notas da experiência social e simbólica I

 
 
3 de setembro de 2012
 
 
Estou no ponto em que eu costumava pegar ônibus quando adolescente, em Blumenau, em frente à escola que eu costumava frequentar, quando criança. Estou sentado num banco de concreto queimado, o mesmo na calçada também a mesma. As tesselas fuliginosas do chão são as mesmas também e também é a mesma a pintura torta esverdeada dos muros da escola. Há quatro moleques no meu lado esquerdo. Eles calçam tênis largados DC, estilo skatista. Dez anos e o estilo dos pivetes blumenauenses continua fundamentalmente o mesmo, mas há uma inovação. Os cadarços têm cada um uma cor: vermelho, azul, cinza e verde. Há um pivete maior que os demais. Ele se porta com mais autoridade; seus sorrisos são mais escassos. A marca de líder da gangue é claramente demarcada na vestimenta: os outros usam os uniformes escolares protocolares, camisetas brancas com o “M” estampado no peito. O brasão dele é a bandeira de Tommy Hilfinger. O fato de transgredir o protocolo fundamental da instituição escolar enquanto os outros não o fazem investe-lhe da quantidade de capital machão decisiva para mandar neles. Mas aqui também temos uma inovação no estilo skatista; o pivete machão incorporou um signo distintivo do burguês gangster machão. Ele é uma espécie de Dom Corleone dos pivetes do Machado de Assis. Ele rastreia as redondezas com o olhar e interfere cirurgicamente nos debates internos, distribuindo ordens. Ele exerce e justifica sua liderança simulando jogar pedras nos carros. Os amigos correspondem e todos fingem estar alvejando os carros e consideram-se muito malvados por fazê-lo. Badass motherfuckers.
 
Tiro fotos dos sapatos.
 
Quando o ônibus chega, na fila, o Líder então surge por entre as gentes e me interpela, perguntando se eu estava tirando fotos. Que coragem! É a responsabilidade do líder; precisa provar-se para conservar o significado de um brasão Hilfinger e os privilégios que o acompanham. Digo que “sim” e páhhhhh que paguei muito pau pros seus sapatos e que queria uns iguaizinhos, especialmente o azul e o verde. Reajo meio catatônico, em outro modus operandi, e diante da falta de lógica da minha reação o despotismo dele entra em curto e não sabe que atitude gerar.
 
Ele entra no ônibus comigo e pergunta se era o Fonte ou o Aterro. No seu rosto está estampado um cérebro que não consegue decodificar a situação. Digo que é o Fonte, isto é, o ônibus que ele efetivamente devia tomar. Ele então se esconde nos fundos, seguro do dever cumprido.
 
 
F.
 
 

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