicionado para lá do extremo weberiano; um intelectual do detalhe, do microscópico, da psique, das vicissitudes da prática humana; um sociólogo – sociólogo? – da especificidade, alteridade; um modernista riscando as fronteiras nebulosas da “pós-modernidade”. Nele encontraríamos apenas detalhes, contingências. Dele extrairíamos insights brilhantes, de fatos isolados. Simmel trata da especificidade e está a anos-luz de uma compreensão sistemática da sociedade e da prática humana. Ele passa longe do universal. Essa é uma imagem forte de sua obra, talvez estando para Simmel assim como o “hermeneuta” para Weber, o “dialético” para Marx e o “positivista” a Durkheim.
 
 
O presente trabalho é um estudo exploratório, um esboço, em que buscamos desenvolver o argumento de que, muito pelo contrário, Simmel busca o universal, mas o faz precisamente esmiuçando o específico. E o faz sempre a partir de um princípio comum, supostamente presente em todas as manifestações, áreas e dimensões da experiência humana. Sua recorrência ao específico – foco da confusão previamente citada – deve-se à sua abordagem essencialmente leibniziana, que tem na Monadologia (LEIBNIZ, 1991) a sua expressão mais clara. Trata-se de olhar para as partes em busca do todo; de identificar o universal no particular. E, nessa abordagem, as antinomias diluem-se em uma complexa visão da natureza humana, em que os pares de opostos estão integrados em uma unidade coerente. Defendemos, pois, (i) que Simmel aplica um pensamento essencialmente leibniziano; (ii) que esse pensamento molda a visão simmeliana da sociedade e da prática humana; e que é por meio e por causa dele que Simmel (iii) deve sempre recorrer ao particular e (iv) deve sempre destacar o universal no particular. Simmel foca as coisas mais representativas deste algo hipotético, evasivo e imaterial chamado “alma”. Ele busca uma fugidia e dualista unidade, um princípio, em estilo monádico, nas manifestações mais densas do espírito humano. Usa a razão e a sensibilidade para interpretar a coisa aparentemente imaterial que percebe, de alguma forma, em cada manifestação do que existe nos e entre os homens. Ele busca o ponto, o princípio, e em cada câmara do labirinto busca ressaltar a sua essência.
 
 
Tomamos três textos de Simmel como objeto, “Filosofia da moda”, de 1905, “Psicologia do adorno” de 1908 e “Psicologia da coqueteria”, de 1909. Conduzimos uma análise em profundidade desses ensaios, buscando extrair os princípios comuns de pensamento. A seguir, comparamos esses princípios com a Monadologia de Leibniz e desenvolvemos uma analogia, a partir da qual construímos as hipóteses de trabalho (KAPLAN, 1972, p. 88).
 
 
O trabalho organiza-se da seguinte forma. Na primeira seção, buscamos caracterizar o monismo no pensamento de Simmel, isto é, a visão dualista da natureza humana. Na segunda, terceira e quarta seções, buscamos demonstrar a operação desse princípio em três objetos específicos, a moda, o valor e o adorno e a coqueteria. Na última seção, estabelecemos a analogia com a Monadologia de Leibniz.
 
 

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